Publicado por  on 2014-08-22
APA Cananéia – Iguape – Peruíbe.
Entenda:
APA significa “Área de Proteção Ambiental”. Em termos das Unidades de Conservação é a mais permissiva entre os 12 tipos existentes no Brasil. Área em geral extensa, com certo grau de ocupação humana, com atributos bióticos, abióticos, estéticos ou culturais importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas. As APAs têm como objetivo proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. Cabe ao Instituto Chico Mendes estabelecer as condições para pesquisa e visitação pelo público.

BIOMA: Marinho Costeiro
Municípios: Cananéia- Iguape- Peruíbe- Miracatu.
Características:
ÁREA: 207.307,8200 hectares
DIPLOMA LEGAL DE CRIAÇÃO: Dec nº 91.982 de 6 de Novembro de 1985
Tipo: Uso Sustentável.
Plano de manejo: apesar de ter 29 anos de criação a UC ainda não tem plano de manejo, apenas um “plano de gestão”.
Lista de Espécies Ameaçadas protegidas nesta UC:
Papagaio-de-cara-roxa
Bugios
Tartaruga verde
Águia- cinzenta

Caderno de anotações:
Um certo gosto amargo permanece em minha boca mesmo depois de alguns dias em São Paulo, de volta da viagem que me levou a conhecer esta unidade em detalhes. Ela faz parte do mesmo sistema conhecido como Lagamar, cujas visitas começaram no Paraná onde conheci o Parque Nacional do Superagui, a ESEC e APA de Guaraqueçaba, e a RPPN Salto Morato. Todas são unidades de conservação federais e pretendem proteger este que é considerado o mais importante berçário de vida marinha do Atlântico Sul. O Lagamar é um gigantesco estuário cercado pelo maior trecho contínuo de mata atlântica do Brasil. Ligando os dois extremos, Paraná e São Paulo, há uma série de canais que começam em Iguape, sul de São Paulo, e seguem até Paranaguá, no norte do Paraná recebendo a água do mar por várias “aberturas”, ou barras. Do norte para o sul a primeira é barra de Icapara, em Iguape, depois Cananéia, um pouco mais ao sul; em seguida existe a barra do Ararapira seguida pela de Superagui e, finalmente, a barra do porto de Paranaguá.
A água do mar que penetra pelos canais recebe água doce de centenas de rios que nascem na Serra do Mar circundando todo o conjunto, formando a água salobra, ou estuário, propício à criação da vida marinha. O interior dos canais e baías são cercados dos dois lados por imensos manguezais, um dos mais importantes criatórios de vida marinha: várias espécies de peixes, crustáceos e moluscos, além de uma infinidade de aves marinhas que usam suas copas como habitat, dependem dele para seu ciclo de vida.
Os canais também são procurados por mamíferos marinhos como os botos-cinza, e tartarugas, especialmente a tartaruga- verde. Já o interior da mata atlântica abriga espécies ameaçadas de extinção como a onça-parda e os bugios, ou animais endêmicos, e também ameaçados, como mico-leão-da-cara-preta, ou o papagaio-de-cara-roxa.
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O belíssimo Papagaio-de-cara-roxa cujo nome científico não poderia ser mais bonito: Amazona brasiliensis


Entre os ecossistemas associados, neste trecho de 200 quilômetros de extensão (Iguape- Paranaguá), destacam-se a mata de restinga, dunas, praias, costões rochosos, lagunas e terrenos alagadiços.
Estudos mostram que este formidável conjunto abriga 849 espécies de aves, 370 de anfíbios, 200 tipos de répteis, 270 de mamíferos, e 350 espécies de peixes.
Por estas condições especiais o “Complexo- estuarino Iguape – Cananéia- Paranaguá” recebeu o título deReserva da Biosfera da UNESCO.
Só para se ter uma ideia da biodiversidade neste local, saiba que apenas a Mata Atlântica, em seus 7% restantes, concentra cerca de 20 mil espécies vegetais o que corresponde a 35% de todas as espécies brasileiras.
Especialmente por isto o “gosto amargo” que falei permanece. Porque parte deste tesouro esta se perdendo há anos sem que se tome uma providência para minimizar o risco. O grande vilão é o Canal do Valo Grande, espécie de “atalho” feito pelo homem no rio Ribeira de Iguape em 1852.
Mapa de Iguape, o rio Ribeira e o canal do Valo Grande.
