Nosso repórter esteve em Itaguaí e ouviu como a Marinha conseguiu lidar com o corte de verbas e os ataques da Lava Jato e programar o lançamento do S-BR1, o Riachuelo, primeiro dos cinco novos submersíveis, para julho de 2018
Foto: Marinha do Brasil
Foto: Marinha do Brasil
A estrutura de um submarino é fabricada com aços especiais, o que lhe permite resistir às pressões à medida que mergulha abaixo dos 300 metros, sua área ideal de operações. O Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub), projeto da Marinha do Brasil estratégico para o País, mostra ser tão resistente quanto os monstros de aço que pretende colocar em operação nos próximos anos.
São quatro submarinos convencionais, versões alongadas do francês Scorpène da DCNS, um dos maiores projetistas e construtores de navios de guerra do mundo. Depois de prontos será a vez da cereja do bolo, o enorme submarino movido a energia produzida por um reator nuclear. Ele terá 100 metros de comprimento por dez de largura enquanto o Scorpène tem pouco mais de 66 metros de comprimento por seis metros de diâmetro e os brasileiros convencionais, quando prontos, terão 75 metros.
Não foram poucos os problemas enfrentados na construção do parque industrial de alta tecnologia e do estaleiro ultramoderno à prova de tsunamis. Primeiro foram os drásticos cortes e o contingenciamento do Orçamento da União em 2015, o que reduziu a verba à metade.  Então veio a ameaça da Lava Jato. O parceiro brasileiro da estatal francesa DCNS é a Odebrecht.
Segundo o almirante de esquadra Gilberto Max Roffé Hirschfeld, responsável desde 2013 pela Coordenadoria-Geral do Programa de Desenvolvimento de Submarino com Propulsão Nuclear (COGESN), órgão da Marinha que gerencia o Prosub, a Odebrecht havia sido escolhida pela DCNS e pelo governo francês como a empresa nacional capaz de receber e absorver toda a tecnologia a ser transferida ao Brasil, dentro do acordo firmado em 2009 pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy.
O almirante Max, um baiano (apesar do que seus sobrenomes poderiam indicar) de 67 anos, conta que, desde que as obras das unidades de montagem das seções dos submarinos, do estaleiro e da base naval foram iniciadas em 2011, a Marinha decidiu que tanto o andamento das obras quanto o seu custo deveriam passar por um controle constante não apenas da Força Naval.
“Eu tenho, aqui na sede da COGESN, no Arsenal de Marinha, no Rio, e principalmente em Itaguaí, equipes de auditores do TCU (Tribunal de Contas da União) o tempo todo, com total liberdade de atuação, e de diversos outros órgãos de fiscalização e controle do governo. Chamei também para cá o Ibec (Instituto Brasileiro de Engenharia de Custos) e a FGV (Fundação Getulio Vargas). Recebo relatórios semanais e mensais que me garantem a lisura e eficiência de todas as atividades. Qualquer problema é corrigido na hora”, comenta. Essas providências, de acordo com o almirante, fizeram com que os problemas da Odebrecht com a Lava Jato não interferissem no andamento das obras.
O ship lift, elevador de navios , está pronto para receber o Riachuelo e seus 75 metros, maior que o Scorpène. Foto: Marinha do Brasil
O ship lift, elevador de navios , está pronto para receber o Riachuelo e seus 75 metros, maior que o Scorpène. Foto: Marinha do Brasil
Além disso, contribuiu, e muito, para que a Itaguaí Construções Navais (ICN) – empresa formada pela Odebrecht e pelos franceses, com a Marinha tendo a golden
share e o poder de veto – resistisse ao tsunami da Lava Jato a existência de um contrato binacional que garante a parceria tecnológica e financeira entre Brasil e França. O almirante Max explica que, apesar do corte de 2015, ocorrido paradoxalmente durante o governo de Dilma Rousseff – que, junto com o presidente Lula, é entusiasta do projeto estratégico para a defesa do Brasil – , foi possível fazer uma realocação dos recursos disponíveis no PPA (Plano Pluri-Anual), garantindo, por exemplo, perto de R$ 2 bilhões no ano passado e mais R$ 2 bilhões este ano e em 2018. “Claro que tivemos que tomar algumas decisões, como priorizar as obras do estaleiro e do cais onde foi instalado o ship lift (um elevador de navios), tudo para garantir que, em julho do próximo ano, o primeiro submarino, o S-BR 1, o Riachuelo, seja lançado ao mar”, comenta o almirante.
