10 de abr de 2017

A imprensa alternativa brasileira nos anos 1970/80 - Editor - a luta continua, pois os GOLPISTAS não desistem. DEMOCRACIA JÁ COM ELEIÇÕES DIRETAS.

 agosto de 2013 - 7h50 

A imprensa alternativa brasileira nos anos 1970/80

 A imprensa alternativa brasileira nos anos 1970/80. A imprensa alternativa brasileira nos anos 1970/80.

Em 1972, um fenômeno peculiar, aparentemente novo em nossa história ganharia as bancas e as mentes do país e o marco foi o lançamento do jornal Opinião, de Fernando Gasparian, um empresário nacionalista, dono da América Fabril, uma das mais importantes empresas nacionais até 1964.

O Opinião vai se apresentar semanalmente, tipo tablóide e voltando-se essencialmente para a análise econômica e, com isso, desfraldar na consciência nacional, absolutamente vigiada, as contradições do “milagre econômico”. O comando do tablóide estava a cargo de um ícone do bom jornalismo brasileiro, Raimundo Rodrigues Pereira, ex-editor da revista Veja e reunia, ainda, sobre sua batuta, um destacado grupo de jornalistas e colaboradores como Antonio Cândido, Antonio Callado, Paul Singer, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Paulo Francis, Otto Maria Carpeaux, Bernardo Kucinski, Millôr Fernandes e Oscar Niemayer, dentre outros.

O grande desafio para o Opinião, produzido por uma empresa de médio porte, com baixos custos gráficos e que mesmo assim reproduzia artigos do francês Le Monde e do britânico The Guardian, era vencer as restrições impostas pela censura, tudo com base no artigo nove do Ato Institucional n° 5. Mesmo com toda a perseguição o Opinião resistiu por quase cinco anos e teve 221 das 231 edições realizadas sob censura prévia. Para Kucinski (1991, pag. 262), “a censura era objetivamente necessária ao regime militar, um instrumento normal de ação no conceito de guerra subversiva, que considera o campo do jornalismo como área preferencial de penetração de inimigo interno”.

A chamada grande imprensa, naqueles dias como nos de hoje, enveredava cada vez mais no rumo da monopolização, beneficiada pelo capital nacional e estrangeiro e defendia com unhas e dentes o sistema vigente, um binômio de falta de democracia e liberdades públicas com a entrega e espoliação das riquezas nacionais. Mesmo assim, com o endurecimento da repressão política até os jornalões do país eram acossados pelos censores da Polícia Federal, como fora o caso do Estadão, apoiador de primeira hora da quartelada de 31 de Março de 1964.

Entretanto a “fórmula alternativa” já havia sendo aplicada com bastante sucesso pelo O Pasquim desde 1969, o que o tornaria um dos maiores fenômenos editorias do mercado brasileiro com uma tiragem que chegou a 200 mil exemplares no começo dos anos 70.

Inspirado em A carapuça, do também jornalista Sérgio Porto, O Pasquim foi parido por gente como o cartunista Jaguar e os jornalistas Sérgio Cabral e Tarso de Castro. Como o Opinião contava com uma constelação de jornalistas e de colaboradores como Henfil, Ruy Castro, Chico Buarque, Rubem Fonseca, Fausto Wolff e Glauber Rocha, além de Paulo Francis e Antonio Callado, que colaboravam também com o tablóide comandado por Raimundo Rodrigues Pereira.

A polêmica entrevista de Leila Diniz, regada por palavrões, representou a quebra de tabus numa época em que a repressão dominava o país, revelando que a atriz era uma mulher bem à frente de seu tempo, que pregava o pleno prazer sexual para o espanto das carolas de plantão. Depois da entrevista a ditadura implantou a censura prévia da imprensa, através do Decreto Leila Diniz.

Perseguida pela polícia política teve de se esconder e não renova contrato com a TV Globo. Segundo o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, autor da biografia Leila Diniz: Uma Revolução na Praia, da Companhia das Letras, a argumentação dos Marinho foi, através da autora Janete Clair, que não haveria papel de prostituta nas próximas telenovelas da emissora.Desempregada, aceitou convite para participar de um festival de cinema na Austrália e na volta morreu num acidente de avião deixando uma filha de sete meses, o Brasil de luto e os moralistas aliviados.

Acontece que na mesma época apareceria o semanário Politika de Sebastião Nery e Oliveira Bastos, Jornal de Debates, de caráter nacionalista e Versus, o mais cultural e vocacionado para temas artísticos da cultura latino-americana.

