8 de abr de 2017

ADP -Ação Democrática Parlamentar - Dissertação de Mestrado de Thiago Nogueira de Souza UNIRIO-história PPGH 2015. -Editor - O ULTRACONSERVADORISMO QUE TRABALHOU VIOLENTAMENTE PARA A CONSOLIDAÇÃO DO GOLPE DE 1964, IPES E IBAD QUE FINANCIARAM MAIS DE CEM CANDIDATURAS A DEPUTADO FEDERAL E SENADOR NA ELEIÇÃO DE 1962, OU SEJA O INICIO DO GOLPE.

[PDF]Baixar o documento - Unirio

www.unirio.br/cch/.../pos-graduacao/.../dissertacao_thiago-nogueir...

Translate this page
Ação Democrática Parlamentar (ADP) foi uma frente interpartidária que ..... voltada primordialmente para as eleições de 1962, em que o fortalecimento da frente a nível ... em 1945, ele se elegeu deputado federal constituinte pela UDN. ... A posição de Mangabeira era compartilhada por outros udenistas, como o senador.
O presente trabalho é de autoria de Thiago Nogueira de Souza, com 126 páginas pela UNIRIO-história PPGH. de 2015.

O tópico abaixo é uma parte do trabalho de 126 páginas
Destaque escolhido pelo Editor
1.5 A instalação da ADP no Congresso: mobilização conservadora contra a atuação das esquerdas Em reunião presidida por João Mendes na sala da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, no início de junho, foram constituídos os órgãos diretivos da ADP com a escolha de um Conselho Consultivo e de uma Comissão Executiva. O Conselho Consultivo foi composto pelos deputados Raul Pilla (PL-RS), Arruda Câmara (PDC-PE), Hamilton Prado (PTN-SP), João Veiga (PTB-AM), Carvalho Sobrinho (PSP-SP), Munhoz da Rocha (PR-PR), Herbert Levi (UDN-SP) e Horácio Lafer (PSD-SP). 94 Ibidem 95 Ibidem 96 Ibidem 39 Da Comissão Executiva participaram, inicialmente, os deputados João Mendes (UDNBA), Mendes Gonçalves (PSD-MT), Raimundo Padilha (UDN-RJ), Manuel Novais (PR-BA), Othon Mader (UDN-PR), Hélio Machado (PDC-BA), Ari Pitombo (PTB-AL), Rubem Nogueira (PRP-BA), Mendes de Moraes (PSD-GB) e Dirceu Cardoso (PSD-ES). Depois da reunião, a ADP distribuiu uma nota à imprensa anunciando para dentro de poucos dias a votação de seus estatutos, apresentando-se como “um novo e vigoroso grupamento político”97 . Nos meses seguintes, a ADP continuou recebendo a adesão de dezenas de parlamentares e, até outubro de 1961, já contava com mais de 150 deputados98. Segundo João Mendes, os deputados que assinaram o manifesto não o fizeram “para dar simples apoiamento, mas para participar das atividades da instituição na defesa do regime democrático”. A ideia era promover a disseminação do movimento, tão logo fosse possível, por todas as Assembleias Legislativas estaduais e Câmaras de Vereadores do país99 . Em seus estatutos, aprovados no final de setembro, a ADP dizia defender “as condições essenciais à sobrevivência de uma república democrática”, tais como: governo representativo, de renovação periódica; garantias, “as mais perfeitas possíveis”, ao livre exercício dos direitos políticos; e a condenação formal e o combate incessante “a toda e qualquer espécie de ditadura, tanto da esquerda como da direita”100 . Os estatutos deixavam claro que a intenção da ADP era se estruturar nacionalmente, nos moldes de um partido político, “podendo ter associações filadas nas capitais dos Estados ou em qualquer outro município brasileiro”. Também estabeleciam que a Comissão Executiva e o Conselho Orientador seriam compostos por um total de 50 deputados, devendo “conter representantes de todos os partidos” que integravam o movimento e, na medida do possível, contar com a participação de “congressistas de diferentes unidades da Federação”101 . Quadro 2 – Relação dos deputados que integraram a ADP entre 1961 e 1962 Nome Partido Carlos Gomes UDN Jayme Araújo UDN Hanequim Dantas UDN 97 Jornal do Brasil, 09.06.1961. p. 4. 98 O Globo, 18.10.1961, matutina, p. 1. 99 Diário do Congresso Nacional, 14.06.1961. p. 4021. 100 Anais da Câmara dos Deputados, 09.10.1961. p. 126. 101 Ibidem. p. 127-128. 