O mapa mostra bem o “atalho” criado pelo homem, ou o Canal do Valo Grande.
Fonte:commons.wikimedia.org
Compare a distância das duas barras no mapa antigo e nesta foto que fiz a partir da ponta norte de Ilha Comprida, na barra de Icapara. A poucos metros do outro lado, a abertura que se vê é a barra do Ribeira de Iguape. Mais um pouco e estarão juntas.
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A barra do Ribeira de Iguape avança sobre a do Icapara. Mais uma consequência do Valo Grande.
A foto seguinte é mais explícita: mostra pescadores na barra do Icapara (lado direito) enquanto, do outro lado, pode-se ver a ponta do “cabeço” da barra do Ribeira (uma pequena faixa de areia penetrando para o mar). As duas estão quase juntas.
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A esquerda o “cabeço”, à direita a barra do Icapara.
Naquele tempo o porto de Iguape era um dos mais importantes do Sul do Brasil e ficava defronte a cidade. Por ele era escoada a produção agrícola da região, especialmente o arroz. O rio Ribeira serpenteava por trás da cidade até atingir sua barra alguns quilômetros ao norte de Iguape. Para economizar tempo, decidiu-se abrir este canal ligando o Ribeira diretamente ao “Mar Pequeno”, onde ficava o porto.
Desde então a cidade de Iguape literalmente naufragou. O canal, que deveria ter no máximo 40 metros, sofreu os efeitos da erosão provocada pela vazão do rio. Hoje tem mais de 300 metros de largura.
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O grande vilão do Lagamar: o Canal do Valo Grande que dividiu Iguape ao meio, e detona o meio ambiente da região.
Grande parte da cidade foi tragada. Ruas, avenidas, e até o cemitério ficaram debaixo dágua. Pior: junto com a enorme vazão vieram toneladas de sedimentos e muita água doce. Os sedimentos assorearam o Mar Pequeno e a barra de Icapara, por onde entravam os barcos e pequenos navios, inviabilizando o porto. E a água doce, que continua a fluir livremente até hoje, está matando o manguezal da região e provocando o fechamento de bocas de rios com capim.
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Isto foi um pujante mangezal, acreditem.
Com a morte do manguezal desapareceram os peixes. Não há mais ostras nas raízes aéreas do mangue, ou siris e caranguejos na área alagada. Suas copas desapareceram levando embora as milhares de aves que as utilizavam como ninhais e dormitórios.
Fiquei muito impressionado com a diferença que notei desta, para a viagem anterior, feita em 2007. Naquela época eu fazia a primeira série Mar Sem Fim para a TV Cultura e visitei a área. Ela já apresentava os mesmos problemas quanto ao assoreamento mas o manguezal ainda resistia. De lá para cá, passados apenas sete anos, a diferença é brutal. O pujante manguezal está se tornando um paliteiro de troncos secos. O capim, do tipo braquiária, toma conta das margens e bocas de rios. Não seu ouve mais passarinhos na mata. Nem mesmo um grande e surpreendente ninhal de Guarás que ficava na Ilha Comprida, filmado e fotografado na viagem anterior, resistiu. Não vi sequer uma destas aves.
Outra consequência desta alteração na geografia do litoral foi o assoreamento da calha do Ribeira.
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Consequências do Valo Grande: assoreamento da calha do Ribeira e erosão. Uma praia inteira foi engolida. As casas, antes na margem, agora estão caindo…
O litoral é uma área extremamente sensível. Ela é constantemente assolada pela erosão natural provocada por ondas, correntes, marés, ventos e ressacas. Por este motivo é proibido construir próximo, ou em cima, de praias ou dunas. Elas precisam ficar livres para que o “equilíbrio dinâmico”, como chamam os especialistas, não se altere rápido demais. Funciona mais ou menos assim: em qualquer barra de rio há uma constante vazão de água e sedimentos que se dirigem mar afora. Ao mesmo tempo o mar e as ondas investem do lado contrário jogando água salgada e sedimentos contra a força do rio. Estas duas forças naturais normalmente se equivalem, fazendo com que a barra tenha poucas e lentas alterações. Quando, de repente, uma destas forças se altera a outra passa a ganhar terreno, penetrando livremente o interior.
Foi o que aconteceu com a abertura do Valo Grande. Desde 1852 quando suas margens começaram a erodir, até atingir os 300 metros atuais, a vazão natural do Ribeira mudou. Em vez de seguir o caminho da barra, a vazão maior foi para o atalho criado pelo homem.
