A mesma Praça. O mesmo banco. As mesmas Flores. O mesmo jardim. Menos o nome

Vizinhos de Temer revoltados com o golpe rebatizam a praça Conde de Barcelos como Praça do Golpista. Não tem arrego!

Por Ivy Farias*, especial para os Jornalistas Livres
Com fotos de Cauê Félix e Brunno Marchetti
No dia 4 de Abril de 2013, quatro vereadores da Câmara Municipal de São Paulo deliberaram a respeito do que se tornaria o Projeto de Lei (PL) 243/2013, que alterava o nome da Rua Doutor Sergio Paranhos Fleury, na Vila Leopoldina, Zona Oeste da Capital, para Rua Frei Tito. Na justificativa do documento, lê-se que “não se trata de uma mera substituição de denominações de ruas, mas sim de uma reparação histórica” já que o homenageado em questão chefiou o Esquadrão da Morte durante a ditadura civil-militar-empresarial enquanto o clérigo fora torturado e se matou após as barbáries ao qual foi submetido.
Desde o dia em que foi protocolado, 23 de abril de 2013, o PL já passou pelas comissões de Constituição e Justiça, Educação, Cultura e Esportes, Finanças e Orçamento e Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente que, desde 2 de junho deste ano recebeu o projeto e o aprecia. No total, até agora, três anos e dois meses.
Não é muito demorado mudar o nome de um logradouro em São Paulo. O PL 314/2014, por exemplo, já é a lei 16.167/2015. Basta procurar em um antigo guia da cidade no trecho entre os números 1.643 e 2.237 da rua Turiassu (ou Turiaçu). Ali agora existe a Rua Palestra Itália. Esta lei passou pelas mesmas comissões acima citadas — só que o processo levou apenas nove meses e 22 dias.
Um grupo chamado “Vizinhos Pela Democracia”, entretanto, ponderou que nem nove meses e nem mesmo ficar à deriva como o PL 243/2013 era o suficiente e votou com o relator Salomão ao decidir que sim, “há tempo determinado para todas as coisas”. Com bom-humor, os 189 membros inscritos no Facebook (e mais outros tantos que moram na região e participam das reuniões offline) escolheram o primeiro dia do inverno, 21 de junho, para inaugurar a “Praça do Golpista”, antes chamada de Conde de Barcelos.
Continuará sendo a mesma praça, terá a mesma flores e o mesmo jardim. Mas o nome… quanta diferença! Pedro Afonso, o honorável Conde de Barcelos, um dos trovadores galegos-portugueses mais importantes da Idade Média, que dá nome à praça que fica entre as ruas Bennet, Massacá e Banibas, no Alto de Pinheiros, cedeu lugar. A partir das 19h30 deste início de estação, o homenageado é o golpista, o presidente interino Michel Temer (PMDB), que mora nas redondezas.
A ideia partiu, vejam que ironia!, de um ex-aluno de Michel Temer quando este era professor de Direito Constitucional. “Mas me envergonho tanto disso, melhor nem escrever”, fala o formado em direito pelo Largo São Francisco (USP), administrador e morador da região Flávio Scavasin.
Após a serenata e a festa junina, ele decidiu que era momento para mais uma ação no Alto de Pinheiros. Se as outras foram organizadas em dias, esta ação levou duas semanas. “Ficamos entre ‘Praça do Golpista’ ou ‘Praça Temerária’. Mas não queríamos que as pessoas tivessem medo”.
A votação aconteceu em um grupo de Whatsapp. 12 membros dividiram o valor de R$100 para a criação dos adesivos com o novo nome, colado sobre o antigo. Cada um custou R$ 8,30. Mantida pelos moradores do bairro, que, desde 2001, assinaram um contrato de parceria com a Prefeitura de São Paulo para a manutenção e conservação da área, a praça é resenhada por Carolina Devidé, no site da revista Veja S.Paulo, como um “um ponto de encontro de praticantes de corrida e crianças acompanhadas da mãe e da babá. É arborizada e equipada com tanque de areia grande, brinquedos de madeira, como balanços e gangorras, e bancos de concreto.”. A foto, de autoria de Fernando Moraes, mostra duas mulheres de branco (uma delas com touca) e duas crianças brincando no parquinho.
Mas a realidade mostra que não é bem assim: que crianças, animais, idosos e famílias frequentem a praça é verdade, mas é ali a saída e chegada de Passeios Cíclisticos, como o que aconteceu no dia 15 de maio deste ano. A participação era mediante o uso de capacete e a doação de um alimento não perecível e/ou um produto de higiene pessoal, que foram doados ao Centro Presbiteriano Humanitário de Ação Social e à Casa do Aconchego.
