6 de ago de 2016

A casta dos intocáveis ​​rebela-se contra séculos de abusos - India . Editar - nem tudo pode perdurar a vida toda......

A casta dos intocáveis ​​rebela-se contra séculos de abusos

Na Índia, pela primeira vez milhares de Dalits em marcha contra a história
O drama dos intocáveis
CARLO PIZZATI – 04/08/2016
Tradução: Orlando Almeida
Na Índia, está começando uma lenta revolução sem precedentes. É a revolta dos mendigos, dos garis, dos limpa-fossas, dos últimos e maltratados cidadãos da mais populosa democracia do mundo. Pela primeira vez em muitas décadas, os dalits, membros da casta mais baixa na hierarquia hinduísta, estão se rebelando contra a violência de que sempre foram vítimas.
De fato, em resposta ao recente açoitamento público de quatro encarregados do curtimento do couro, foi desencadeada uma greve de milhares de Dalits que participaram de uma manifestação de onde partiu uma ‘podyatra’, uma longa marcha de protesto que atravessará o Estado de Gujarat para chegar, no Dia da Independência da Índia, 15 de agosto, à aldeia de Una, onde aconteceu o semi-linchamento.
Como começou este último protesto? Em 11 de julho, alguns ‘Gau Rakshaks’, vigilantes que protegem as Vacas Sagradas chegaram a bordo de um SUV preto e prenderam quatro jovens que esfolavam as carcaças de alguns bovinos, acusando-os de ter matado as vacas para comê-las. Os Dalits tentaram explicar que se tratava de carcaças que tinham sido entregues para serem esfoladas. Mas os Gau Rakshaks não acreditaram neles, despiram-nos e deram-lhes uma surra com barras de ferro e varas de bambu.

Milhares de pessoas na praça para pedir maiores direitos para os Intocáveis, depois da divulgação de um vídeo onde aparece um grupo de Dalits sendo torturados    –  AP  
Depois arrastaram-nos até à aldeia, amarrados a um carro e foram novamente açoitados, espancados, ridicularizados durante horas sob os olhos divertidos de alguns policiais. O erro talvez mais grave para os torturadores foi o de colocar on-line o vídeo da missão punitiva, para se exibirem. Imediatamente, as comunidades Dalits fizeram circular o vídeo, enviando-o também para os grupos de Whatsapp. Quando os fundamentalistas hindus perceberam o dano, tentando eliminar as provas, já era tarde demais, o vídeo tornara-se viral. A polícia foi obrigada a intervir, fazendo algumas prisões. Mas a fúria e a raiva depois de décadas, na verdade depois de séculos de abusos, eram enormes. Mais de 20 jovens Dalits tentaram o suicídio em protesto. Um deles morreu ontem.
Uma outra resposta dos Dalits contra os vigilantes hinduístas que os atacam e agridem pelo seu trabalho de curtidores e encarregados do abate de bovinos foi a de jogar carcaças de vacas diante dos prédios públicos, gritando: “A Vaca Sagrada é vossa mãe, façam vocês o funeral dela! Virem-se!” Em resposta, um parlamentar do partido fundamentalista no poder, o BJP, declarou: “Total apoio àqueles que assumem a responsabilidade de ensinar lições importantes a alguns Dalits rebeldes”. Como primeiro resultado, o governador do Estado de Gujarat, também do BJP, teve de renunciar.
“Queremos o porte de armas! Queremos aprender as artes marciais! Já sofremos o bastante! Se continuarem a nos torturar, vamos quebrar mãos e pernas desses exploradores das castas mais altas! – bradou o advogado Jignesh Mevani, líder do Comitê Dalit de Una contra Atrocidades (Udals) para mais de cinco mil manifestantes que se reuniram em Ahmedabad, a capital do Gujarat.
Mas são pelo menos 25 mil os manifestantes mobilizados nas praças de todo o Estado em que foi governador o atual primeiro-ministro Narendra Modi, que agora tem de enfrentar a contradição entre suas promessas de desenvolvimento econômico e a política de polarização e de divisões sociais promovida pela sua própria ideologia hindu fundamentalista.
“No “Gujarat modelo”, – disse ironicamente Mevani, – foram movidas 15.500 causas por atrocidades contra nós e os Dalits foram expulsos com violência de 55 aldeias. Por que Modi não fala destas atrocidades? Por que não nos trouxe a sua solidariedade? “.
As castas mais baixas não estão nada acostumadas a protestar desta forma, no contexto de submissão e tolerância do sistema dogmático hindu.
“É preciso um fatalismo inimaginável para aceitar este nível de privações, dificuldades e humilhações por milhares de anos. E manter este sistema de castas requer uma insensibilidade emocional desumana” – protestou o editorialista colunista Mitali Saran no”Business Standard”.
Aos Dalits uniram-se também organizações muçulmanas, categoria atingida pela “caça ao carnívoro” depois que o fundamentalista Modi assumiu o poder. Em setembro um muçulmano, cuja família foi acusada de comer carne de bezerro, foi linchado pela multidão. Em março, dois comerciantes de gado foram linchados em Jharkhand.
“Há uma corrente histórica que quer reivindicar a pureza, como o Hindutva dos fundamentalistas”, – declarou a “la Stampa”  o historiador Sunil Khilnani. “A diversidade não é uma ameaça, ela nos dá uma força estrutural de elasticidade. Somos uma nação bastarda. Esta é a nossa força, não uma fraqueza”.
Convencer os “vigilantes das vacas” dos fundamentalistas de Modi e as castas privilegiadas do hinduísmo não será fácil.

 
Carlo Pizzati

 

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