O fato é que no rastro de Opinião e Pasquim surgiram diversas publicações por todo o país que expressavam a repulsa das amplas camadas médias e populares contra os generais encastelados no poder. O formato careta dos jornais, tipo standard, seis ou oito colunas, quase sem fotos e raras ilustrações já não atraía, principalmente pela linha editorial de apoio ao regime militar, parcelas cada vez espaçadas da sociedade brasileira.

Segundo o jornalista Antonio de Pádua Gurgel, autor de Jornal da Década de 70 (2012, pag.219), “Os jornais alternativos surgiram num momento em que as gráficas estavam se modernizando. Aproveitaram os recursos do off-set e abusaram da criatividade, enchendo de curvas as publicações. Também era necessário muita criatividade para transmitir mensagens de protesto contra a situação política, pois um vacilo poderia render no mínimo uma sanção contra o jornal. A cadeia era também um destino possível e a história de Vladimir Herzog mostra que a raiva dos militares podia chegar a situações extremas”.

Na verdade, a proliferação de pequenos jornais, caracterizados por exíguos recursos e baixa tiragem, já era conhecida desde o inicio do século passado e estavam associados à ousadia de alguns jornalistas ou grupos de intelectuais ou políticos que não tinham eco e espaço para expor idéias e fomentar debates.

Quando a ditadura se instalou, em 1964, essa imprensa contava com um vasto número de representantes, com os jornais Novos Rumos, do Partido Comunista Brasileiro; A Classe Operária, do Partido Comunista do Brasil; O Panfleto, ligado ao PTB de Leonel Brizola; O Semanário, de setores nacionalistas cujo destaque estava na figura do historiador Nelson Werneck Sodré; Brasil Urgente, dos dominicanos de São Paulo, precursor do trabalho que ensejaria a criação das Comunidades Eclesiais de Base; e Ligas, voltado para as questões do campo e da luta pela terra, tendo à frente a figura do deputado socialista Francisco Julião.

Mesmo um grande diário como o Última Hora, existente desde o início da década de 1950 e que chegou a vender 200 mil exemplares só em São Paulo nos dias sombrios do golpe fora inviabilizado e, por fim, destruído pela sanha persecutória das botas e das fardas. Enfrentando as mais diversas proibições, as publicações populares e democráticas não se quedaram e tentaram persistir como puderam. Naqueles dias, setores nacionalistas de esquerda de São Paulo fundam o Fato Novo; e aparece também Reunião, do editor Ênio Silveira, dono da Editora Civilização Brasileira. Por seu turno, os estudantes da USP, criam o jornaleco Amanhã.

A violência estatal tornou-se particularmente aguda entre os anos de 1968 e 1973. Era um tempo em que os órgãos dos partidos de esquerda só conseguiam sair na mais profunda clandestinidade e, sobretudo, pelo heroísmo e ousadia dos responsáveis pela imprensa militante, país afora. Entre os órgãos que resistiram neste diapasão histórico e acanhadamente circularam estão A Voz Operária, do PCB; Libertação, da Ação Popular; A Classe Operária, do PCdoB e Unidade Revolucionária, do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).

O ano de 1975, com o regime ditatorial forçado ao recuo, surge o semanário Movimento que emergiu de uma dissidência do Opinião, fruto das divergências entre seu proprietário Fernando Gasparian e o editor, Raimundo Rodrigues Pereira, depois demitido.

Ocorre que aquele jornalista, um dos fundadores da Veja, arrastou consigo boa parte da redação e colaboradores como Perseu Abramo, Duarte Pereira, Fernando Henrique Cardoso, Chico Buarque de Holanda, Nelson Werneck Sodré, Chico de Oliveira, Elifas Andreato, Moniz Bandeira, Tonico Ferreira, Marcos Gomes, Sérgio Buarque de Gusmão, Bernardo Kucinski, Fernando Peixoto, Percival de Souza, Maurício Azedo, Ricardo Kotscho e Carlos Alberto Sardenberg, dentre outros.

O Movimento reuniu bem mais que uma centena de jornalistas, gente de várias tendências políticas sob a liderança do chamado grupo “autêntico” do MDB que, no fundamental, discordara da avaliação de que o general Geisel levaria o país à democracia ou mesmo faria um governo ligado aos interesses nacionais. Um programa mínimo norteara a fundação do Movimento: a oposição ao Regime Militar, destacando-se a luta pela independência econômica, liberdades civis, políticas e sindicais e pela convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte.

