24 de mar de 2017

Esquerda e classe média brasileira: uma relação conflituosa

Esquerda e classe média brasileira: uma relação conflituosa
Terça-feira, 15 de março de 2016

Esquerda e classe média brasileira: uma relação conflituosa

Espanta o recente rompimento apaixonado da classe média brasileira com os valores da esquerda. Não fazia muito tempo, a aprovação de Lula era considerável, e Dilma a herdou durante algum tempo. Agora, a classe média repete chavões de décadas atrás, espuma muita raiva, indignação e medo, e a esquerda lamenta o seu ridículo ridicularizando-a. Na verdade, antes desse drama, uma de nossas maiores intelectuais, Marilena Chauí, o antecipou, em maio de 2013, quando declarou: “eu odeio a classe média”, argumentando que a Classe C não faz parte dela, antes, é a ascensão dos miseráveis à classe trabalhadora, ganhando um pequeno salário devido ao Bolsa Família e o aumento do emprego nesse segmento social.
A fala da filósofa não repercutiu bem, mas inegavelmente representa um típico olhar da esquerda, ativista e intelectual, sobre a classe média, pois ela realmente acha “que é o que tem reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista”, estúpida, abominável, fascista… Não há como negar que Chauí foi exatamente no ponto antes de o monstro aparecer com grande evidência. E soa muito digno, nos círculos de esquerda, que uma pessoa, de classe média, seja, naturalmente, contrária a tanta “estupidez”, nadando contra a corrente da sua família, manipulada pela mídia. A fala de Chauí no encontro dos 10 anos de governo petista foi um dos barris de pólvora muito bem aproveitados pela imprensa neoliberal para o seu vitorioso contrataque. Depois, nas Jornadas de Junho de 2013, que, segundo as pesquisas, mobilizou especialmente a classe média, Chauí se posicionou contra o levante pelo mesmo motivo, e ainda antecipou o perigo do fascismo. Mesmo que, nesse ponto, boa parte da esquerda tenha dela discordado, vendo aí um marxismo conservador, os capítulos seguintes confirmaram-na com louvor.
Com a onda de manifestações pró-impeachment, toda a esquerda se sentiu muito à vontade para repetir os vitupérios de Chauí contra a classe média, enquanto a própria arrola os seus contra os “comunistas”. A troca de expressões de ódio as une na mais extrema repulsa. Salientam-se, então, algumas questões. Primeiro: a classe média brasileira foi sempre contrária à esquerda, sempre foi conservadora, reacionária? Podemos responder, rapidamente, que não: o PT conquistou o seu voto progressivamente, desde a abertura até Lula ser eleito, isso sem contar com Brizola. Sabemos que o atual ódio da classe média pela esquerda vem da doutrinação da grande mídia, mas de onde vem o desgosto da esquerda pela classe média? Por que a esquerda insiste tanto na condição das classes populares e desconsidera qualquer hipótese de que a classe média sofra com o sistema? Por que a pauta da esquerda sempre foi tão indiferente com a classe média, por mais que o neoliberalismo, desde os anos 80, tenha, muito claramente, destruído a “medianização” da sociedade implantada pelo Estado de bem estar social dos anos gloriosos de 45 a 75? É claro que tais questões implicam outras bem mais básicas, como: o que é “classe média”? Onde está sua maioria: em profissionais com pleno emprego, altos salários e qualidade de vida, ou em vítimas da flexibilização, informalidade, insegurança, stress, renda limitada diante de altos impostos, aumento do custo de vida?  Até que ponto tal conceito pode ser utilizado para falar de uma faixa de renda social muito mal compreendida, heterogênea e cujos extremos podem implicar em condições completamente opostas?
Sem pretensões de responder perguntas difíceis até para sociólogos e economistas, podemos começar dizendo, muito simplesmente, que a direita é essencialmente uma ideologia para rico e a esquerda, uma ideologia para pobre. Não há ideologia específica de classe média. Embora isso seja óbvio, percebo que muitos dos mais finos teóricos não levam o fato em consideração, nem possuem algum desejo de tentar entender uma classe que não é nem uma coisa nem outra. A solução sempre foi considerá-la ou como parte da classe dominante (a menos dominante), ou como parte dos pobres (a menos pobre); nem uma coisa nem outra, ela é sempre a menos rica ou pobre. Não há nela nem a pompa vitoriosa da riqueza, nem a dignidade moral da pobreza. Por isso mesmo, não encontramos grandes esforços para reconhecer sua singularidade, menos ainda no Brasil. Nem eu posso me atrever a tal, quero apenas assinalar a dificuldade.