O curso natural do rio perdeu sua força e, na barra, o mar e os sedimentos marinhos começaram a entrar. O resultado é que a desembocadura mudou de lugar e cada vez se aproxima mais da barra do Icapara. As areias que o mar atirava em direção ao Ribeira, sem uma força contrária para equilibrar esta batalha, começaram a formar um “cabeço”, espécie de ponta de areia que avança na medida da chegada de novos sedimentos. Ainda sem a força contrária da água do Ribeira, a parte costeira próxima a atual barra do Ribeira está sendo totalmente erodida. Uma praia inteira desapareceu. E várias casas, antes protegidas, e em terra firme, agora estão desmoronando.
O resultado é desastroso para a biodiversidade de todo o Lagamar. A água salobra está ficando cada vez mais doce o que prejudica o manguezal e, em consequência, toda a fauna e flora.
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Sem a vazão natural do Ribeira de Iguape o mar cada vez joga mais sedimentos formando o “cabeço”. A barra avança em direção ao sul, ao encontro da barra do Icapara.
Visitei a comunidade de Subauma que fica 30 quilômetros ao sul de Iguape. Mesmo a esta distância já se notam profundas alterações no mangue: desapareceram as ostras e os crustáceos. O peixe diminuiu sensivelmente, o mesmo acontecendo com as aves. Sabauna, onde vivem cerca de 40 a 50 pescadores artesanais, está morrendo. Muitos já abandonaram a região procurando lugares mais distantes onde ainda possam viver da extração e pesca.
Ali conversei com o simpático português Abílio Barros, que chegou a Subauma em 1994. Ele é pescador e dono de uma pousada.
Com Abilio fiz um passeio de barco passando pelos rios Cordeiro e outros das proximidades. Em todos a situação é a mesma. Até a coloração da água mudou, ficando mais turva e mais doce. Quando chove na região de Iguape a água nesta parte do Lagamar fica totalmente amarela do barro que desde do Ribeira e penetra o Lagamar.
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Rio Subauma: notem a coloração da água e as raízes sem uma ostra sequer.
Para Efeito de comparação veja a foto abaixo, da raíz do mangue na região de Cananéia, ainda não atingida pela água doce do Valo Grande.
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Em Cananéia o mangue ainda está em bom estado.
A situação é crítica e já começa a atingir a ponta Sul da Ilha Comprida, espécie de faixa de areia com 70 quilômetros de extensão por 4 de largura, que segue paralela aos canais desde Iguape até Cananéia separando o mar de um lado, e os canais, do outro.
Abílio nos contou de outros problemas além dos criados pelo Valo Grande. A falta de fiscalização, obrigação do ICMBio e da Polícia Ambiental, é o pior deles. Sem esta ação caçadores, palmiteiros e pescadores profissionais têm feito a festa. O local era repleto de capivaras e jacarés que foram praticamente exterminados. O mesmo acontece com o Palmito Jussara constantemente devastado. Já os pescadores usam tarrafas e redes, proibidos em região estuarina. Por último os madeireiros entram na mata e derrubam o resta de madeira de lei.
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Abílio nos mostrou locais onde ocorre o corte ilegal do que sobrou de madeira de lei.
O ICMBio, e a Polícia Ambiental são impotentes.
Abílio ficou tão desesperado com a situação que emprestou o próprio barco ao pessoal do ICMBio de modo que pudessem cumprir sua obrigação e fiscalizar as ações predatórias. O resultado é que está ameaçado de morte pelos que depredam a região que o Governo Federal considera de extrema riqueza a ponto de torna-la uma Unidade de Conservação Federal. Mas, de que adianta criar uma UC no papel se não dão condição aos gestores para cumprirem sua função? É triste ver a situação se repetir desde o Sul do país até, pelo menos, esta que é primeira UC da região Sudeste que visitamos.
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Abilio casou-se com uma natural de Pariquera-açu. Com ela teve duas lindas filhas que são o grande orgulho do simpático português.
Mas o pior ainda estava por vir. De volta a Iguape visitamos Ilha Comprida, antes parte de Iguape, emancipada em 1992 passando a ser mais um município, cujo primeiro prefeito assumiu em 1993.
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Um bairro inteiro de Ilha Comprida em cima de dunas. Elas devem permanecer livres. As dunas agem como repositório de areia da praia comida pelas ressacas.
