22 de mar de 2017

Religiosidade marca votação do impeachment


Religiosidade marca votação do impeachment


Desejo de tirar Dilma seria resposta a medidas do PT vistas como afronta à liberdade religiosa

No domingo, 17 de abril, muita gente ficou na frente da TV acompanhando a votação dos deputados no plenário da Câmara sobre a admissibilidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Cada votante tinha 30 segundos para justificar seu posicionamento e dar o seu veredicto. Aquilo que os principais veículos de comunicação previram de fato aconteceu: o processo de deposição da presidente sucessora de Lula foi aceito, e segue agora para o Senado (que começou a apreciá-lo na terça-feira, 26 de abril). Chamou a atenção do público não só o resultado da votação, mas também o “show” estrelado pelos deputados que, em suas justificativas na hora de votar, acabaram citando inúmeras vezes as palavras “Deus”, “família” e, claro, “corrupção”. Foram poucos os que explicaram seus posicionamentos citando o crime de responsabilidade que embasa o pedido de impeachment de Dilma Rousseff.
O deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) dedicou seu voto ao coronel Brilhante Ustra, reconhecido como torturador na ditadura militar brasileira pela Comissão Nacional da Verdade. Jean Willys (PSOL-RJ), depois de proferir seu voto, foi xingado por Bolsonaro e respondeu à provocação cuspindo no deputado do Partido Social Cristão. Seu filho, Eduardo Bolsonaro, também tentou arremessar uma dose de saliva em Wyllis. Além desse episódio, também foram significativas as falas do também deputado Glauber Rocha (PSOL-RJ), que chamou o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de gângster, e da deputada Raquel Muniz (PSD-MG) que elogiou o marido, prefeito de Águas Claras, em Minas Gerais, e foi preso pela Polícia Federal no dia seguinte à votação. Foi igualmente impressionante a quantidade de vezes que deputados citaram nomes de parentes.
Infográfico: Breno Leoni Ebeling
Infográfico: Breno Leoni Ebeling
Na semana seguinte à votação do impeachment no plenário da Câmara, a imprensa, inclusive a internacional, repercutiu o papel desses representantes da população. Como integrantes de um Estado que se diz laico, foi curioso ver tantos deputados falando em nome de Deus e da família. O público, via redes sociais, também reagiu ao mérito dos que julgaram a presidente Dilma Rousseff, já que alguns estão sendo investigados em escândalos de corrupção — inclusive o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, alvo de uma ação penal, uma denúncia e três inquéritos na Operação Lava-Jato. O deputado do PMDB-RJ é alvo de uma comissão de ética instalada na Câmara que já dura mais de 90 dias e ainda não avançou nem um milímetro no julgamento.
Até agora, 21 deputados estão sendo investigados na Lava-Jato, incluindo Cunha. 15 votaram a favor do impeachment de Dilma Rousseff, sendo que 14 deles são do Partido Progressista (o mesmo do deputado Paulo Maluf). A palavra “Deus” foi pronunciada 59 vezes — quase o mesmo que “corrupção”, que foi proferida em 65 ocasiões. Já o termo “família” surgiu 136 vezes durante a votação no plenário da Câmara. A contagem das palavras foi feita pela Agência Brasil com base em transcrição da votação no site da Câmara dos Deputados.
O Congresso Nacional possui uma bancada evangélica. Uma das últimas investidas desse grupo foi o projeto de lei, de autoria de Eduardo Cunha, que visa dificultar o atendimento na rede pública a mulheres que engravidam de estupradores. No caso específico da liberação ou não do aborto, a religião está em jogo. Para católicos e evangélicos, o ser vivo é concebido no mesmo em que ocorre a fecundação; já a ciência diz que a vida só começa alguns meses depois desse acontecimento. A questão que se coloca é se, ao criar uma lei sobre aborto, o Estado supostamente laico deve considerar aspectos científicos ou religiosos. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), pastor que pertence à bancada evangélica e também votou de forma favorável ao impeachment de Dilma Rousseff, criou projeto de lei pra inserir o Criacionismo (teoria segundo a qual Deus criou tudo o que existe) na grade curricular obrigatória das escolas. Em entrevista ao portal Terra, Feliciano disse que a Teoria da Evolução não tem comprovação, e que “se a teoria de Charles Darwin, que diz que o homem veio do macaco, pode ser ensinada aos meus filhos, por que eu não posso ensinar a teoria de Moisés, a de que Deus criou o mundo em seis dias?”, argumentou.
