4 de nov de 2016

Eleições em tempos de Neobarroco: um simulacro em SP POR FRAN ALAVINA

Eleições em tempos de Neobarroco: um simulacro em SP

 
 
 

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Orgulhosa apesar de declinante, aferrada à imagem corroída de “metrópole do trabalho”, cidade sucumbiu a uma farsa banal: o prefeito plutocrata que se diz trabalhador…
Por Fran Alavina
  1. Retomando a discussão: peculiaridades do centro da periferia
Na primeira parte deste artigo, iniciamos a exposição de como nas últimas eleições municipais se apresentaram uma série de elementos que podem ser caracterizados sob o signo do neobarroco, marcando a indistinção entre estético e político. Trata-se da ocorrência dos caracteres do excessivo-hiperbólico, da repetição, particularmente no uso das cópias, que privilegiando a forma em detrimento do conteúdo, corrobora o aspecto neobarroco do fim dos limites precisos entre âmbitos distintos. Já não sabemos mais onde termina a mera propaganda política e começa, de fato, o político: em que ponto a imagem da política se diferencia da política das imagens. Se o político se processa agora, mais ainda, sob o signo do especular e do espetacular, na verdade o que prepondera é aquilo que tradicionalmente se considerou como sendo “não político”. Um apolíticona medida em que o político foi relacionado, de modo reducionista, ao aspecto meramente institucional e representativo. O discurso do “não político” se mostra não apenas como um slogan, uma tendência ou “onda” nas águas turvas do conservadorismo, ele se aloja na crise de um modelo de civilização que a adaptação às formas midiáticas tenta esconder. Quanto mais midiaticamente se celebra a Política, mais ela se torna propriamente midiática e menos política.
O discurso que diz que apolítico possa reger o político já não é mero palavrório da propaganda eleitoral na medida em que as democracias representativas degeneram no aspecto espetacular, no qual as eleições em pouco se diferenciam da competitividade cínica de um reality show. Os sentidos do político se esvaem na medida em que as Democracias se deixaram capturar pelo jogo midiático, operando com imagens e estados de excitação em que pouco importa as construções coletivas feitas em longo prazo. Tudo é dado como na lógica do fast-food: pronto e acabado, feito para o consumo imediato. Aqueles que se dizem “não políticos”, desse modo, apresentam um quadro de medidas fast-food, que segundo espalham, o político tradicional é incapaz de oferecer. Já entramos em um estado de coisa no qual a figura do consumidor toma o lugar da figura do eleitor, de modo que a própria Política deixa de ser pensada como um âmbito de construção coletiva para ser apresentada, cada vez mais, como gerência eficiente de serviços que o Estado ainda pode prestar. Ainda, pois já se está saindo da esfera dos direitos para aquela dos serviços. Com efeito, na cidade onde consumir tem se tornado o ato identitário local mais forte, a política torna-se também um produto de consumo. De tal modo, que prepondera aquele de melhor marketing e propaganda, isto é, ganha não aquele que capta o que se deseja, mas sim aquele que é capaz de manipular e criar novos desejos. Ademais, é próprio do consumo predatório querer sempre mais o novo, mesmo que este novo se repita: paradoxos do consumismo febril! Quando qualquer coisa pode ser nova, não há de fato novidade.
TEXTO-MEIO
Ora, a eleição municipal em São Paulo, encerrada já no primeiro turno, reuniu todos estes aspectos, uma vez que é a nossa cidade de capitalismo mais avançado e predatório, na qual os paradoxos de sua invisibilidade são escondidos pela sua ideologia identitária, tal como no caso de Fortaleza. Mas aqui, não estamos simplesmente em uma cidade-capital que diz falar para e pelo seu estado, ou região, mas cidade que diz falar pelo país. Não é está a metáfora da cidade locomotiva? O resto do país está ao seu reboque. Sendo nosso exemplo mais acabado da metropolização global, os agentes detentores do discurso identitário da cidade, faz tempo, deixaram de apelar para sua história. Ela parece não ter passado, pois foi sempre moderna: destinada naturalmente à grandiosidade. Nesse discurso, os bandeirantespassam por empreendedores, que excluídos dos primeiros anos do ciclo econômico colonial forjaram com méritos próprios seu sucesso. Nela se pode encontrar de tudo, pois dela mesma há muito pouco, (lembro-me aqui de um amigo paulistano cheio de boas intenções que me enumerou a pizzacomo um dos pratos típicos da cidade). Em um lugar onde se pode encontrar de tudo que há no mundo, dificilmente se poderá encontrar algo de realmente local. São Paulo, talvez, seja a cidade que adotou, por excelência, o formato cópia em todas as suas perversidades para constituir sua autoimagem, pois é pelo formato cópia que mesmo estando na periferia do capital é possível integrar-se aos discursos globais. O Ibirapuera é como o central park; a avenida paulista é como a times square.
