16 de jun de 2016

Deixe-me ir pro Brasil acordar

Deixe-me ir pro Brasil acordar

Renato Dalto
Circula por aí, pelas redes, os acordes lindos de violão, bandolim e as vozes de Zeca Pagodinho e Marisa Monte interpretando a belíssima “Preciso me Encontrar”, de Candeia. Samba do morro feito pelo homem do povo, desses que passam na rua e quase ninguém percebe. Gente assim como Cartola, que um dia foi visto lavando carros pra ganhar uns trocados e provocou uma crônica indignada de Sérgio Cabral. Cabral tinha dito que aquilo lhe dava a sensação que o país tinha acabado. Cartola, o das rosas que não falavam mas que exalavam um perfume roubado da mulher amada. Como o Candeia que suplica, que dilacera. “Deixe-me ir, preciso andar…… diga que eu só vou voltar quando me encontrar”.
Toda vez que ouço isso penso nos versos dormidos que andam por aí, nas calçadas, nos botecos, nas esquinas, nos campos de futebol, nos morros.  Penso no país que segregou um Cartola, um Noel Rosa, que pouco enxergou Candeia. No país que não tinha jeito e um dia trucidou inconfidentes. No pais dos corvos e das conspirações. No pais que jamais soube ler a si mesmo. Ontem mesmo  à noite a TV Brasil exibia um documentário sobre Darcy Ribeiro e muita gente descrevendo o script do golpe- o clima da corrupção insustentável, a conspiração orquestrada dos donos do capital e a mídia, a onda de boatos. O filme antigo que se repete enquanto o país esquece Cartola, Candeia, Noel e parece que nunca vai lembrar quem é.
Deixe-me ir.  O solo que ouvi dizia de certa forma que este país tem jeito. Que não é a soberba dos piratas do poder que nos roubará a identidade. Um poeta fugido da Espanha assolada pela guerra civil recusou-se, no exílio, a recitar seus próprios versos. Dizia que a essência da palavra havia ficado com os camponeses, com os combatentes que lutavam por um país melhor.  Aconteça o que acontecer, há vozes que resistem. Não na lógica da passeata, do protesto ou do embate. Mas no trono encantado onde nunca habitará um rei ilegítimo.  Porque lá só a pureza da poesia é capaz de conduzir os olhares generosos que miram a vida  lá do morro, dos pés descalços que batucam a poeira dos terreiros, da feijoada e do olhar maroto da sedução domingueira. É esse olhar que estará sempre erguendo outro país – brejeiro, tolerante, alegre e tão plural.
Então não canso de ouvir Candeia e seus toques da mais profunda filosofia.  O homem em busca de si mesmo. O país também perdido em si mesmo. Do topo de um golpe os urubus não identificam esse canto. Porque o que buscam não está em qualquer lugar.  Buscam o poder pelo poder. Sem voz, sem melodia, sem a sincera canção que nos afaga de pureza e encanto. Quem faz o país só quer isso: Deixe-me ir. Em algum lugar, estamos mais livres, na essência do que esse povo tem melhor. As rosas que não falam. Os caminhantes que procuram. Ninguém impede esses passos. Ninguém cala as rosas. Deixe-me ir que um dia o Brasil real vai acordar.

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