O chanceler interino de um governo interino, José Serra, recebeu no Itamaraty o líder opositor venezuelano Henrique Capriles. Disse, segundo nota do Ministério das Relações Exteriores, que via “com bons olhos” a convocação do referendo revogatório contra o presidente Nicolás Maduro. Serra também se comprometeu em defender a menção em futuros textos da OEA do referendo como solução para a crise. Quanta hipocrisia!
O sr. Serra por acaso desconhece que não é preciso elogiar a ideia de referendo contra Maduro? Ele consta da Constituição venezuelana. É um instituto altamente democrático que pouquíssimos países possuem e já foi anteriormente aplicado – e derrotado – em 2004 contra o presidente Hugo Chávez. Além do mais há um recente texto do Conselho Consultivo da OEA respaldando as iniciativas dos ex-presidentes Zapatero da Espanha, Torrijos do Panamá e Frenández da República Dominicana, com apoio do Mercosul, em busca do diálogo no extremamente polarizado cenário da Venezuela e nele não está contemplada a menção ao referendo revogatório.
E o que dizer da ingerência em assuntos internos de um país soberano? Imaginem se o senador Lindbergh Farias procurasse a chanceler venezuelana Delcy Rodriguez e ela emitisse uma nota instando o Senado brasileiro a derrotar o golpe, recolocando a presidenta Dilma no Palácio do Planalto, que escândalo provocaria nos eminentes interinos.
Serra poderia perguntar a Capriles porque a oposição não entrou com o pedido do referendo revogatório em janeiro de 2016, quando se cumpria a metade do mandato de Maduro, como prevê a Carta Magna venezuelana, e não recentemente. Ficou clara a manobra: a oposição com maioria qualificada na Assembleia Nacional imaginava poder alterar a Constituição e encurtar o mandato de Maduro ou então pressioná-lo por todos os meios a renunciar.
Não se preocupe, Serra. O Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela (CNE) vai levar adiante o referendo, independente das pretensões de Capriles. Só que o fará respeitando as normas, os trâmites e os prazos legais.
Para que o nosso Itamaraty tenha conhecimento, no próximo 20 de junho o CNE, com prazo para se encerrar em 26 de julho, iniciará a validação das manifestações de vontade exitosamente verificadas, quando apresentará o informe de resultados do processo de digitalização dos registros entregues pela Mesa de Unidade Democrática opositora. Mas alertou: qualquer ato de violência contra o CNE ou alteração da ordem a propósito do referendo resultará na suspensão do processo, como determina a lei.
Agora, atenção Serra, você precisa, ainda que subserviente à política de Washington, prestar atenção às manobras do Departamento de Estado, senão pode cair num extremo ridículo de ser mais realista que o rei. Não perca isso de vista, Serra: o secretário de Estado John Kerry assegurou que os Estados Unidos não pressionarão para suspender a Venezuela da OEA nem insistirão em invocar a Carta Democrática.
Após a intervenção da chanceler venezuelana Delcy Rodríguez na 46ª Assembleia Geral da OEA, Kerry retificou sua postura sobre a Venezuela, aderiu ao diálogo proposto pela Unasul e anunciou conversações de imediato com Caracas. Anunciou que enviará “de imediato” a Caracas um dos seus diplomatas mais próximos, Thomas Shannon, e, numa guinada inesperada, anunciou que seu governo não apoiará a expulsão da Venezuela da OEA promovida pelo secretário geral do organismo, Luis Almagro, em conluio com a oposição direitista da Venezuela.
Delcy Rodríguez denunciou ante a OEA que sua nação enfrenta uma dura campanha internacional de hostilização liderada por Almagro, que tem por objetivo derrocar Maduro, eleito pelo voto popular e assim submetê-la aos interesses imperiais. Rodríguez declarou que a Venezuela é um país livre e soberano e que os problemas internos devem ser resolvidos por seu povo, sem ingerência, em respeito ao princípio universal da autodeterminação.
A reaproximação Venezuela-Estados Unidos deixa virtualmente desarmadas as intenções de Almagro de intervir nos assuntos internos da Venezuela a pedido de uma oposição que vem se dedicando a desestabilizar o país por meio de táticas conspiratórias com empresários para esconder produtos básicos, com o fim de frustrar a população, provocar o caos e a revolta, para alcançar o poder pela força já que não conseguiu assumi-lo pela via eleitoral.