40 João Mendes UDN Vasco Filho UDN Costa Lima UDN Furtado Leite UDN Leão Sampaio UDN Adauto Cardoso UDN Aguinaldo Costa UDN Cardoso de Menezes UDN Hamilton Nogueira UDN Maurício Joppert UDN Correa da Costa UDN Fernando Ribeiro UDN Elias Souza Carmo UDN Geraldo Freire UDN José Bonifácio UDN José Humberto UDN Epílogo de Campos UDN Luiz Bronzeado UDN Raul de Góes UDN Othon Mader UDN Alde Sampaio UDN Dias Lins UDN Lustosa Sobrinho UDN Edilberto de Castro UDN Pereira Pinto UDN Raimundo Padilha UDN Djalma Marinho UDN Antônio Carlos UDN Carneiro de Loyola UDN Celso Branco UDN Afrânio de Oliveira UDN Herbert Levy UDN Lauro Cruz UDN Nicolau Tuma UDN Pereira Lopes UDN Euvaldo Diniz UDN Lourival Batista UDN José Guiomard PSD Padre Medeiros Neto PSD Amílcar Pereira PSD Pereira da Silva PSD Wilson Calmon PSD Aloísio de Castro PSD Edgar Pereira PSD Nonato Marques PSD Régis Pacheco PSD Adolfo Gentil PSD Euclides Wiccar Pessoa PSD 41 Álvaro Castelo PSD Dirceu Cardoso PSD Lourival de Almeida PSD Anísio Rocha PSD Benedito Vaz PSD Castro Costa PSD Mendes de Moraes PSD Antônio Dino PSD Mendes Gonçalves PSD Rachid Mamede PSD Badaró Junior PSD Geraldo Vasconcelos PSD Guilhermino de Oliveira PSD Ozanam Coelho PSD Padre Vidigal PSD Uriel Alvim PSD Deodoro de Mendonça PSD Océlio de Medeiros PSD Drault Ernani PSD Janduí Carneiro PSD Mário Gomes PSD Gileno di Carli PSD Milverne Lima PSD Nilo Coelho PSD Moura Santos PSD Nova da Costa PSD José Pedroso PSD Mário Tamborindegue PSD Moacyr Azevedo PSD José Arnaud PSD Xavier Fernandes PSD Clóvis Pestana PSD Nestor Jost PSD Raimundo Chaves PSD Tarso Dutra PSD Willy Frohlich PSD Elias Adaime PSD Joaquim Ramos PSD Lenoir Vargas PSD Antonio Feliciano PSD Carmelo d’Agostino PSD Cunha Bueno PSD Ferreira Martins PSD Horácio Lafer PSD João Abdalla PSD Olavo Fontoura PSD Paulo Lauro PSD Yukishigue Tamura PSD 42 Arnaldo Garcez PSD Garcez Vieira PSD Leite Neto PSD Oscar Passos PTB Ary Pitombo PTB Adalberto Valle PTB João Veiga PTB Carlos Jereissati PTB Osíris Pontes PTB Rubens Rangel PTB Gabriel Gonçalves PTB Padre Nobre PTB Antonio Baby PTB José Lopes PTB Augusto de Gregório PTB Hélio Ribeiro Gomes PTB Clóvis Mota PTB Croacy de Oliveira PTB Aluísio Ferreira PTB Menotti del Picchia PTB Antônio Braga PR Manuel Novais PR Raimundo Brito PR Moreira da Rocha PR Esteves Rodrigues PR Feliciano Pena PR Nogueira de Rezende PR Souza Carmo PR Tristão da Cunha PR Munhoz da Rocha PR Derville Alegretti PR Hélio Machado PDC Estefano Mikilita PDC Arruda Câmara PDC Aniz Badra PDC Geraldo Carvalho PDC José Menck PDC Rubem Nogueira PRP Osvaldo Zanello PRP Abel Rafael PRP Alberto Hoffman PRP Benjamin Farah PSP Lister Caldas PSP Arnaldo Cerdeira PSP Carvalho Sobrinho PSP Plínio Lemos PL Geraldo Guedes PL Raul Pilla PL 43 José Maria PTN Hamilton Prado PTN Daniel Dipp MTR Fonte: Suplemento especial da revista Ação Democrática, março de 1962. Arquivo Ernani do Amaral Peixoto, CPDOC/FGV Quadro 3 – Trajetória política dos membros do diretório da ADP Estado Nome Partido Trajetória BA João Mendes da Costa Filho UDN pai (coronel; prefeito de Feira de Santana, 1928-1931) deputado estadual (1934) constituinte (1946) deputado federal (1946, 1958, 1962) GB Hamilton Nogueira UDN constituinte (1946) senador (1946) deputado federal (1958, 1962) RJ Raimundo Padilha UDN integralista (1933) suplente de deputado federal (1950) deputado federal (1954, 1958, 1962) MT Fernando Ribeiro UDN prefeito de Aquidauana (1951-1955) deputado federal (1958) PR Othon Mader UDN prefeito de Foz do Iguaçu (1931) prefeito de Ponta Grossa (1932) senador (1950) deputado federal (1958) GB Aguinaldo Costa UDN suplente de deputado federal (1954, 1958) deputado federal (1962) GB Eurípedes Cardoso de Meneses UDN integralista (1935) deputado federal (1954, 1958, 1962, 1966, 1970) GB Maurício Joppert UDN ministro de Viação e Obras Públicas (1945-1946) suplente de deputado federal (1954, 1958) MG Geraldo Freire UDN suplente de deputado federal (1954, 1958) deputado federal (1962, 1966, 1970, 1974) MG José Bonifácio UDN família tradicional de políticos constituinte (1946) deputado federal (1946, 1950, 1954, 1958, 1962, 1966, 1970, 1974) MG José Humberto UDN vereador (1951) deputado federal (1958) 44 suplente de deputado federal (1962) PE Alde Sampaio UDN constituinte (1934, 1946) deputado federal (1946, 1950, 1958, 1962) PE Luís Dias Lins UDN suplente de deputado federal (1950) deputado federal (1954, 1958, 1962, 1966) PB Plínio Lemos UDN constituinte (1946) suplente de deputado federal (1950) deputado federal (1954, 1958, 1962, 1966) PB Raul de Góes UDN deputado federal (1958, 1962) PA Epílogo de Campos UDN constituinte (1946) deputado federal (1946, 1950, 1954, 1958) MT Ítrio Correia da Costa UDN família tradicional de políticos deputado federal (1934) vereador (1947-1951) prefeito de Campo Grande (1951- 1954) deputado federal (1954, 1958, 1962) AM Jaime Araújo UDN prefeito de Manaus (1945) deputado federal (1950, 1958) SE Lourival Batista UDN deputado estadual (1947) deputado federal (1958, 1962) BA Vasco Filho UDN deputado federal (1950, 1954, 1958, 1962, 1966) MT Fernando Jorge Mendes Gonçalves PSD suplente de deputado federal (1954) deputado federal (1958) ES Dirceu Cardoso PSD prefeito de Muqui (1947-1951) deputado estadual (1950, 1954) deputado federal (1958, 1962) GB Ângelo Mendes de Morais PSD militar prefeito do Distrito Federal (1947- 1951) deputado federal (1958) BA Aluísio de Castro PSD deputado estadual (1934) constituinte (1946) deputado federal (1946, 1950, 1954, 1958, 1962) BA Miguel Calmon PSD pai (governador da Bahia, 1924-1928) deputado federal (1958) ministro da Fazenda (1962-1963) GO Anísio Rocha PSD suplente de deputado federal (1954) deputado federal (1958, 1962) 45 PR Janduí Carneiro PSD constituinte (1946) deputado federal (1946, 1950, 1954, 1958, 1962, 1966, 1970, 1974) PR Mário Gomes PSD militar interventor (1946-1947) deputado federal (1954, 1958) RS Clóvis Pestana PSD prefeito de Porto Alegre (1945-1946) ministro de Viação e Obras Públicas (1946-1950, 1961) deputado federal (1950, 1954, 1958, 1962, 1966) RS Tarso Dutra PSD deputado estadual (1947) deputado federal (1950, 1954, 1958, 1962, 1966) SP Antônio Sílvio Cunha Bueno PSD deputado estadual (1947) deputado federal (1950, 1958, 1962, 1966) SP Horácio Lafer PSD constituinte (1934, 1946) deputado federal (1946) ministro da Fazenda (1951-1953) deputado federal (1954, 1958) ministro das Relações Exteriores (1959-1961) MG Guilhermino de Oliveira PSD deputado estadual (1947) deputado federal (1950, 1954, 1958, 1962) SE Francisco Leite Neto PSD deputado estadual (1934) interventor (1945) constituinte (1946) deputado federal (1946, 1950, 1954, 1958) senador (1962) PA Océlio de Medeiros PSD deputado federal (1958) suplente de deputado federal (1962) AM João Veiga PTB deputado estadual (1947, 1951, 1955) deputado federal (1958, 1962) AL Ari Pitombo PTB deputado estadual (1947) deputado federal (1950, 1954, 1958, 1962) SP Menotti del Picchia PTB deputado federal (1950, 1954, 1958) PE Alfredo de Arruda Câmara PDC religioso constituinte (1934, 1946) deputado federal (1946, 1950, 1954, 1958, 1962) SP Aniz Badra PDC deputado federal (1934) vereador (1947) suplente de deputado federal (1958) 46 deputado federal (1962) BA Hélio Machado PDC militar prefeito de Salvador (1954) deputado federal (1958) PE Geraldo Guedes PL deputado federal (1958, 1966, 1970, 1974, 1978) suplente de deputado federal (1962) RS Raul Pilla PL constituinte (1946) deputado federal (1946, 1950, 1954, 1958, 1962) PR Bento Munhoz da Rocha PR pai (governador do Paraná, 1920- 1928) constituinte (1946) deputado federal (1946) governador (1951-1955) ministro da Agricultura (1955) deputado federal (1958) BA Manuel Novais PR constituinte (1934, 1946) deputado federal (1946, 1950, 1954, 1958, 1962, 1966, 1970, 1974, 1978, 1982) ES Osvaldo Zanello PRP integralista (1936) deputado estadual (1950, 1954) deputado federal (1958, 1962, 1966, 1970, 1974) BA Rubem Nogueira PRP deputado estadual (1947, 1954) suplente de deputado federal (1958, 1962) SP José de Carvalho Sobrinho PSP deputado federal (1950, 1954, 1958, 1962) SP Hamilton Prado PTN suplente de deputado federal (1954) deputado federal (1958, 1962) SP Afrânio de Oliveira Sem partido deputado federal (1958, 1962) Fontes: O Globo, 18.10.1961, matutina, p. 11. BELOCH, I; ABREU, A. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2001. Na comissão executiva da ADP, João Mendes (UDN-BA) foi escolhido presidente; Mendes Gonçalves (PSD-MT), 1º vice-presidente; Hamilton Nogueira (UDN-GB), 2º vicepresidente; Raimundo Padilha (UDN-RS), secretário-geral; Dirceu Cardoso (PSD-ES), 1º secretário; Fernando Ribeiro (UDN-MT), 2º secretário; e Othon Mader (UDN-PR), tesoureiro102. Pela composição dos cargos diretivos da ADP, nota-se que a frente representava uma verdadeira "união sagrada" contra o "perigo vermelho", contando com adeptos de quase 102 O Globo, 18.10.1961, matutina, p. 11. 47 todos os partidos e regiões do país. Entre suas integrantes sobressaíam deputados da UDN e do PSD, mas até mesmo o PTB encontrava-se representado. A maioria desses deputados possuía uma extensa trajetória política, muitos deles ocupando cargos eletivos desde o fim do Estado Novo. A vertente conservadora do clero católico encontrava-se representada na ADP através de deputados como Alfredo de Arruda Câmara (PDC-PE), Luiz de Menezes Medeiros Neto (PSD-AL), Pedro Vidigal (PSD-MG) e José de Souza Nobre (PTB-MG), configurando a relevância da matriz católica do anticomunismo dentro do Congresso Nacional na década de 1960103. Muitos dos membros da ADP, como Arruda Câmara e Medeiros Neto, foram constituintes em 1946. Arruda Câmara foi um dos fundadores do Partido Democrata Cristão e atuava como parlamentar desde a Assembleia Constituinte de 1934, elegendo sucessivamente como deputado federal após o Estado Novo. Conhecido pelo conservadorismo e pela longa militância anticomunista, chegou a publicar uma obra intitulada Contra o comunismo e apoiou a instalação da CPI de atividades antidemocráticas em 1947. Outros dois representantes vinculados ao catolicismo eram deputados da UDN carioca: Eurípedes Cardoso de Meneses, presidente da Confederação Católica Arquidiocesana e apresentador do programa Comentários, na Rádio Nacional, que abordava variados temas sob a ótica cristã; e Hamilton Nogueira, intelectual e militante católico desde os anos 1920, chegando a ocupar a vice-presidência do Centro Dom Vital. De perfil mais liberal, ele foi um dos defensores, dentro da UDN, da existência legal do PCB. Bento Munhoz da Rocha (PR), outro constituinte de 1946, também havia se destacado como intelectual. Foi um dos fundadores, em 1938, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Paraná, na qual foi catedrático de História da América e professor substituto da cadeira de Sociologia. Além de parlamentar, também foi governador do Estado do Paraná e ministro da Agricultura durante o governo Café Filho. Também apoiou a criação da CPI de atividades antidemocráticas em 1947. Por outro lado, figuravam entre as lideranças da ADP parlamentares vinculados às chamadas “classes produtoras”. Um exemplo notório era o deputado Horácio Lafer (PSD), que exercia uma importante liderança no meio industrial paulista desde a década de 1920, sendo um dos fundadores da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Além disso, possuía uma longa trajetória como parlamentar, ocupando cargos importantes como o 103 Sobre as matrizes do anticomunismo cf. MOTTA, op. cit. p. 15-46. 