Ilha Comprida também se transformou numa Unidade de Conservação Estadual. Assim como no norte do Paraná, aqui também há uma superposição de Unidades de Conservação federais e estaduais. Parte da Ilha Comprida, as extremidades Norte e Sul, e a margem voltada para o continente, são da UC Federal. Já o interior da ilha é uma UC Estadual.
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Em vez da beleza da Mata Atlântica, um tipo de piuns na praia de Ilha Comprida. Vou passar a levar moto-serras na bagagem….
Ilha Comprida foi descaracterizada pela especulação imobiliária desde os anos 60. Centenas de casas de veraneio foram construídas em áreas proibidas como dunas, mata de restinga e mesmo na praia.
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Não se pode construir na areia da praia em razão da erosão natural. Esta recebeu o troco: foi engolida, destruída pela erosão.
E alguns tipos de pinus, árvore exótica, originária da Europa, e outras da Austrália, estão aos poucos tomando o lugar das espécies da Mata Atlântica descaracterizando a paisagem.
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Moradores ao longo do Ribeira de Iguape descartam garrafas de plástico. O rio as leva até o mar que, por sua vez, devolve o lixo na barra do Icapara. Ao fundo o maldito Pinus na Ilha Comprida.
Entrevistei o prefeito Décio Ventura (PSDB) que também é presidente do Comitê de bacias do Ribeira. Tive boa impressão dele e sua equipe. Me pareceram realmente interessados e engajados na questão do fechamento do Valo Grande.
Desde a abertura no século passado apenas uma vez o canal foi fechado. Aconteceu no anos 70 quando Paulo Egydio Martins era governador de São Paulo. Nesta época o Jornal da Tarde fez uma grande campanha pelo fechamento do Valo. Paulo Egydio comprou a briga. Uma barragem de pedras foi construída mas não durou muito. Em 1983 uma grande cheia do Ribeira destruiu a contenção e a água doce voltou a invadir o Lagamar, situação que permanece até hoje.
Desde então houve anos de discussões entre os agentes interessados: moradores de Iguape, pescadores, agricultores do Vale do Ribeira, políticos das cidades envolvidas e pessoal do ICMBio.
Os pescadores estão divididos. Conversei com Paulo de Moura, diretor da colônia de pesca de Iguape e membro do conselho da APA. São 1.800 pescadores cadastrados. De acordo com Paulo 50% querem a o Valo fechado, os outros 50%, pescadores de manjuba, única espécie ainda capturada já que costuma subir pela água doce dos rios, preferem que continue aberta. Os agricultores do Vale do Ribeira, especialmente bananeiros, também preferem a manutenção da situação com receio que, nas cheias, a água do Ribeira suba para a várzea do rio prejudicando seu ganha pão.
Depois de muito tempo um avanço: uma nova barragem com comportas móveis foi construída. A ideia era manejar as comportas mantendo-as fechadas em situação normal, e abrindo-as em casos de cheias, assim atendendo as partes envolvidas.
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A barragem com comportas está pronta. Falta apenas vontade política de usa-la.
De acordo com Décio Ventura na última audiência pública que aconteceu dois anos atrás, quando finalmente iam demonstrar o regime de operação das comportas um funcionário do ICMBio, Eliel Pereira de Souza (chefe anterior da UC), entrou com um embargo contra a barragem alegando que antes deveriam dragar o antigo leito do Ribeira.
Voltou tudo a estaca zero. A questão agora está na Justiça. Como a Justiça brasileira é mais lerda que uma tartaruga, não se sabe quantos anos mais serão perdidos até que a questão volte a ser discutida. Enquanto isto a biodiversidade local vai pro brejo.
É inacreditável que alguém do ICMBio tenha feito isto. Qualquer pessoa minimamente informada sobre questões ambientais sabe do problema causado pelo Valo Grande. Estou atrás de Eliel para que ele confirme a denúncia mas, até agora, não consegui contato. Sigo tentando.
Para o prefeito de Ilha Comprida a questão é política. Na época o Governador de São Paulo era do PSDB enquanto o pessoal do Governo Federal, inclusive ICMBio, é do PT. O Embargo teria sido feito para evitar que um governador da oposição finalmente inaugurasse a obra que todos almejam.
Ao entrevistar o atual chefe da UC, Márcio Barragana, comecei perguntando qual a posição do ICMBio sobre o Valo Grande. A resposta foi categórica: “somos a favor do fechamento!” Em seguida perguntei sobre o embargo proposto por um funcionário do órgão. Márcio levou um susto. Ficou sem palavras. Finalizou dizendo não saber nada sobre o caso…
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O cerco, armadilha para peixes proíbida na parte paranaense do Lagamar, é tolerado em Cananéia.