Em uma simples consulta ao Google é possível descobrir que um grupo de 13 moradores faz contribuições financeiras regularmente para pagar o custo fixo de R$ 6 mil (seis mil reais) mensais cobrados pela empresa Bonsai e não altera nada sem a permissão da Prefeitura. No post de 10 de Março de 2016, A Associação dos Amigos de Alto de Pinheiros (SAAP), traz a fala do médico Eduardo Bracher, que conta que agora há um caminho de cascalho, maiores latas de lixo, placas informativas e dispensadores de saco de lixo para que quem caminhe com cachorro não deixe nada literalmente para trás. “Fizemos um parquinho cercado, com areia e brinquedos. O paisagista e engenheiro agrônomo Ricardo Viana também plantou várias espécies novas e faz a manutenção da vegetação da praça”, afirma o médico nesta postagem.
Mas, desde sempre, há iniciativas populares e privadas, como dos arquitetos Guilherme Paloliello e André Vainer, que, em 2006, projetaram e implementaram um parquinho. A Prefeitura, por sua vez, instalou equipamentos de ginástica em 2013 durante a gestão do petista Fernando Haddad. Já no ano passado, xilogravuras do artista Santídio Pereira embelezam a praça.
A reportagem entrou em contato com a associação por e-mail para saber se o Presidente interino já contribuiu para a praça de alguma forma — até o momento sem retorno.
“Mais vale um vizinho que está perto do que um irmão que está longe”
O Provérbio 27:10 é o mais aplicável ao Presidente Interino. “Vizinhos do Temer somos do Oiapoque ao Chuí”, diz a produtora cultural Graça Creman. Em frente à “Praça do Golpista”, ela explicou que só não joga ovos porque desperdiçar alimento é absurdo. “E o tomate também está caro.”
Logo após falar estas palavras, do outro lado da praça três viaturas, sete policiais militares e um carro preto com a placa não oficial e sete homens com roupas pretas cercavam a área com grades com o brasão do Distrito Federal. Ao serem informados que a reportagem estava lá, um deles disse: “Vai para Paulista”. Na Paulista fica o gabinete da Presidência da República. Mais uma tentativa. “Envie um e-mail”, respondeu outro senhor não identificado.
A empresa privada de segurança Aster rondava a praça enquanto a Companhia Antropofágica se apresentava. Formada por 80 artistas, ali estava representada por cerca de 15, que foram aonde o povo estava para levar um pouco das técnicas do dramaturgo Augusto Boal, que pensou a arte como uma forma de resistência a partir dos anos 60. “Infelizmente o Teatro do Oprimido, o Teatro da Arena ainda cabe no contexto brasileiro”, explica a atriz Suelen Moreira.
No Alto de Pinheiros os termômetros marcavam 17 graus Celsius. Mas para os vizinhos — seja de perto ou de longe — estar ali não era uma gelada. João Pedro Correa de Nobrega, 15 anos, estudante, usava apenas um agasalho de moletom. Filho único do engenheiro mecânico Raimundo Paiva Nóbrega e da enfermeira Heloisa de Oliveira Correa, ele concedeu entrevista após a autorização dos pais.
“Sei que o PT é muito corrupto. Mas isso não significa o liberalismo como imposto pelo Temer. Ele representa a classe branca, de elite e liberal que domina o Brasil desde a sua fundação. Me considero hoje como de esquerda, mesmo não me sentindo representado como tal. Como gosto muito de ler e debater, avalio a necessidade do Estado. Sim, estou pensando sobre anarquismo. Mas, mais do que nunca, um Estado liberal não é o que o Brasil precisa. Aliás, mais do que nunca, o Brasil precisa de um Estado”.
João, os pais e os outros de 40 outros vizinhos continuaram a andar pela praça. Parados pelas grades, os vizinhos entoaram a versão do Hino Nacional do idealizador Flávio Scavasin. E, mais uma vez, fizeram uma serenata para a primeira-dama interina.
O organizador ponderou que a ação foi positiva. “Conseguimos o nosso objetivo- e voltaremos à Praça do Golpista até o fim do golpe”, disse o arrependido aluno de Temer.
“Quer dizer que este conde era poeta?”, perguntou-me Scavasin.
Sim, era.
  • Ivy Farias, 35 anos, é jornalista, estudante de Direito, militante do Direito dos Humanos e dos Animais, co-fundadora do Movimento Mais Mulheres no Direito, integrante da Rede Feminista de Juristas e, conforme o dicionário Aurélio, literalmente vizinha de Temer.