A classe média é geralmente ignorada por ambas as ideologias por sua falta de autenticidade. Os ricos riem de sua falta de distinção, os pobres veem nela a própria opressão dos ricos estampada. Engana-se quem acha que isso não leva a um certo distúrbio psicológico de identidade, num mundo tão cioso de posicionamentos claros, especialmente no caso das identidades de classe, num país em que seus conflitos sempre foram extremos e num momento em que eles voltaram a se evidenciar à flor da pele. A classe média sofre com isso sim, e não sofre pouco, por mais que tal malade pareça tão insignificante e luxuosa perto da seriedade dos pobres.
No caso da esquerda brasileira, reitera-se uma clara queixa de que ela não se sensibiliza com as classes abaixo dela, desfavorecidas, e se comporta como superior, embora seja subalterna e manipulada. Portanto, não há nenhum motivo para que os interesses da esquerda e da classe média se toquem, embora isso conte em desfavor de ambas. O contrasenso aumenta quando suspeitamos que a maioria dos intelectuais de esquerda (professores, artistas, mobilizadores culturais) sejam de classe média. Por que é tão inimaginável que haja alguma solidariedade entre as duas?
 Um insatisfatório mas útil esboço histórico pode nos ajudar. Marx nunca gostou da “pequena burguesia” de sua época, não via nela mais do que um fenômeno transitório da luta central das duas grandes classes, enquanto os liberais viam nela a prova de eficácia da meritocracia. À medida que as fábricas foram aumentando seu contingente e exigindo mais especialidades, até chegar ao fordismo, a classe bem qualificada, remunerada e não proprietária aumentou. O Estado de bem estar social dos países desenvolvidos foi o melhor período do capitalismo: a classe média se tornou predominante na economia e na cultura. Marxistas de diferentes linhas não conseguiram nem engolir nem entender o seu protagonismo social, geralmente depreciando-a como conservadora, alienada e consumista, relutando em observar seus aspectos positivos. Na contracultura, momento de protesto contra políticas conservadoras injustas e mudança do comportamento, a esquerda libertária conseguiu conquistar a classe média e a cultura de massa a ela dirigida. Nos anos 80, a direita retomou o domínio do comportamento e da cultura de massa com os yuppies. Essa é a tradução cultural da hegemonia do neoliberalismo, que desmantelou o Estado de bem estar, precarizou todos os serviços e atingiu em cheio a classe média. Da “medianização” da sociedade, hoje retornamos a índices de desigualdade próximos do início do século XX.
No Brasil, de Vargas a Jango, houve um esforço concreto de diminuição da desigualdade social e um aumento da classe média. A ditadura rompeu com o desenvolvimentismo e alcançou o milagre econômico reforçando a desigualdade. Miseráveis aumentaram e a classe trabalhadora sofreu; por outro lado, quem conseguiu se manter na classe média gozou da baixa renumeração da classe trabalhadora para serviços domésticos e reforçou a herança de formas de dominação de classe coloniais. Esse momento histórico é determinante para nossa discussão: o PT cresceu sentindo a indiferença da classe média à classe trabalhadora, teleguiados pelo conservadorismo midiático. No governo Sarney apareceu a crise da dívida externa, o aumento da inflação e a precarização, bem mais grave que nos países desenvolvidos, da classe média brasileira. Nos anos 90, de Collor a FHC, o neoliberalismo entrou em cheio no país, congelando salários do funcionalismo público, aumentando o desemprego e, consequentemente, a violência urbana. Nesse momento, os miseráveis continuavam crescendo, e tanto a classe trabalhadora quanto a média sofreram perdas. Ao longo de todo o processo de abertura, a classe média foi se simpatizando com o PT, até que considerável parte dela votou no Lula e contribuiu para sua eleição. 