Márcio foi o primeiro chefe de um das UCs que visitamos que não foi a campo conosco. Apesar de termos agendado a visita há mais de um mês, sempre atendendo as suas recomendações para a época ideal da visita, quando chegamos em Iguape ele alegou diversos compromisso e não saiu conosco.
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Vista do alto do farol de Bom Abrigo. As praias do litoral sul de São Paulo permanecem milagrosamente desertas.
De Iguape fomos para Cananéia. Navegamos pelos canais, entramos em diversos rios, atravessamos a baía de Trapandé, e visitamos uma das ilhas que fazem parte da APA, a ilha do Bom Abrigo.
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O boto-cinza, uma das riquezas do Lagamar.
Márcio Barragana nos contou sobre um sério problema de erosão que ameaça Bom Abrigo causado pelo desmatamento desde que uma Armação de baleias se instalou na ilha, ainda no século passado. O pessoal da Armação usava as árvores como lenha para processar as baleias. Apesar da APA ter 29 anos de criação, ainda estão “fazendo estudos” sobre a erosão procurando uma possível solução. Será que é mesmo preciso tantos anos de estudo? Ou falta botar a mão na massa, sair dos gabinetes refrigerados, e iniciar um processo de reflorestamento?
Em geral a situação da parte da APA que fica em Cananéia é bem melhor que a de Iguape, embora o excesso de água doce já comece a prejudicar a flora da região. Entretanto, se nada for feito, se o Valo continuar aberto, é uma questão de tempo para acontecer aqui o mesmo que vi em Iguape.
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Bom Abrigo.
O maior problema de Cananéia é a pesca industrial com redes de arrasto de até 12 milhas de extensão, muitas com malhas fora de medida, puxadas dia e noite próximas às praias e ilhas do lado do mar aberto, e a eterna falta de fiscalização. Conversei com diversos pescadores artesanais. A grita é geral. De acordo com eles quando há fiscalização a Polícia Ambiental prefere investir contra os artesanais prendendo seus equipamentos. Quase nunca fiscalizam a pesca industrial, muito ativa nesta parte do litoral.
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A erosão ameaça Bom Abrigo.
Outro problema, comum a todos os municípios da APA, Cananéia com 15 mil habitantes, Iguape, com cerca de 30 mil, e Peruíbe, 60 mil, é a falta de saneamento básico. Ou seja, esgoto jogado direto no mar e nos canais. Lembro que este é a maior fonte de poluição mundial dos oceanos: esgotos sem tratamento.
No Brasil apenas 20% de todo o esgoto produzido recebe algum tipo de tratamento, normalmente o primário, que não resolve a questão.
Finalmente, Cananéia é muito procurada por pescadores esportivos que nem sempre respeitam as regras tirando do Lagamar as matrizes reprodutoras (os peixes grandes), ou os muito pequenos que muitas vezes ainda sequer atingiram o período de reprodução.
Para encerrar, outro problema apontado pelo Chefe da UC é o crescimento desordenado de Peruíbe.
Esta é a décima terceira UC federal que visitamos. E, com poucas exceções, é sempre assim: não vi ação prática por parte dos gestores, apenas “estudos”. É bom lembrar que todos os chefes que entrevistei reclamaram da pequena equipe. Muitas têm apenas uma pessoa: o próprio chefe… A exceção fica por conta da Estação Ecológica do TAIM que realmente parece funcionar e cumprir suas obrigações, e a RPPN Salto Morato, mantida e gerida pela Fundação Grupo O Boticário.
Num artigo recente que escrevi para o Estadão fui injusto com o TAIM ao qualifica-la como todas as outras. Recebi do chefe o seguinte correio: “Uma pena o comentário sobre a estação ecológica do Taim, pois nao é uma desculpa nao abrir para o turismo, pois se trata de um banhado inacessível. Além disso, existem diversas trilhas no entorno com guias locais, onde até passageiros de transatlânticos, observadores de aves, tem utilizado. Além disso , mais de 500 trabalhos científicos estão disponíveis na unidade e mais de 40 pesquisas estão sendo realizadas hoje. A melhor divulgacão disso ocorrera com o plano demando (SIC) que esta se iniciando e com profissionais da mídia interessados em mostrar o lado positivo das unidades de conservacao federais. Ass. Henrique Horn Ilha Chefe da Esec do Taim”
Respondi ao Henrique que ele está correto. De fato o TAIM jamais poderia ser aberto ao publico pelas razões que ele explica. E é verdade que há trilhas no entorno com guias que levam os visitantes, e muitos observadores de pássaros constantemente visitando a UC. Eu mesmo os encontrei quando de minha viagem. Fui infeliz no texto do jornal. Aproveito este espaço para me retratar.
