23 de jul de 2015

Projeto de marina na Beira-Mar Norte resgata a vocação náutica de Florianópolis-SC


O conceito é de uso misto, entre público e privado, com praça, comércio e estacionamento. De resgatar o passado, se voltando para o mar, e pensar no futuro, no latente potencial turístico de Florianópolis. Anunciado esta semana pelo prefeito Cesar Souza Júnior (PSD), o projeto para construção de uma marina na baía Norte (região da avenida Beira-Mar Norte) ainda depende de aprovações, mas traz à tona uma discussão antiga sobre a própria história da Ilha de Santa Catarina: sua vocação náutica.
A criação de 600 vagas molhadas em ponto estratégico da baía Norte animou os representantes do setor náutico e estudiosos na área de planejamento urbano. Ao custo de R$ 60 milhões, com investimentos da iniciativa privada, o projeto poderá representar o retorno da integração da cidade com o mar, há muito perdido. Os detalhes do projeto devem ser anunciados na próxima segunda-feira, mas segundo o prefeito, as intervenções ambientais devem ser mínimas. “Por isso a opção dos estudos que fizemos até agora, que indicaram aquela posição como a de menor necessidade de dragagem, porque quanto mais você amplia a necessidade de dragagem mais você amplia a complexidade ambiental da obra e maiores as chances de insucesso”, diz Cesar.
Para o presidente da Acatmar (Associação Náutica Catarinense para o Brasil), Leandro “Mané” Ferrari, a construção de uma marina na cidade é uma necessidade. “Nos últimos quatro anos brigamos por isso. Hoje, não existe nenhuma opção para quem deseja ancorar em Florianópolis”, afirma. Mané Ferrai aposta que o projeto possa ser o pontapé inicial inclusive para o transporte náutico. “Não tenho dúvidas de que esse projeto terá que ter ali um braço para o transporte marítimo”, completa.
Ontem, um grupo de trabalho liderado pela Acatmar se reuniu com representantes da prefeitura na Secretaria Municipal de Turismo para conhecer melhor a proposta. “Este é um projeto de grande importância para nossa cidade, principalmente para o turismo. Atualmente não existe mais a cultura do transporte náutico, nem de lazer, nem urbano. É um projeto que abrirá precedentes para outros. Estamos entusiasmados”, declara a secretária Zena Becker. O projeto deve ser realizado em parceria com a iniciativa privada, que receberá concessão para construção e exploração da marina, seguindo exemplos de Balneário Camboriú e Itajaí.
Ponto de partida para projeto mais amplo
Colonizada por navegadores, a Ilha de Santa Catarina já foi considerada importante rota marítima nos séculos 18 e 19. O principal porto da cidade sucumbiu na década de 1960, após o processo de expansão rodoviária iniciada com a inauguração da ponte Hercílio Luz, em 1926, e da mudança no perfil da própria cidade, que elevada à Capital do Estado passou a privilegiar atividades político-administrativas.
Na década de 1990 surgiram as primeiras discussões sobre a necessidade de a cidade voltar a explorar suas vocações náuticas. Em 1997, o Ipuf (Instituto de Planejamento Urbano) lançou concurso para requalificação da baía Sul. O projeto vencedor incluía marina e atracadouro para transporte marítimo. Mas o alto custo de investimento impediu o projeto de sair do papel.
Para o pesquisador Adilson de Souza Moreira, mestre em planejamento territorial e desenvolvimento socioambiental pela Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), o projeto da marina na Beira-Mar será o ponto inicial para uma transformação bem mais ampla, que deverá incluir o uso público da Ponta do Coral e o Centro Histórico. “O avanço tecnológico privilegia esse regate, essa conexão com o passado”, afirma o geógrafo autor de “Di Porto ao turismo: a transformação da (o) capital e a revalorização do mar na Ilha de Santa Catarina”, publicado em 2011.
“É preciso pensar este projeto integrado com a cidade. As praças só são ocupadas se dadas a elas algum uso, por isso este projeto não pode estar voltado apenas para o turismo, mas sim para algo mais amplo”, diz Moreira. Para o pesquisador, o projeto da marina será um hibrido, servindo tanto ao turismo como ao transporte.
Realidade cultural confinada
Sandro Garcia, 42 anos, representa um grupo cada vez mais reduzido de pessoas que ainda vivem exclusivamente da pesca. A bordo do bote “Garrincha”, todos os dias ele navega pelas baías Norte e Sul, onde pesca em dois turnos o sustento da família. “Eu saio às 6h e depois às 18h, todos os dias. Conheço muitos que pescam, mas poucos mesmo vivem da pesca. A maioria tem barcos e pratica pesca por lazer”, conta.
Para ele, a marina servirá “barcos grandes e de turismo, que não têm espaço para ancorar atualmente”. E é cético quando ouve dizer que os pescadores também estariam entre o público que poderá frequentar a marina. “Não acredito que nós, pescadores, poderemos chegar e encostar nossos barcos. Acho muito difícil”, diz.
Confinado em seu rancho, sob o pilar continental da ponte Hercílio Luz, Garcia suspeita que o retorno ao mar não se dará pelas vias que consagraram o pescador como figura central de uma cultura esquecida. “É um projeto para os mais ricos”, critica.
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