Para viabilizar o projeto editorial e gráfico avançado o semanário apoiou-se decididamente nos movimentos populares. Foi lançado através de uma empresa formada com modestas contribuições em dinheiro de centenas de pessoas o que viabilizou assinaturas, ampla venda nas bancas e seus números eram vendidos ousadamente em diversas cidades brasileiras, semana após semana, por centenas de militantes políticos das mais diferentes matizes.

Pode se afirmar que o Movimento surgiu no bojo de um grande movimento de massas, de caráter civilizatório porque uniu o povo brasileiro, que desaguou nas Diretas-Já. Derrotada a emenda Dante de Oliveira, o colégio eleitoral fora a bala de prata para pôr fim em mais de vinte anos de obscurantismo, censura, torturas, exílios, perseguições e desaparecimentos forçados.

Naquele contexto, o regime dos verdugos desenvolveu uma flexão tática de grande amplitude com a propalada “distensão lenta, segura e gradual” comandada pelo general-presidente Ernesto Geisel e seu principal estrategista, chefe da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva.

Tal flexão se explicava com o fato de que a ditadura militar perdia terreno na política, fora fragorosamente derrotada nas limitadas eleições de 1974, os problemas sociais e econômicos atingiam as camadas médias e, sobretudo, os trabalhadores. O Brasil sentia na carne a crise internacional do Petróleo sinalizando a falência do “milagre econômico”, baseado, grosso modo, pela penetração estrangeira com a entrega das riquezas nacionais, no cavalar aumento da dívida externa e nas desigualdades sociais.

Um dos principais intentos da “distensão” comandada por Golbery foi à suspensão da censura prévia a O Estado de São Paulo, apoiador de primeira hora dos generais golpistas. Mesmo beneficiado pela paisagem dos “anos-de-chumbo” o Estadão não aceitava a censura prévia que se realizava através de comunicados da Polícia Federal com listas de assuntos proibidos, mas, para continuar existindo, acabou por aceitar censores federais dentro da própria redação.

No início de 1975, além de retirar os censores do Estadão, o governo suspendeu as restrições para outros grandes jornais, mas não tergiversou com a manutenção da repressão policial e a censura a periódicos que divergiam com o status quo: a ditadura recuava com o claro propósito de se fortalecer no campo conservador e isolar as forças democráticas.

A imprensa alternativa cresceu no período em que o regime deteriorava e sua forma de atuação correspondia às novas necessidades de mobilização política, fundamentalmente na esfera democrática e popular. Os partidos e organizações clandestinas, como exemplo, passaram a editar jornais legais depois de promulgada a Lei de Anistia de 1979.

De modo geral entre os anos de 1975 a 1980 houve uma proliferação de jornais alternativos de diversos tipos, revelando a miríade das forças políticas contrárias ao regime. Dentre eles destacou-se o Em Tempo e o Amanhã, fruto de uma distensão no Movimento que, por seu turno, procurava atingir o público operário através de outra publicação, o Assuntos. Somam-se a isso os periódicos de caráter feminista, como o Brasil Mulher e o Nós Mulheres, em São Paulo.

Havia aqueles marcadamente políticos como o Posição e o Informação, do Rio Grande do Sul; o Mutirão, do Ceará; e o Resistência, do Pará. Surgiram, ainda, iniciativas de cooperativas de jornalistas, a mais conhecida experiência foi o Coojornal de Porto Alegre; no movimento comunitário, o Jornal da Vila, de São Paulo; e o Lampião, que defendia abertamente os direitos dos homossexuais.

As greves operárias no ABC entre 1978/1980 vão dar impulso em toda imprensa sindical, como parte decisiva daquela mídia alternativa, que realizava uma atividade de imprensa diversificada, com mensários, semanários e boletins, como foi o caso do ABCD Jornal, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo; da Folha Bancária, fruto da greve dos bancários em São Paulo, em 1979; e do Sindluta, ligados aos químicos; do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, com poder e influência, que combatia através do Tribuna Metalúrgica, e contava com grande penetração entre a classe operária. Dezenas de iniciativas pululavam em comissões de fábrica de grandes empresas, como Volks e Ford, além da publicação diária de panfletos com notícias de greves e mobilizações.

