11 de mar de 2015

A seca no Cantareira - autoria Julio Cerqueira Cesar Neto

A seca no Cantareira se deve à ausência de investimentos pelo governo estadual (Sabesp) em novos mananciais para a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) após a conclusão do próprio Sistema Cantareira há 30 anos, período no qual a população da região aumentou de 12 para 22 milhões de habitantes, ou seja, 10 milhões de pessoas a mais.
Além dos inúmeros alertas dos especialistas sobre as consequências dessa omissão a própria natureza também fez a sua advertência em 2003 promovendo uma estiagem intensa e prolongada que quase leva o sistema ao colapso.
É importante destacar um agravante que certamente tem sua parcela de contribuição na extensão da crise atual: a negligência do governo estadual (Sabesp) permitindo a perda de 70% da cobertura florestal nativa na área da bacia hidrográfica do Sistema Cantareira. Espera-se que a gravidade dessa crise sensibilize o governo a impedir a continuidade desse nefasto processo destrutivo.
O verão seco - Embora se pretenda transferir a causa da crise para São Pedro, o fato é que o fenômeno meteorológico ocorrido faz parte dos ciclos naturais de variação da frequência e intensidade das precipitações que não podem ser ignorados nos projetos dos sistemas de abastecimento de água que têm de ter capacidade para atender os usuários sem provocar nenhuma solução de continuidade no suprimento.
Racionamento - A solução técnica, em termos de gestão do sistema para enfrentar essa crise, é o racionamento – que pode ser complementado por outras medidas, como oferta de bônus nas contas de água para quem economizar água, fixação de limites de consumo com aplicação de multas para quem ultrapassá-los e ampla campanha de esclarecimento e indução à economia de água.
No curto prazo não existem soluções de engenharia para enfrentá-la.

Foto publicada no Diario de Aruja em 15-01-2015
A gerência da crise - Conforme noticiário dos jornais o governador está gerenciando a crise pessoal e politicamente. Em 1º de abril o plano de ação era o seguinte: não fazer racionamento porque ele entende que a medida vai prejudicar a sua reeleição; manter os bônus de 30% nas contas de água daqueles que economizarem 20% durante o mês; volume disponível no sistema: 130 milhões de metros cúbicos; retirar 72 milhões de metros cúbicos em abril e o restante em maio e início de junho (e em consequência o sistema secará em meados de junho); acelerar as obras de retirada de 200 milhões de metros cúbicos do volume morto para serem utilizados a partir de meados de junho e atenderem a demanda até outubro, início do período de chuvas, quando termina o plano de ação; o plano não diz, mas indica que daí para frente as chuvas encherão os reservatórios e o problema acaba.
Comentário: o plano de ação garante o início da Copa e a eleição de 4 de outubro sem racionamento o que o caracteriza como um plano político-eleitoral.



Consequências – Em 4 de outubro teremos um sistema seco e sem volume morto e as chuvas que vierem preferencialmente reencherão o volume morto mantendo o sistema seco pelo menos por um tempo maior que aquele levado para esvaziá-lo; o Plano da Macrometrópole feito pelo governo estadual mostra que a pior estiagem da nossa história ocorreu em 1953/1955, fez uma simulação da sua repetição em cima do Sistema Cantareira e chegou às seguintes conclusões: o sistema atingiria volumes mínimos semelhantes aos já atingidos agora (não fala em volume morto) e demoraria mais de um ano para se recuperar, retirando menos de 15% de sua capacidade nesse período; a situação atual é certamente mais grave (primeiro porque temos que somar a esse tempo de recuperação o tempo necessário para preenchimento do volume morto durante o qual o sistema permaneceria seco e, além disso, o governador tem afirmado que a seca atual é aquela que se constitui na pior da nossa história, maior que a de 1953/1955); repetindo o que disse o presidente da ANA, Vicente Andreu, em recente entrevista, o pior ainda está por vir; para dar uma medida do que isso representa lembro os seguintes números relativos ao sistema de abastecimento da RMSP (sem falar na situação da Bacia do Piracicaba PCJ): demanda atual, 82 metros cúbicos x segundo; capacidade dos mananciais existentes incluindo o Cantareira, 72 metros cúbicos x segundo; idem sem o Cantareira, 39 metros cúbicos x segundo; observando esses números junto com as conclusões da simulação da estiagem de 1953/1955 no Cantareira, verifica-se que a partir de outubro teremos uma situação realmente dramática. A disponibilidade de água para os próximos anos é menor que a metade das nossas necessidades!
É impressionante a desproporção entre o tamanho e gravidade da situação e a modesta ação do governador.
A grande preocupação - Acredito que o exposto não deixe dúvidas sobre a extrema gravidade do problema. Mas apenas constatá-la não é suficiente, será preciso de imediato começar procurar como enfrentá-lo.
Partimos de premissas que dão uma medida das dificuldades a serem superadas: embora a solução do problema envolva intervenções de grande porte e alta complexidade, cujos prazos de execução são longos, será necessário também encontrar formas para minimizar as enormes dificuldades que a região já está sentido e se agravarão no médio prazo. De outro lado, o governo estadual, que é o responsável pela liderança e condução do processo, não está preparado – e diria nem disposto a enfrentar tamanho desafio, pois deixou a situação chegar a esse ponto e apresentou um plano político que não resolve nada, apenas empurra o problema para daqui a seis meses.
Desde que haja vontade política os desafios de longo prazo terão solução normalmente. Porém, os de curto e médio prazo exigirão muita competência e criatividade.