48 ministério da Fazenda, no segundo governo de Getúlio Vargas, e o ministério das Relações Exteriores, no governo JK. Outro representante da classe dos industriais de São Paulo era o deputado Hamilton Prado (PTN), diretor e vice-presidente da Companhia Antártica Paulista. Também representante da classe empresarial, o vice-presidente da ADP, Mendes Gonçalves (PSD), foi vice-presidente da Companhia Mate-Laranjeira, dirigindo suas atividades no Mato Grosso e no Paraná entre 1943 e 1950. O próprio João Mendes, presidente da ADP, era pecuarista e membro da Associação Comercial da Bahia, que foi presidida pelo banqueiro Miguel Calmon (PSD) entre 1948 e 1950. Vice-presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro entre 1955 e 1957, Raúl de Góes (UDN) foi diretor das Empresas Lundgren, proprietárias das Casas Pernambucanas, e presidente da Companhia Nacional de Seguros. Atuando no setor da indústria têxtil e também no ramo de seguros, Luís Dias Lins (UDN) foi presidente da Associação Comercial de Pernambuco, estado em que Alde Sampaio (UDN) representava a classe dos usineiros desde a década de 1930. Além desses, vale mencionar a presença de três militares: Ângelo Mendes de Moraes (PSD), ex-prefeito do Distrito Federal; Hélio Machado (PDC), ex-prefeito de Salvador; e Mário Gomes (PSD), ex-interventor do Paraná. Os demais, em sua maioria, se destacaram como profissionais liberais, frequentemente atuando no serviço público antes de iniciar a carreira política104 . Embora duramente criticado pelas esquerdas, o surgimento da ADP no Congresso Nacional foi recebido com satisfação pelos setores mais conservadores da sociedade brasileira. O economista Eugênio Gudin, defensor histórico do liberalismo e da nãointervenção do Estado na economia105, saudou o surgimento da ADP como “oportuno” e “necessário” diante da conjuntura política e econômica do país, salientando a importância de um trabalho de vigilância contra as “investidas coletivistas” do “nacional-comunismo”106 . Por sua vez, o presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro, Rui Gomes de Almeida, enviou um telegrama a João Mendes congratulando-se com o movimento liderado pelo deputado baiano: Como um imperativo da consciência democrática das classes produtoras, hoje, mais do que nunca, vigilantes e atentas para os rumos institucionais do país, tenho a satisfação de, na qualidade de presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro 104 As informações biográficas sobre os deputados podem ser consultadas em BELOCH, Israel; ABREU, Alzira Alves de (Org.). Dicionário histórico-biográfico brasileiro. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2001. 105 Ibidem 106 O Globo, 19.06.1961. p. 2. 49 e da Federação das Associações Comerciais do Brasil, congratular-me com o patriótico movimento que é a Ação Democrática Parlamentar, que Vossa Excelência preside na Câmara dos Deputados. Na grave conjuntura econômica, social e política em que se debate a Nação, oferecendo campo propício à infiltração de ideologias contrárias à formação liberal do povo brasileiro, é com alto espírito de simpatia e solidariedade que as classes produtoras veem campanhas desse porte, congregando parlamentares de todos os partidos na defesa da autêntica democracia contra os que tentam solapá-la e destruí-la em nossa Pátria107 Assumindo a presidência da ADP, na ausência de João Mendes, o deputado Mendes Gonçalves (PSD-MT) afirmava que o movimento ia “pulverizando surrados jargões comunistas e, sobretudo, destruindo o mito de que a atuação é privilégio das minorias de esquerda”108. O reconhecimento de que as esquerdas eram minoria não as tronavam menos perigosas aos olhos dos conservadores. Pelo contrário. Em discurso que estabelecia a “linha ideológica” da ADP, o deputado Munhoz da Rocha (PR-PR) exprimiu a razão pela qual a atuação das “minorias” de esquerda no parlamento deveria ser encarada com a máxima preocupação: Cumpre melhorar e aperfeiçoar o processo democrático, como também defender a democracia