politicaNa vida pública republicana brasileira registra-se a prática do líder ou cacique político de transferir o poder (inclusive o do voto) aos seus familiares, o chamado herdeiro político. O poder ou os mandatos eletivos passam às gerações seguintes. Isso ocorreu e ocorre muito no Brasil, inclusive em Goiás.
É comum, portanto,  filhos, netos, sobrinhos, primos, esposas empenharem a bandeira do parente político, principalmente daqueles que estão no exercício do poder – federal, estadual ou municipal.
Eles integrantes de velhos políticos conhecidos de famílias tradicionais de Goiás. Estão esparramados por Goiânia e cidades do interior. Carregam consigo nome e sobrenome de políticos que exercem ou exerceram cargos importantes no Estado. Cresceram em rodas de políticos, ouvindo as conversas sobre a rotina desse cenário local e nacional e, este ano, estão nas ruas em busca do voto.
A tarefa pode parecer simples, já que podem contar com o apoio de figuras experimentadas nas urnas, no entanto, o que eles relatam não é bem isso. Os “herdeiros políticos” querem ser associados aos pais, mas nem tanto. Temem a comparação, as cobranças por seguirem os “mesmos” passos. Eles pretendem alçar voos mais altos, não tão distantes das asas da figura política paterna, nem tão perto que sejam confundidos com eles. Querem imprimir sua própria marca.
A exemplo do que acontece em outros Estados brasileiros, a política goiana também é ‘loteada’ por diversas famílias que, ao longo dos processos eleitorais, lançam seus ‘rebentos’ de forma a demarcar território na briga pelo poder.
Em todas as eleições, se pode ver muitos candidatos, seja majoritários ou proporcionais, na Capital ou no interior, descendentes de caciques com mandato ou sem mandato, que ensaiam seus passos na política local. Personagens que surgem no cenário político como continuidade de uma família ou de uma geração.
Para o professor Itami Campos, de Ciências Políticas da UFG e Unievangélica, a sociedade tradicional valoriza os herdeiros políticos. “Mas com as migrações e o crescimento das cidades, a tendência é o desaparecimento desse fenômeno político, ou seja, a transferência de prestígio eleitoral do pai para o filho.” Ele lembra que a Lei de Inegibilidade já é um fator inibidor da manutenção do herdeiro político. “Veja bem, já não pode candidatar, no mesmo pleito, a mulher ou filho do prefeito, por exemplo.”
Itami Campos lembra que nas cidades importantes de Goiás já não se vê, com frequência, a tradição familiar nos processos eleitorais. “Em Anápolis, as famílias Fanstone, Santillo, Quinan e Duarte estão desaparecidas das eleições. Em Goiás Velho, Catalão, Morrinhos, Bela Vista, ocorre o mesmo fenômeno.”
Para o professor Pedro Célio Borges, de Ciências Políticas da UFG, é de opinião que a existência de herdeiros confirma que “muitos políticos tradicionais entendem que mandato popular pode (e deve) ficar no âmbito restrito de suas famílias”. E acrescenta: “A ideia da política como representação coletiva vai para cucuias e a liderança torna-se quase um fator de herança sanguínea.”
Pedro Célio sustenta que, tratada como tal, “a herança familiar de um espaço institucional de liderança só contribui para restringir a renovação política, para contornar a mobilização dos demais segmentos que integram a base de apoio dos políticos.” E ressalta: “Portanto, forma-se a chamada familiocracia, contrária à expectativa democrática.”
Ao comentar sobre a participação de parentes de políticos tradicionais ou ocupantes de mandato na vida pública, o cientista político e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Wilson Ferreira da Cunha, diz que o parentesco não deveria ser critério para a escolha do eleitorado. “A tradição política é necessária a qualquer país, mas ela precisa ser inovadora, não pode ser ligada apenas ao parentesco. A política depende de ideias. Se não há ideias novas, de nada adianta”, diz.
De acordo com Wilson Cunha, a existência de uma elite que se perpetua é natural em qualquer atividade, demandando renovações. Entretanto, ele avalia que os casos anteriores mostram que, na política brasileira, se trata apenas de continuísmo.
“O que mais se nota, no nosso caso, é apenas dar continuidade ao nome da família. Claro que isso aparece por falta de novas lideranças. Novas lideranças são forjadas na luta de ideias”, afirmou o cientista.
O cientista político completa dizendo que existe “muito oportunismo” no que chamou de “familiocracia”. “Isso seria normal se melhorasse a situação das cidades, do país, que está a frangalhos,” opinou.
É evidente que, como cidadão, qualificado eleitoralmente para o exercício do cargo público que postula, não existe impedimento legal. No entanto, os cientistas políticos sustentam que deveria ser proibido, notadamente, para aqueles em que os parentes estão no exercício de um cargo executivo – prefeito, governador ou presidente da República.
Além da imoralidade, do uso da máquina pública na campanha (não há legislação que não se dê um jeitinho) muitos herdeiros políticos são despreparados intelectualmente, alguns têm vida pregressa abominável. Outros, nunca prestaram serviços à comunidade e não se identificam com o povo para conhecer os seus anseios. Desejam tão somente continuar gozando das benesses, da sinecura que o poder lhes proporciona. Existem candidatos desabridos que usam o nome e o sobrenome da família e se preocupam até em sair bem na foto com o seu protetor político.
No País inteiro e em Goiás não é diferente, se proliferam esses exemplos de políticos: pessoas por pura presunção se lançam candidatos e o mais lamentável, são eleitos pela ignorância política de alguns e a necessidade da maioria. Mesmo com os limites da legislação eleitoral, o tráfico de influência, os favores políticos, as promessas de emprego e o uso da máquina pública são fartamente distribuídos e manipulados.
É preciso reconhecer que há, também, pessoas com vocação e espírito público, competentes, bem-intencionadas, honestas, independentemente de seu vínculo ascendente. É preciso, portanto, se distinguir as verdadeiras vocações e competências, daqueles que só querem se locupletar do dinheiro público e das falcatruas articuladas em gabinetes públicos.
Vargas e
herdeiros
Na crise política de 1954, quando viveu momentos dramáticos que acabaram levando-o ao suicídio, o presidente Getúlio Vargas entregou, na última reunião ministerial, sua caneta a Tancredo Neves e a João Goulart um envelope com uma cópia da Carta Testamento. Ele estava, assim, apontando seus herdeiros políticos. Tancredo era o Vargas cauteloso, negociador e Jango o Getúlio das reformas sociais, do nacionalismo econômico e do apoio ao trabalhador. Ambos foram próximos de Vargas e seus ministros. Mais tarde, muito mais tarde, Tancredo Neves foi eleito presidente da República, em eleição indireta, via Congresso Nacional e morreu sem tomar posse. Jango foi eleito duas vezes vice-presidente e tomou posse como presidente com a renúncia de Jânio Quadros e, depois, deposto pelos militares em 1964.
Fonte: www.dm.com.br