7 de ago de 2016

Quem foi Carlos Marighella e por que você deveria saber disso

Quem foi Carlos Marighella e por que você deveria saber disso
2016-04-25 14:28:25

Weslley Reis www.novae.inf.br



Carteira de filiação ao Partido Comunista
Duas histórias me vêm à cabeça quando penso em Carlos Marighella: sua resistência à prisão no episódio do Cinema e a invasão da Rádio Nacional.
A primeira eu soube pelo documentário “Marighella” de 2012, de forma bem marcante através do depoimento de Clara Charf, sua companheira de vida e de luta. A segunda, com certeza foi pelo clipe de “Mil Faces de um Homem Leal” dos Racionais MC’s que, mesmo fazendo parte do filme, chegou a mim por vias diferentes.
O que ambas as histórias têm em comum? São incríveis, cinematográficas, e protagonizadas por um negro, pobre e portador de ideais de libertação.
A pergunta é: Por que se fala tão pouco de pessoas como Carlos Marighella? De pessoas que colocaram um ideal de libertação acima da própria vida?



Nascido na Bahia, de pai operário italiano, mãe negra da etnia dos Haussás e origem humilde. Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e um dos líderes da Ação Nacional Libertadora (ALN). Preso em duas ditaduras, torturado, guerrilheiro e poeta. Para a grande mídia e os que escrevem a História: terrorista.

Dispensa legendas


“1964  — Com o golpe de abril, instaura-se a ditadura militar. Perseguido pela polícia, Marighella entra num cinema do bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, e lá resiste aos policiais até ser diversas vezes baleado, espancado e finalmente preso. Sua resistência transformou sua prisão em um ato político que teve repercussão nacional. É solto depois de 80 dias, depois de um habeas corpus pedido pelo advogado Sobral Pinto”.
Esse trecho foi retirado de uma biografia resumida no site do PCB e possivelmente é como a maioria das pessoas — dentre as poucas que conhecem o episódio — devem se referir a ele. Uma anedota da história.
O que eu sei sobre o fato: em 9 de maio de 1964, Carlos Marighella e Clara Charf estavam em um aparelho — nome dado as casas usadas de esconderijo na ditadura — vivendo de forma ilegal e escondendo quaisquer rastros de existência. Marighella tinha marcado um encontro com uma amiga em frente a um cinema na Tijuca para reaver algumas roupas que haviam ficado para trás na última fuga.
Clara diz, no documentário, que o companheiro teve um pressentimento e começou a recolher todos seus pertences do apartamento, pedindo para ela fazer o mesmo. Quando saiu do apartamento, de frente para o elevador, Marighella optou pela escada. A polícia, pelo elevador. Oxóssi protege seus filhos.
Próximo ao cinema, agora sozinho, Marighella percebeu a polícia de tocaia, vigiando. Fez sinal para a amiga entrar e seguiu atrás. Pegou o pacote, se despediu rapidamente e sentou-se em meio a sessão da tarde, lotada de crianças e famílias. Pouco tempo depois, as luzes do cinema foram acesas e ele foi cercado pelos policiais instaurando o caos no local. Lutou o quanto pôde com socos e gritos de “Abaixo a ditadura militar fascista” e “Viva a democracia”, mesmo baleado covardemente a queima roupa.
A bala fez quatro furos, entrando pelo lado esquerdo do tórax, saindo pelo direito e atravessando o braço de Marighella. Ainda assim, relatos dizem que quase uma dezena de policiais foram necessários para colocá-lo dentro da viatura. Desse episódio, surgiu o relato de próprio punho que deu origem ao livro “Porque resisti a prisão”.
Vê a diferença?
“Reaja ao revés, seja alvo de inveja, irmão
Esquinas revelam a sina de um rebelde, ó, meu
Que ousou lutar, amou a raça
Honrou a causa que adotou, o aplauso é pra poucos
(Carlos Marighella)
Revolução no Brasil tem um nome (Marighella)”



A primeira vez que realmente ouvi sobre Carlos Marighella foi nesse clipe do Racionais MC’s. Podia não ser um nome estranho para mim, mas estava longe da grandiosidade desse personagem.
Quem era esse mano que merecia um som do Racionais e eu, universitário, morador da periferia e negro, não fazia a menor ideia de onde tinha saído?
“Às oito e meia da manhã de 15 de agosto de 1969, um destacamento de doze guerrilheiros da ALN (Ação Libertadora Nacional) invadiu a estação transmissora da Rádio Nacional em Piraporinha, perto de Diadema (Grande São Paulo). Dominados os funcionários, um dos invasores interrompeu a ligação com o estúdio e ligou ao transmissor de ondas curtas uma gravação. Com o Fundo musical do Hino da Internacional Comunista e do Hino Nacional, a gravação anunciou o nome da Carlos Marighella e reproduziu o manifesto lido por ele. Na meia hora em que a estação esteve sob controle da ALN, deu tempo para repetir a gravação. No mesmo dia 15, o jornal paulistano Diário da Noite lançou uma segunda edição com o texto integral do manifesto de Marighella captado pelo o rádio escuta ”.
A imagem que eu tenho da tomada da Rádio Nacional é Mano Brown, KL Jay, Edi Rock, Ice Blue e Dexter chegando em um fusca, fortemente armados, vestidos como se estivessem em 1964 e gritando: “Quieto senão morre. Quieto. Quieto. Entra caralho”. O vigia rendido é levado até a sala de transmissão onde se encontra o locutor, que é enquadrado por KL Jay ao som de “Ajoelha, caralho! ”.
E o discurso feito por Marighella no ato entrando na sequência.
Teria como ser diferente?
Carlos Marighella era muito diferente do Brown ou do Dexter? Ou de mim e de você?
Por que a gente não aprende isso na escola?
Por que o inimigo número um da Ditadura Militar nunca é citado nos livros didáticos?

Inimigo Nº1 do pior governo que o Brasil já teve


Quem é Carlos Marighella pra mim?
Um pardinho qualquer que pode ter nascido da ponte pra cá ou no extremo da leste. Contra tudo e todos, não mirou carro importado, correntes de ouro ou dinheiro como salvação. Sua ambição era muito maior.
Coisas do Brasil super-herói mulato, defensor dos fracos, assaltante nato”, sintetiza Brown em sua homenagem.
Pra mim, vai além. Carlos Marighella é o nosso anti-herói perfeito. Seu amor maior era a liberdade, que não bastava só a si, teria que ser plena e total para todo seu povo. Independente da ideologia escolhida, libertação era o foco e a vida era só mais uma variável a se apostar.
Por isso os assaltos a banco, os atos da ALN, a resistência à prisão, a guerrilha e a integridade de assumir atos que não eram nem mesmo seus, para defender outras pessoas — sobre o sequestro do embaixador americano.
Liberdade, a qualquer custo. Foi isso que esse preto, pobre e comunista ensinou para mim. E esse é só um relato puramente passional dessa figura ainda pouco conhecida por nós mesmos. Ademais, deixo por último mais uma das mil faces de um homem leal, a de poeta:
Liberdade
“Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.
Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.
Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.
E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”

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