Há dez dias, inaugurando o volume morto do Cantareira, o governador transformou uma tragédia em festa.
Ontem, na Câmara Municipal, um diretor da Sabesp, em tom de deboche, transformou a mesma tragédia em piada ao dizer que “se a crise persistir vão distribuir água em canequinha”.

Tenho sido frequentemente solicitado a dar minha opinião sobre a crise da água no sistema Cantareira e não tenho como não classificá-la de gravíssima tendo em vista se tratar do colapso de um sistema responsável pelo abastecimento de quase 50% da população da região metropolitana, ou seja, 9 milhões de pessoas sem nenhuma perspectiva de reposição a não ser a longo prazo, no mínimo 8 a 10 anos após o inicio das providências nesse sentido quando a população já terá aumentado em 4 a 5 milhões de habitantes.
Essa gravíssima situação terá inicio tão logo sejam esgotadas as reservas do volume morto o que deverá ocorrer no final desse ano. A partir dai não haverá como escapar de um racionamento compulsório de 50 % da demanda crescente com o aumento da população.
Embora não adiante chorar sobre o leite derramado não pode ficar sem registro o fato de que se tivéssemos construído um novo sistema com manancial de grande porte nesses últimos 20 anos, o que não seria nada de extraordinário, pelo contrario, era absolutamente necessário, oportuno e viável, com certeza estaríamos superando essa seca rigorosa sem problemas de desabastecimento. Infelizmente a Sabesp nesse período estava mais preocupada em valorizar suas ações na Bolsa de Nova York para atender os seus acionistas e se esqueceu dos seus usuários.
Estamos em Julho, nos distraindo com os jogos da Copa e com os acordos dos partidos para enfrentar as eleições de Outubro e não nos demos conta de que nenhuma providência foi tomada para a construção do novo sistema com manancial de grande porte.
Refletindo sobre esse assunto me perguntei: será que essa situação tem toda a importância que estou lhe atribuindo? Me veio à mente o problema da relatividade : aprendi que “ se tudo é prioritário nada é prioritário”. Olhando a região metropolitana vejo os não menos graves problemas da mobilidade urbana, déficit de habitação digna para população de baixa renda, poluição das águas e do ar, enchentes, olhando para o pais vejo a degradação da nossa economia, da política externa, da infraestrutura de transportes e energia fiquei na duvida se a crise do Cantareira tem a importância que imagino.
Realmente, não podemos esquecer que tudo é relativo e a degradação das nossas políticas publicas atingiu tal nível que fica difícil saber por onde começar. Porem, não podemos perder as esperanças e continuar na luta. Encontraremos uma saída. Quanto mais difícil, mais estimulante.