contra aqueles que nela não acreditam e se valem de suas franquias para a sua própria destruição. Neste passo nos defrontamos com um ponto nevrálgico [...] que reside na utilização pacífica dos direitos democráticos dentro do parlamento e fora dele pelos encarregados da aplicação concreta das categorias do materialismo dialético. Passa-se pacificamente, como o indica o exemplo de vários países da Europa Central, do funcionamento da máquina parlamentar para alguma forma de ditadura do proletariado e, portanto, para o Estado Socialista, estágio necessário mas jamais superado para alcançar a sociedade comunista109 O que Munhoz da Rocha exprime em seu discurso é o receio de uma transição pacífica e, portanto, democrática em direção ao socialismo. Nessa hipótese, o próprio parlamento (e não a ação direta) era o instrumento pelo qual as esquerdas poderiam operar essa transformação, como indicava “o exemplo de vários países da Europa Central”. Um dos países aos quais se referia o deputado era certamente a Tchecoslováquia, cujo exemplo se tornou célebre na literatura anticomunista do período com a publicação do livro O Assalto ao Parlamento, uma narrativa de como os comunistas daquele país – que eram minoria no parlamento – conseguiram colocá-lo na “órbita” de Moscou através do controle do Congresso110 . A solução proposta por Munhoz da Rocha para enfrentar o problema da atuação das “minorias” de esquerda enquadrava-se na fórmula, não muito nova, de que era preciso 107 Anais da Câmara dos Deputados, 09.10.1961. p. 120. 108 Ibidem 109 Diário do Congresso Nacional, 26.08.1961. p. 6175. 110 Esse livro foi editado pelo IBAD e publicado em fascículos no jornal O Globo no ano de 1962. 50 “defender a democracia contra aqueles que nela não acreditam e se valem de suas franquias para a sua própria destruição”. Essa era a concepção de democracia contida no manifesto da ADP, que acompanhava a direita anticomunista desde o pós-guerra. Em entrevista ao jornal O Globo, João Mendes criticava “a passividade dos democratas no Congresso Nacional ante a agressividade dos comunistas que, embora uma inexpressiva minoria [...] dominavam os debates de plenário. Urgia um movimento que sacudisse, na sua displicência, os políticos dos partidos de centro”111 . Discursando na II Reunião Plenária das Classes Produtoras, em dezembro de 1961, ele alertaria para os riscos de se subestimar a atuação das “minorias” de esquerda, dessa vez citando o exemplo da União Soviética: É questão de sobrevivência a união dos democratas, com ânimo de luta, porque os inimigos são aguerridos e ativos, compensando a diferença numérica pela energia da ação. [...] Há quem diga que exageramos o perigo comunista no Brasil. Uns, de boa fé, argumentam com o insignificante número de servos de Kruschev em nosso país. Mas seria deplorável calcular esse perigo por cifras. A segunda revolução russa foi feita por um partido que contava com um por cento da população votante. Os comunistas ostensivos no Brasil são em número insignificante; entretanto, os “companheiros de viagem”, os criptocomunistas, os úteis, lhes engrossam consideravelmente as fileiras e lhes abrem caminho para a vitória112 Não importa aqui se os comunistas possuíam ou não os meios de efetivamente conduzirem uma revolução por meios pacíficos e democráticos. O fato é que, na década de 1960, esse era um perigo real e imaginário para aqueles que se engajaram no combate ao comunismo dentro do parlamento brasileiro, lócus privilegiado da atuação das minorias “aguerridas e ativas” da esquerda. O chamado de Armando Falcão pela união das “maiorias” de direita havia se materializado com o surgimento da ADP no Congresso Nacional. 111 O Globo, 18.10.1961, matutina, p. 11. 112 Suplemento especial da revista Ação Democrática, março de 1962. Arquivo Ernani do Amaral Peixoto, CPDOC/FGV. 51 CAPÍTUd
Share:

0 comentários:

Postar um comentário