8 de jul de 2016

Eduardo Cunha - O HOMEM QUE VIROU SUCO - ASSISTA O FILME ´E ´OTIMO. O AUXILIAR PARLAMENTAR DA MIDIA golpista, PRECISA SER CASSADO E NO MINIMO ENCARCERADO


AudiovisualO homem que virou suco
Por Thaysa Freitas Figueiredo*
ANDRADE, João Batista deO homem que virou suco.Londres: Embrafilme, Raíz Produções Cinematográficas, Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, 1979. cor, 90 min.
“O homem que virou suco” (1979), de João Batista de Andrade é um filme ao mesmo tempo político e humano.  O filme fala sobre a vida de Deraldo, um nordestino poeta e repentista que foi a São Paulo vender sua poesia e acabou sendo confundido com Severino, um operário que matou o patrão.
Reprodução
Apesar de usar alguns clichês no texto, justamente a fim de criticar a estereotipação que sofre os nordestinos, João Batista não apresenta um personagem mergulhado em uma vida de mortes e sofrimentos. O personagem principal é bastante inteligente e encara seus problemas com muito senso de humor e, ao invés de reclamar e despertar pena, se apresenta como alguém que luta em busca de um trabalho digno e uma vida livre de falsas acusações.
É importante lembrar que nas décadas de 60 e 70 a migração nordestina era intensa para a região sudeste do país. “O homem que virou suco” retrata a situação do migrante naquela época e mostra, como se ele fosse um Carlitos brasileiro, suas dificuldades em se adaptar à cidade grande e como o sistema fazia com que ele perdesse suas origens. 
Porém, mais do seguir a filosofia brechtiniana de que uma grande obra deve expor um problema ao expectador, João Batista propõe um resgate à memória cultural nacional. O que faz com que seu filme seja um instrumento de trabalho de cultura popular, que conscientiza e politiza, e parte de uma compreensão real da cultura de um povo, no caso, o povo nordestino.
A obra de João Batista nos faz analisar o papel do cinema na sociedade enquanto permite que o espectador compreenda o reflexo da vida material na cultura. Há uma passagem no filme em que a poesia de Deraldo é comparada ao dinheiro e tratada com descaso e ironia, como se não possuísse valor algum. É a moeda e o lucro que se sobrepõem à arte e à intelectualidade. Deraldo passa todo o filme tentando encontrar um lugar pra sua poesia e acaba ilustrando o otimismo alienado (e, por que não, alienante?) por trás da idéia de modernização, industrialização e integração nacional que assombra o Brasil até hoje. 
O personagem conserva em si, até o final do filme, o sentimento de que defender a cultura de sua região é mais importante do que se render às condições de trabalho a que é exposto. Contradiz a idéia de que o quintal do vizinho é mais bonito, sentimento típico de sul matogrossenses que sentem vergonha por nascer em um estado conhecido como produtor de soja e carne e acreditam que possuir uma cultura bem definida é ser um estado industrial que esmaga o indivíduo pelo sistema e marginaliza o nível econômico primário.
Outro aspecto relevante em “O homem que virou suco” é o posicionamento adotado pelo roteirista e diretor. João Batista de Andrade critica o sistema industrial e se coloca ao lado dos oprimidos. Bate na tecla do massacre biológico a que eram submetidos os retirantes em cima da desumanização do personagem principal. Cenas como a de um policial que diz que “todos os paus-de-arara são Silva”, ou em que um personagem afirma que “cearense, alagoano, paraibano, tudo é a mesma coisa” tiram risos do público.
É o estereótipo que serve como piada mas que, na verdade, deveria ser visto como uma ruptura da identidade humana individual. Como disse, João Batista não foge dos clichês, mas os utiliza com sabedoria. Não pretende reproduzir o real, apenas concentrar parte desse real e exagerar ou caricaturar um pouco para tornar o problema mais evidente.
É sua maneira de tentar reproduzir o todo e estabelecer um diálogo com seu público. O filme deixa claro a crítica do diretor contra o sistema que tenta transformar o retirante nordestino em uma massa liquefeita, um suco de laranja que após consumido só deixa bagaços.
O fato de Deraldo possuir um sósia, convenientemente chamado de Severino (provável alusão à obra de João Cabral de Melo Neto) nos coloca diante o duelo artista-intectual versus operário. Esse operário que matou o patrão estava longe de ser um homem admirável. Severino era um fura-greve, delator e odiado por seus colegas que lutavam por melhores condições de trabalho.
Estava solitário por causa de sua traição. Severino era o operário mais oprimido, delatou os colegas para benefício próprio e acabou sendo demitido pelo patrão. Tanta opressão levou o personagem à loucura. Ao encontrar seu sósia, Deraldo reconhece-o como pedaço de si mesmo. É uma metáfora do poeta indo atrás do seu eu operário.
Desse encontro nasce a maior obra de Deraldo, cujo nome dá título ao filme. “É a história de todo nordestino. Do cara que chega em São Paulo, trabalha, luta e acaba passando fome, virando suco de laranja. Só custa 10 cruzeiros o livrinho. A melhor poesia nordestina”, garante o personagem.
Ao lutar por condições mais dignas de sobrevivência Deraldo se afirma como o típico ser humano detentor da cultura popular em si mesmo. Ele é um poeta e intelectual, mas está totalmente integrado ao meio do qual ele fala e para o qual ele fala. É um intelectual do povo. Caracteriza o conceito de cultura como aquilo que é feito pelo homem.
*Thaysa Freitas Figueiredo é graduanda de Comunicação Social (Jornalismo) no CCHS/DJO da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
www2.eca.usp.br

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