Minhas maiores questões com relação às UCs federais são, em primeiro lugar, a quantidade de possibilidades. De acordo com a lei do SNUC são 12 tipos. Tenho a impressão que não precisávamos tantas. Na minha visão isto complica a categorização de muitas delas.
Outro motivo de críticas é a pobreza da grande maioria em termos de gente e equipamentos o que, mais uma vez, não é o caso do TAIM. De todas que conhecemos ela é a mais bem equipada.
O problema aqui não é das chefias, mas da penúria do ICMBio que tem poucos recursos, um orçamento dos mais pobres entre as autarquias ligadas ao Ministério do Meio Ambiente.
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A pesca industrial puxa redes de até 12 milhas de extensão 24 horas por dia a poucos metros das praias de Cananéia. Não há fiscalização.
O terceiro ponto que me faz critica-las é o pouco conhecimento da população sobre a importância das UCs e a falta de divulgação das pesquisas realizadas naquelas fechadas ao publico, especialmente as Estações Ecológicas e as Reservas Biológicas. Se são consideradas importantes para pesquisas que deveriam beneficar a população brasileira, ou nosso maior ativo, a biodiversidade, era de esperar que houvesse constante esforço para mostrar estes resultados aos donos destas áreas: o brasileiro comum. E não vejo isto acontecer.
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Praia de Cambriu, praticamente deserta, seguida pela mata de restinga, depois a Mata Atlântica que cobre a ilha do Cardoso.
Finalmente, o derradeiro ponto diz respeito às chefias das UCs. Em poucas delas vi ação de fato. Ou os gestores estavam assumindo na época de minhas visitas, caso da APA e ESEC de Guaraqueçaba, e do Parque Nacional da Lagoa do Peixe, ou parece que estão sempre “estudando” questões urgentes, poucas vezes agindo de fato.
Até agora, repito, só vi duas exceções: o TAIM, e a RPPN Salto Morato. Ainda é cedo para uma conclusão final. Nesta série me propus a conhecer as 62 UCs federais da zona costeira. Até o momento visitei 13 delas. Mas o diagnostico, até agora, é triste. Oxalá, ao conhecer as outras, eu possa mudar de opinião.
Adoraria que acontecesse.
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SERVIÇOS
O LAGAMAR pode ser visitado em qualquer época do ano mas recomendo que as visitas sejam feitas a partir de Março até Outubro. A temperatura nesta época é ideal e o colorido do inverno realça a beleza do local.
Em Iguape há dois ótimos restaurantes: o Panela Velha , rua 15 de Novembro, de Cris Vanei, serve o melhor camarão à grega da região. Outro imperdível é o Empório Mondo Vino, do paulista Paulo Magalhães. Fica na praça central, em meio a um casario  colonial preservado e bonito. O Empório é uma espécie de bar e restaurante, com boa carta de vinhos, ótima de cervejas, sanduíches caprichados, além de pizzas e outros pratos bons.
Em Cananéia recomendo vivamente o Pont’s Café, na Avenida Beira Mar 71. 13- 99779 2589/// 13 – 3851 1262 ou wwww.restaurantepontscafe.com)
Tanto em Iguape, como em cananéia há diversos hotéis, pousadas e marinas. Basta pesquisar na internet que você encontra uma opção ao seu gosto.
Em Subauma procure a pousada do Abílio, que conta com vários barcos para pesca ou passeios. A pousada é simples mas conta com toda a comodidade: ar condicionado, quartos bons, etc.
Abilio Barros – Subauma
13 – 997199804
 Para aluguel de lanchas em iguape ou Cananéia recomendo estas pessoas:
Paulo – diretor da Colônia de Pesca de Iguape
13 – 997014917 – Colônia 13 – 3841 46 61 
Carlinhos Ratinho – pescador Cambriu, Cananéia
13- 991570865
Yugi – dono de marina, Cananéia
13 – 3851 6126
www.marsemfim.com.br 
Está no ar a R