Assim, a cidade sempre nos apresentará uma cópia, um remake daquilo que há nas metrópoles globais. Nada que há na cidade deve encontrar parâmetro no restante da vida nacional, pois está alinhada primordialmente com o “mundo avançado”. Uma parte do imaginário coletivo simbólico da cidade nada mais é que um arquivo de simulacros sedimentados, que fazem da determinação metropolitana do lugar um forte simulacro imagético, de tal modo que a cidade esquece que antes de ser metrópole é cidade, e como tal comporta todas as vicissitudes da vida urbana comum. Uma metrópole que, em parte, é cidade simulacro. Uma cidade que ao falar de si mesma simula para si e para os outros que é primordialmente o lugar da circulação e do consumo, e não o lugar da vida comum onde residir é o sentido primordial de toda cidade. São Paulo sempre procura dá de si mesma uma imagem na qual parece não possuir moradores, mas gente que circula e consome: residir parecer ser apenas um elemento prévio para a garantia do consumo e da circulação. A cidade deixa de ser o lugar do pertencimento para ser aquele do deslocamento. Se a imagem dada é aquela da circulação, essa imagem da circulação se tornou imóvel, se sedimentado como imagem difusa no fundo do imaginário coletivo.
Nessa perspectiva, olhando para São Paulo, podemos refletir com Pietro Barcellona: “As cidades não são mais as janelas sobre o mundo de Vittorini, mas aglomerados opacos e uniformes. Uma grande remoção emotiva da tradição da cidade se verifica. Que coisa se perde, perdendo a cidade?1. Com efeito, o que significou o resultado das eleições de 2016 na cidade de São Paulo, senão, em certo sentido, do que a perda da cidade? É preciso começar tecer a teia conceitual que torna inteligível o significado da perda.
Como no primeiro caso, o de Fortaleza, aqui também é preciso perfazer um pequeno recuo na história simbólica da cidade, isto é, no modo como a cidade fala de si mesma, nos discursos que se apresentam como identitariamente mais fortes e difusos. Nesta segundo parte de nossa reflexão, acresce-se às características assinaladas, o caráter de simulacro. Com efeito, será este o aspecto determinante dessa parte da análise. De modo que a conclusão não pode ser outra: nos próximos quatro anos a cidade será dirigida por um simulacro! Mas, onde começou se esboçar este simulacro potente, que agora irá assumir o centro do poder? Vejamos.
  1. o novo prefeito de São Paulo: o simulacro de trabalhador
Se no primeiro caso dos remakes políticos, aquele de Fortaleza, a ideologia que se faz discurso identitário, ao longo de sua história é o riso, a ideologia do riso, a ideologia que se faz discurso identitário da cidade de São Paulo é o trabalho, portanto a ideologia do trabalho. Esta sustenta o discurso da metrópole, do desenvolvimento e da modernização. Se em Fortaleza temos uma ideologia, que sem deixar de comportar os aspectos negativos de toda ideologia, ao menos desemboca no riso; São Paulo é séria, deverás séria, de tal modo que também o riso deve pegar fila e se apresentar apenas na hora certa, quando for chamado. Já se disse, com propriedade, “que não existe amor em SP”.
Esta ideologia identitária, que identifica no trabalho o caráter distintivo da cidade, dá aos paulistanos um discurso comum agregador, único que pode reunir na mesma fabulação histórico-social uma cidade formada por tantos habitantes cujas raízes não estão na cidade. Uma cidade de “forasteiros” não pode buscar na mera história local um forte discurso agregador. Sempre que é preciso retomar um discurso que tenta turvar de nossas vistas as segregações urbanas da capital paulista, o discurso repetido é de que todos os de fora que aqui estão se “irmanam” com os paulistanos pelo trabalho. São paulistanos, ainda que não tenham nascido na cidade, pois são trabalhadores. Esta lógica, levada ao seu extremo, dá ao paulistano o simulacro de que se não é apenas ele que trabalha no mundo, com certeza é quem mais trabalha. A mazela da expropriação, que leva a passar boa parte das horas do dia apenas no deslocamento entre a casa e o trabalho, por meio da ideologia identitária deixa de ser mazela e expropriação para se tornar virtude. Por isso, o termo pejorativo “baianada”, na cidade do consumo, não designa um estado natal, mas um estado social: o preguiçoso. Perder a marca do trabalho é perder a única identidade local, pois como já dissemos, à medida que avançou a metropolização, não há mais quase nada de local.
Se em Fortaleza o riso torna comum e aproxima encobrindo as diferenças de classe, o que torna comum em São Paulo, apresentando as divisões de classe como um mero capricho do destino ou da meritocracia, é o trabalho. Donde a ralé, a raia miúda, o grupo que causa a repugnância social da cidade ser o desocupado. Não o desempregado, mas o ocioso; não os ambulantes que estão às margens da formalização do trabalho, mas sim àquele que sem oficio algum pode afrontar a cidade gozando daquilo que ela não dispõe, daquele bem precioso que quanto mais se trabalha, menos se tem: o tempo livre. Poder dispor do tempo para nada fazer é a heresia social mais forte da cidade. Embora o tempo livre seja àquilo que mais um paulistano almeje (veja-se a espera quase messiânica pelos feriados prolongados), também é àquilo que mais causa repugnância. Estranho paradoxo, desfeito à medida que se compreenda que a ideologia do trabalho se assenhorou de todo campo simbólico, afetivo e do discurso público, de modo que a repugnância ao desocupado é o ressentimento pela falta de tempo livre. É com o termo “desocupado” que se designa, em geral, os que se manifestam politicamente, ou fazem grave no meio da semana!
