25 de jul de 2015

logo Peñalosa (ex-prefeito de Bogotá): “O espaço viário pertence igualmente a todos os membros da sociedade”.



Conteúdo Embarq  Brasil

Em entrevista exclusiva, o ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa conta como a cidade se tornou organizada e inclusiva, e todas as lutas que precisou enfrentar para transformar a capital colombiana numa cidade equitativa.
Peñalosa estará no Brasil em setembro deste ano para participar da Cúpula de Prefeitos, no Rio de Janeiro. O evento, bem como o Congresso Internacional Cidades & Transportes, irá discutir alguns dos assuntos que Peñalosa vivenciou como prefeito: a criação de uma cidade para pessoas, o desenvolvimento orientado pelo transporte e a construção de uma visão estratégica para cidades.
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Para mais informações sobre o programa do Congresso e inscrições, acesse o site cidadesetransportes.org.


Como prefeito, você foi responsável por inúmeras, e às vezes radicais, melhorias na cidade. Qual destas melhorias trouxe mais felicidade para as pessoas?
Enrique Peñalosa – Nós construímos uma cidade mais para as pessoas e menos para os carros. Tiramos dezenas de milhares de carros das ruas e fizemos novas calçadas. Produzimos comerciais de TV explicando que as calçadas são para conversar, para brincar, para fazer negócios e para nos beijarmos. Fizemos a revolução das calçadas.
O Transmilênio, um sistema BRT, também foi um símbolo muito poderoso de equidade, porque tirou espaço dos carros e deu ao transporte público. Pela primeira vez, as pessoas que usam transporte público vão mais rápido do que aquelas que usam o carro. Isto demostra que a democracia existe, mostra que os cidadãos são iguais.
Talvez a conquista que mais me orgulha é a Alameda El Porvenir, que possui uma ciclovia rápida de 15 metros de largura e 24 km de extensão e que é usada por milhares de pessoas diariamente para ir ao trabalho. Além desta, a Rota Verde Juan Amarillo Green Way, que liga partes mais ricas da cidade às partes mais pobres, através de uma via verde, também me orgulha.  Nós começamos a construir escolas de alta qualidade em bairros pobres com bibliotecas para mostrar que o conhecimento é mais importante do que a fortuna.

Quais melhorias deram mais dor de cabeça para você?

EP – O mais importante é perceber que nós fizemos o que ninguém mais teria feito. Era um conceito completamente novo, novas ideias. Então, nós tivemos muitos conflitos. Talvez o mais difícil tenha sido tirar dezenas de milhares de carros das calçadas. Houve um processo de coleta de assinaturas para meu “impeachment”.  Para implementar um sistema de ônibus, nós travamos uma enorme guerra contra os operadores tradicionais, eles entraram em greve e a cidade ficou quente.
Foi uma batalha também para criar parques porque muitos deles foram fechados pela iniciativa privada. Travamos batalhas ao recuperar a área central que tinha sido tomada pelos traficantes de drogas – uma área localizada a apenas dois quarteirões do Palácio Presidencial e da praça central – um pouco similar, mas 100 vezes pior que a Cracolândia em São Paulo. Entramos em conflito também para construir espaços públicos, praças que foram completamente tomadas pelos vendedores de drogas. O clube de campo mais elitizado, que tinha as famílias mais poderosas como membros, teve uma parte de sua área expropriada para a criação de um parque público.

Você disse que “sonha com uma cidade tropical, atravessada por grandes avenidas de pedestres, sombreadas por enormes árvores tropicais, como eixos de vida das cidades”. Você foi capaz de conquistar esta cidade?

EP – Eu fui prefeito por apenas três anos e na Colômbia não há reeleição prevista na Constituição. Este período agora é mais longo, de quatro anos.  As cidades que temos hoje – todas as cidades do mundo – estão muito erradas.  Estamos tão acostumados com elas que achamos normal – viver com medo, de ser morto. Mas isso não pode ser normal. Para viver em cidades nós temos que criar lugares com centenas de quilômetros de vias verdes. Com pessoas e bicicletas nas ruas. Em que você possa cruzar a cidade em todas as direções sem carros. Vai levar algumas centenas de anos para corrigir isso, mas isso mudará no momento em que percebermos que o que temos hoje é completamente maluco. Que não é o ideal para os humanos no futuro.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, está sendo criticado pela construção de centenas de quilômetros de ciclovias e ciclofaixas. Qual conselho você daria a ele ou a qualquer outro prefeito que faz mudanças ousadas e enfrenta fortes oposições?
EP – O que o prefeito Fernando Haddad está fazendo é muito corajoso. Um dos problemas mais ideológicos e políticos de nossa era é como distribuir o espaço viário. Espaço viário é o bem mais precioso que uma cidade tem.  Poderíamos encontrar petróleo ou diamantes no solo de São Paulo, mas isso não seria tão valioso quanto o espaço viário.
Como podemos distribuir o espaço viário entre pedestres, ciclistas, transporte público e carros? O espaço das vias pertence igualmente a todos os membros da sociedade, independente se eles têm carro ou não. Ele pertence tanto a quem está numa rodovia quanto a uma criança sobre a bicicleta. É uma questão, portanto, de democracia. Quem decidiu que deveríamos dar mais espaço aos carros que às pessoas? Quem decidiu que deveríamos ceder espaço para estacionar carros? Devemos lembrar que o estacionamento não é um direito constitucional. O governo não tem obrigação de prover espaço para estacionamento, então acho que é uma discussão muito interessante sobre democracia.
Quando construímos nossas ciclovias, havia poucos ciclistas, quase ninguém utilizava bicicletas. Agora temos cerca de três mil pessoas utilizando bicicletas todos os dias. Devemos lembrar que mesmo numa cidade gigante como São Paulo mais da metade das pessoas percorrem deslocamentos menores que 5 km, então é bem possível que, em algumas décadas, 20% da população utilize bicicletas – não será possível em um ano ou dois, mas talvez em 20 anos. Precisamos lembrar às pessoas que os carros não lhes dão mais direitos sobre o espaço da via que às pessoas sem carro.

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