O professor Ricardo Marino, doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da mesma instituição, diz que, historicamente, alguns segmentos evangélicos pentecostais são contrários ao Partido dos Trabalhadores e o símbolo de “comunistas” que carregava — e ainda carrega, em menor proporção — até os dias de hoje. Ele alega que o apoio desses grupos ao PT começou a ganhar força em 2002, quando Lula ganho a eleição presidencial. Deste ano em diante, o partido que hoje é o governo chegou a utilizar a massa de devotos para atingir seus objetivos. Isso começou a mudar no ano de 2010, quando foi lançado o programa dos direitos humanos.
Esse estatuto previa a criminalização da homofobia, permitia que a mulher grávida passasse a escolher se queria ou não realizar aborto, entre outras medidas que foram recebidas como afronta aos direitos e liberdades de evangélicos pentecostais. O então presidente Lula prometeu, segundo o professor Marino, que sua candidata a sucessão, Dilma Rousseff, não levaria adiante esses planos. Apesar dessas medidas do programa de direitos humanos não terem saído do papel, algumas propostas lançadas por Dilma (como o material pedagógico direcionado a alunos de escolas públicas apelidado de “kit gay” por evangélicos), acabaram sendo recebidas como provocação. A sucessão de medidas vistas com negativas pelos evangélicos pentecostas acabaram servindo para impulsionar a saída de partidos como PRB (Partido Republicano Brasileiro) e PSC (Partido Socialista Cristão) da base do governo.
As eleições presidenciais de 2014 foram fundamentais para formalizar o fim do apoio de muitos evangélicos à Dilma Rousseff com a candidatura do Pastor Everaldo pelo PSC. O fato de deputados terem votado a favor do impeachment da presidente da república é consequência de muitos episódios que remontam à época do governo Lula.
Para a cientista política da Universidade de São Paulo, Marilia Pacheco Fiorillo, pesquisadora da análise do discurso religioso, a votação do domingo na Câmara dos Deputados não foi reflexo do fundamentalismo religioso, e sim de oportunismo protagonizado por deputados que, agora, “nem se preocupam muito em velar a hipocrisia”. Para ela, não faz sentido uma presidente da República que não é investigada por nenhum crime de corrupção ser julgada por deputados que respondem a processos sobre desvio de dinheiro público. E completa: “Washington Post, BBC, El Pais, Al Jazeera, Le Monde, Le Parisien, Financial Times, Die Zeit, Wall Street Journal e até a Forbes — revista para investidores, insuspeita de simpatias distributivistas — trazem reportagens que sugerem: com Dilma ruim, sem ela, pior”, argumenta.
Já o professor Ricardo Mariano 

Já o professor Ricardo Mariano diz que alguns evangélicos pentecostais querem a deposição do PT por conta do medo de terem suas liberdades limitadas, e não se enxergam como fundamentalistas — até porque, segundo o pesquisador da FFLCH, “esse termo é sempre usado de forma pejorativa”, argumenta. Para ele, todos, políticos que representam religiões (são aproximadamente 80 em todo o Congresso Nacional), e grupos que se opõem a eles, como o das feministas, desejam ter suas liberdades preservadas, para que prevaleça aquilo que todos desejam manter e ampliar: a democracia.

Rafael Ihara

http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2016/05/religiosidade-marca-votacao-do-impeachment/
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