A força central para tal densidade estava no fato de que aquele movimento operário, cuja figura central fora o metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, teve a ousadia de romper com a política salarial de arrocho do governo na medida em que o movimento paredista fez com que grandes empresas, como a Scania, que conheceu uma poderosa greve em maio de 1978, negociassem aumento salarial sem o consentimento dos generais de plantão. Uma imensa contradição vai se abrir nesse processo na medida em que, com a luta organizada, os trabalhadores vão obrigar as empresas, muitas delas multinacionais, a praticar desobediência civil quando não cumpriram a lei estabelecida pelo Palácio do Planalto.

A vitória política no sindicato presidido por Lula, que aumentou o poder aquisitivo do trabalhador, vai ser um rastilho de pólvora não apenas para certas melhorias salariais para a classe operária, mas, sobretudo, um exemplo de combate para questões mais amplas, como a democracia e as liberdades públicas. Ano seguinte, 1979, empresários e governo, desconfiados com a crescente politização do movimento, impuseram um acordo para evitar o afastamento da diretoria.

Acontece que o recuo do ano anterior vai provocar uma onda de radicalização em 1980, quando os operários paralisaram, por 41 dias, o maior centro industrial do país. A repressão não contou conversa e partiu para a violência pelas ruas de São Bernardo. Toda a diretoria do sindicato vai presa para a Dops de São Paulo, inclusive Lula.

O caldeirão político daqueles dias seria reforçado com a vitoriosa luta pela Anistia, em 1979, com as crescentes denúncias da brutalidade do regime que desnudavam a tortura, os assassinatos e desaparecimentos forçados além da Guerrilha do Araguaia, organizado na clandestinidade pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Além disso, havia greve de presos políticos, levantes camponeses, a atuação firme da Igreja Católica através de emblemáticas figuras como Dom Helder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns, o retorno dos exilados como Luiz Carlos Prestes, João Amazonas, Leonel Brizola, Miguel Arraes, dentre muitos outros. A imprensa internacional repercutia mundo afora o nível da barbárie, até o todo-poderoso The New York Times se viu instado a tratar do tema.

A tiragem dos jornais alternativos atingia em torno de 100 mil exemplares semanais em 1980 e, além de o Movimento e Pasquim, havia a crescente circulação da imprensa dos partidos e organizações clandestinas, como a Tribuna da Luta Operária, do PCdoB; o Hora do Povo, do MR-8; da Voz da Unidade, do PCB; além de O Trabalho, trotskista.

A reação de grupos de extrema direita civil e militar foi com o terror na medida em que começam a promover ameaças e atentados contra bancas de jornal, em São Paulo, Londrina, Rio de Janeiro, Goiânia e Salvador, além da carta-bomba detonada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil que vitimou a secretária Lyda Monteiro. A escalada fascista vai se desmoralizar, por completo, com os acontecimentos do atentado no Riocentro, nos preparativos do 1° de Maio de 1981 quando uma bomba vai matar o sargento, especialista em explosivos, Guilherme Pereira do Rosário. Se o intento tivesse logrado êxito uma multidão de brasileiros seria atingida, além da fina-flor da cultura nacional presente ao evento, gente da estirpe de Chico Buarque de Holanda, Beth Carvalho, Clara Nunes, dentre outros.

Aqueles jornais alternativos e populares influenciaram não apenas a retomada da democracia, muito cara ao povo brasileiro, mas, também, o fazer jornalístico, na medida em que clamavam pelos direitos do povo, das liberdades públicas e os interesses nacionais.
Tal legado deve ser estudado e debatido na perspectiva da democratização dos meios de comunicação, aspecto fundamental para a civilizatória contenda para emancipar a consciência nacional dos brasileiros.

Referências:
Kucinski, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários: Nos tempos da Imprensa alternativa. São Paulo: Ed. Página Aberta Ltda., 1991.
Ferreira dos Santos, Joaquim. Leila Diniz: Uma Revolução na Praia. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2008.
de Pádua Gurgel, Antonio. Jornal da Década de 70. Brasília: Ed. Pro Texto, 2011.
Azevedo, Carlos. Jornal Movimento: uma reportagem/ Carlos Azevedo; com reportagens de Marina Amaral e Natalia Viana. – 1.ed.- Belo Horizonte, MG: Editora Manifesto, 2011.

*Paulo Fonteles Filho é membro da Associação dos Torturados da Guerrilha do Araguaia, representante do PCdoB no Grupo de Trabalho Araguaia (GTA) e colaborador do Vermelho.
**Título original: Abaixo a censura: a imprensa alternativa brasileira nos anos 70/80.

http://www.vermelho.org.br/noticia/222201-6
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