Assim, enquanto em suas peças publicitárias o prefeito que buscava a reeleição mostrava os benefícios de se voltar a frequentar as praças públicas da cidade, bem como mostrava também o tempo livre ganho com o aumento dos corredores exclusivos de ônibus, o candidato vitorioso vinculava uma peça publicitária que mostrava sua agenda diária, que nada mais era que sua suposta agenda de trabalho. Na cotidianeidade do candidato Doria não havia nenhum aceno para o tempo livre. Todo seu dia era preenchido pelo “trabalho”, de modo que os compromissos de sua ocupação simulavam aquilo que seria sua própria vida. Tudo se resumia a trabalho: assim se contava sua história de vida, assim se contava sua rotina diária. A peça dava a entender, ao descrever o suposto diário do candidato, que trabalho é apenas o mesmo que ter horários ocupados com compromissos, os mais diversos possíveis. Em outros termos, trabalho significaria não ficar sem fazer nada.
Ora, nesse registro, qualquer empresário ou rentista pode simular ser trabalhador. Simulação de fato, pois enquanto sujeito abastado que possui uma “residência de inverno” em Campos do Jordão, trata-se de alguém que pode dispor de grande tempo livre. O interessante da peça publicitária televisiva era que nela não se mostrava o rosto do candidato, ou mesmo o próprio candidato realizando suas atividades diárias. Via-se apenas uma cama e um despertador, que enquanto relógio era o signo do tempo ocupado. Uma voz descrevia as atividades do candidato, tal como uma secretária descreve as atividades diárias para seu patrão no começo da jornada. Este expediente, de esconder para tentar fazer ver o que não há, é usado, por exemplo, em propagandas de carro, no qual o automóvel desfila ante nossas retinas sem que se veja o motorista, enquanto uma voz imperiosa descreve não apenas as qualidades objetivas do veículo, mas as sensações que o motorista terá ao usufruir daquele bem. Ora, aqui, tal como na peça publicitária da campanha vitoriosa, deixa-se um espaço vazio, no qual o eleitor, ou o consumidor devem se identificar. A identificação nunca deve ser imperativa, não se diz claramente que o candidato é como a grande parte de eleitorado, trabalhador; pois, assim fazer seria afrontar o eleitor, antes se deve sugerir que eles são iguais. Tal como alguém que não diz que a é igual a b, mas mostra um espelho para os dois. Neste caso, um jogo de espelho viciado, conduzido não para mostrar, mas para esconder. Pois é sugerindo, se arma um circito identitário aparentemente não imposto, ou seja, por isso não identificado de imediato como algo falso. Aqui a publicidade eleitoral nada mais é que um remake, uma cópia da venda de veículos. O reforço disso que se diz, mas que não se pode ver, e não se pode ver porque não existe, era feito pela música da campanha que como tortura repetitiva, dizia: “(…) é o João trabalhador”.
Um empresário que simula ser trabalhador não pode mostrar de fato suas atividades diárias, pois isto seria o desmonte do simulacro. Ora, o que chama atenção aqui não é tanto o poder da simulação, mas o vácuo de sentido histórico que permite sua possibilidade. É sintomático que um representante da plutocracia da cidade, se apresente como trabalhador justamente quando um dos disputantes do pleito, e atual prefeito, pertence ao partido dos trabalhadores. Não é mera coincidência que justamente no momento em que ocorre um ataque aos direitos trabalhistas, um plutocrata tenha a possibilidade de se apresentar como trabalhador. Não se trata apenas de uma relação com a ideologia identitária da cidade, mas de um sintoma de que aquela figura histórica do trabalhador está desgastada depois de anos de ataque da ideologia neoliberal. A imagem do trabalhador é corroída enquanto imagem de classe histórico-social e substituída pela imagem neoliberal segunda a qual cada um é empreendedor de si. Tentar apaga a diferença entre capital e trabalho com o discurso de que todos, patrões e empregados, são empreendedores, nada mais é que criar um simulacro: potente, posto que já mostra seus primeiros efeitos. Um simulacro é dado, e sobre este simulacro dado se fundamentou o pleito municipal. O próprio resultado do pleito confirmou isto.
Todavia, se o trabalhador não pode se identificar na aparência com o candidato vitorioso, por isso não se mostrava seu rosto na peça publicitária que o descrevia como trabalhador, no jogo viciado dos espelhos, ele se viu onde apontaram que deveria se reconhecer. Não que o paulistano goste de ser enganado, é que aquele está acostumado aos simulacros. A própria imagem de cidade que é dada a ele, é um grande simulacro. Uma cidade que se acostuma facilmente aos simulacros não poderia ser governada senão por um simulacro.
1  Pietro Barcellona, O Egoísmo Maduro e a Insensatez do Capital, p. 99.

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