Não podemos dizer que o PT foi prejudicial à classe média, se ele reajustou o salário dos funcionários públicos e aumentou consideravelmente o emprego nesse setor, que é o mais seguro. Porém, quem mais se beneficiou com suas políticas foram os miseráveis, na sua ascensão à nova classe trabalhadora. Como argumentam vários intelectuais próximos ao PT, essa foi uma conquista central da redução da desigualdade social, ainda que não tenha sido nada satisfatória, pois foi feita no consumo e não na melhoria dos serviços públicos. O PT não é o único responsável pelo fato da precarização neoliberal dos anos 2000 até hoje manter continuidade com os anos 90 e cada vez mais agravar suas consequências na saúde, transporte, segurança, educação e moradia. De qualquer modo, ele participou, com os governos estaduais e municipais do PMDB e do PSDB, de todo esse desmantelamento.
Ao longo do governo petista, o discurso da esquerda louvou a ascensão da classe C e a reivindicação das minorias, que estão na ordem do dia em todos os movimentos de esquerda, o que é positivo para a classe média, daí a adesão, por exemplo, de tantas de suas mulheres ao feminismo. Porém, o clima de denúncia dos privilégios da classe média (branca, instruída, bem alimentada) foi desmoralizando o seu lugar, enquanto ela sofria o agravamento da favelização do asfalto. O ódio à classe média chauiano projeta todo o mal da classe realmente dominante nela, pois é com ela que as classes baixas convivem diariamente; isto é, a classe média paga o ônus do conflito de classes no dia a dia, enquanto os ricos continuam protegidos e confortáveis em seus bairros nobres, apartamentos em países desenvolvidos e ilhas distantes. Como a esquerda queria que ela reagisse a essa combinação perversa de fatores? Se Chauí disse que “a nova classe trabalhadora é o sujeito político da próxima década”, movida pela onda da discussão sobre a classe C, o que apareceu desde 2013 foi, no entanto, a primazia do sujeito político mais conhecido: a classe média tradicional.
À guisa de esclarecimento, podemos dizer que valeria mais unir interesses de classe trabalhadora e classe média achatada do que separá-los. A distância de condição e interesses é maior entre a classe média achatada e a classe média alta, mas a esquerda cisma em não refletir sobre essas sutilezas. Seria desejável que houvesse uma sensibilização recíproca e solidária dos problemas das classes que, sem dúvida, não estão no poder, e são vítimas, de diferentes formas, de um sistema que privilegia, com muito exagero e cinismo, somente o 1% dos que detém a maior parte das riquezas. O ressentimento que a classe trabalhadora guarda contra a classe média tem suas razões, mas não cabe ao pensamento e ao ativismo de esquerda fomentá-lo; antes, seria muito mais sensato e eficaz contribuir para a solidariedade mútua e a crítica ao sistema. Alimentar ressentimentos é uma estratégia que o poder midiático tem utilizado com muito sucesso, em suas polarizações escandalosas, e é lamentável como a esquerda contribui para o que a enfraquece.
Eu sei que serve de consolo para nós, de esquerda, ridicularizar a tolice da classe média. O problema é que repetir esse gesto a cada vitória da direita não é nada estratégico. Ao contrário: é um verdadeiro suicídio político. A estupidez da classe média não vai passar para o nosso lado chamando-a de estúpida. Pelo contrário, isso acirra a sua raiva contra os "comunistas" que não somos. Há um grande, imenso, equívoco da esquerda nessa reação impotente, e é possível pensar sobre isso e reagir de forma diferente. Se a esquerda se tornar completamente derrotada, quem sabe isso não vai ficar claro só para mim, quando já não adiantar nada reconhecer a falha decisiva. O erro da esquerda, desde a propaganda mais elementar às teorizações mais sofisticadas de Jessé Souza, é não ouvir a classe média, quando não para de dizer que a sociedade não pensa, não vê, não ouve o pobre, quando mesmo o pobre não quer mais ser visto como pobre.
Podemos ficar irritados o quanto quisermos com a Veja e o Globo, mas eles souberam arrebanhar a classe média, quando isso poderia ter sido evitado, mesmo que o seu poder de difusão seja quase onipotente. Será que não falta, agora, “deixar a classe média falar”, mesmo que ela não saiba direito sequer qual é o seu lugar de fala (devido, afinal, a seu distúrbio de identidade), enfim, escutar, analiticamente, as suas queixas, e falar também para a classe média?
Eduardo Guerreiro B. Losso é professor adjunto do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ

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