Estamos no fim do mês de Julho e a operação de guerra necessária para superar a grave crise da água em São Paulo ainda não existe.
Embora a crise da água na região metropolitana já tenha sido anunciada há pelo menos 15 anos, ela deu um sinal em 2003 e veio com tudo a partir do final de 2013 surpreendendo a Sabesp e o governo do estado.
O governo a vem administrando até hoje, final de Julho, com visão exclusiva de curto prazo com o objetivo de passar o período eleitoral sem racionamento, se valendo do apoio da população em reduzir o consumo, do racionamento seletivo em diversos setores da região e especialmente no esgotamento não só da capacidade útil dos reservatórios mas inclusive de todas as reservas técnicas disponíveis. E só.
Esse comportamento somado à freqüente alusão à falsa perspectiva de que em Outubro as chuvas que virão encherão os reservatórios e acaba a crise está induzindo a população a não atribuir à mesma a sua real extensão e gravidade (efeitos a partir do final desse ano com horizonte de 10 anos). Em conseqüência as pessoas começam a achar que agora não dá para fazer mais nada, só depois das eleições, e não se dão conta que após as eleições vem Natal e em seguida o Carnaval.
A gravidade da situação exige maior responsabilidade do governo. Era de se esperar que o governo já tivesse organizado e implantado, pelo menos a partir do final do ano passado, uma operação de guerra, mobilizando todo o potencial do estado para atacar o problema e devolver à população a situação de antes da crise com a maior brevidade possível. Se não foi feito na ocasião que se faça agora.
Observe-se que até hoje, final de Julho, o governo ainda não começou a tomar as medidas necessárias à superação das deficiências do sistema de abastecimento de água da região metropolitana (longo prazo) nem aquelas, mais emergenciais ainda para minimizar os dramas a que a região estará sujeita a partir do inicio do próximo ano até que o sistema seja restabelecido (médio prazo).
O único problema é: como conseguir que o governo passe a assumir suas responsabilidades?

O continuo agravamento da crise da água em São Paulo está começando a despertar as pessoas para procurarem se defender com o uso da água subterrânea. Considerando que estamos vivendo apenas o aperitivo dessa crise e que a sua real dimensão deverá aparecer a partir do final do ano quando a disponibilidade dos mananciais superficiais estará abaixo da metade da demanda e, certamente por um período não desprezível, a única fonte a curto e médio prazos será o manancial subterrâneo, a corrida atrás da abertura de poços será inevitável.
Duas observações extremamente importantes, necessárias e oportunas, uma boa e outra ruim. A boa é que o aquífero da região metropolitana, que já abastece parte da demanda com cerca de 10 m³/s, dispõe de pelo menos outros 10 m³/s que poderão servir à mesma finalidade desde que o sistema passe a ser competentemente planejado e gerenciado. A ruim é que a Agência da bacia do Alto Tietê, braço executivo do Comitê, responsável pelo planejamento e gerenciamento desse importante sistema de abastecimento e o DAEE - Departamento de Águas e Energia Elétrica que responde pela concessão das outorgas para o uso dessas águas não estão adequadamente preparados para exercerem essas funções e poderão não conseguir extrair dos mesmos os resultados que dele se possa esperar.
Essa preocupação decorre primeiro do fato de que a Agência foi criada em 2003 e praticamente desativada em 2006, não tendo conseguido se firmar, e o DAEE que exercia todas essas funções desde a sua criação, há mais de 60 anos, nesse particular chegou a situação atual com mais de 10.000 poços em operação ( produção de 10 m³/s ) dos quais a grande maioria clandestinos e uma pequena parte desativados por contaminação.
É importante ressaltar que a Agência produziu um estudo de mapeamento dos poços existentes, inclusive os desativados, que mostra as áreas onde não devem ser autorizados novos poços e as áreas onde eles podem ser incentivados para usar os 10 m³/s ainda disponíveis. Não é preciso falar sobre a extrema importância do uso desse estudo daqui para a frente.
Seria do maior interesse da população ouvir o Presidente da Agência e o Superintendente do DAEE para saber como pretendem enfrentar essa iminente “corrida para a abertura de novos poços”.
Com a palavra as instituições que poderiam convidar essas autoridades com esse fim.


Janeiro de 2014
A Sabesp estava pronta para iniciar a execução de um Plano detalhado para enfrentar a estiagem do Cantareira pela implantação imediata do racionamento de água. O governador vetou o Plano e sumiu com ele.
07 de Agôsto de 2014
O jornal O Estado de São Paulo publicou o Plano que conseguira descobrir.
08 de Agôsto de 2014

O mesmo jornal publica declaração do governador de que o Plano da Sabesp de Janeiro era tecnicamente inadequado que nada mais é do que um verdadeiro “atestado de incompetência da empresa”.

leia mais artigos em www.juliocerqueiracesarneto.com - Artigo publicado sem data, mas antes da eleição de 04 de outubro de 2014 -
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