Na verdade, hoje, de todo o complexo implantado em Itaguaí – cidade de pouco mais de 100 mil habitantes a menos de 100 quilômetros do Rio, usada como dormitório por D.Pedro I, a caminho da proclamação da Independência –, 65% das obras totais estão concluídas. Ficam faltando ainda a construção das instalações da base naval, do estaleiro de manutenção do submarino nuclear (com todas as exigências de proteção para esse tipo de equipamento) e o dique exclusivo para ele.
No estaleiro, além do prédio principal, onde as duas seções de cada submarino (proa e popa) serão unidas, há previsão de conclusão até outubro do prédio de ativação das baterias dos submarinos convencionais e do centro de instrução e adestramento das futuras tripulações. “Sabemos que em julho de 2018 o Riachuelo será lançado ao mar para passar por dois anos de testes de porto e de mar e finalmente ser incorporado à esquadra. Claro que as tripulações terão que estar mais do que bem adestradas antes disso”, ressalta.
Pelo novo cronograma do almirante Max, agora em julho a seção da proa do Riachuelo será transportada em uma carreta com capacidade de dez toneladas por metro quadrado. Depois, será a vez da seção da popa. No prédio principal do estaleiro, que, como os da Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (Ufem), tem 110 metros de comprimento por 40 metros de altura e outro tanto de largura, até dois submarinos S-BR poderão ser concluídos paralelamente, se houver urgência.
Enquanto isso, as duas metades do Humaitá, segundo na fila, serão avançadas dentro do prédio e terminadas, abrindo espaço para o terceiro, o Tonelero, que já está com a maior parte das seções fabricadas pela Nuclebrás Equipamentos Pesados S.A. (Nuclep), chegar para o próximo estágio de construção. Deve ser lembrado que, para suportar o peso dos submarinos, o piso de todas as instalações industriais em Itaguaí, além do caminho que interliga a Ufem ao Estaleiro e Base Naval (EBN), incluindo um túnel aberto na rocha, é de concreto de alta resistência. Em suma, tem que aguentar dez toneladas por metro quadrado, sem qualquer rebaixamento ou inclinação.
Sobre o submarino nuclear, o SN-BR Almirante Álvaro Alberto (o nome homenageia o oficial ferido na Revolta da Chibata, em 1910, professor da Escola Naval e um dos maiores defensores da energia nuclear no Brasil), os engenheiros e técnicos brasileiros que foram para a França em 2012, tanto para aprender a fabricar os S-BR – tradicionais – quanto para projetar um submarino nuclear, concluíram o projeto básico em janeiro deste ano, depois de comprovada sua exequibilidade. Os próximos passos serão os detalhamentos técnicos e de construção. Ao mesmo tempo, em Aramar, em São Paulo, seguem os trabalhos de montagem e preparação para a entrada em testes do reator e de todos os sistemas de propulsão do submarino nuclear.
Instalados em três prédios, eles têm a mesma dimensão do que será colocado dentro do submarino real, com seus dez metros de diâmetro. O domínio por parte da Marinha de todo o ciclo de produção do combustível nuclear e da construção do reator foi o ponto-chave que permitiu aos franceses repassar ao Brasil a tecnologia de construção, antes privilégio de apenas seis países – Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia, China e, o mais novo do clube, a Índia. Dentro desse programa de capacitação, o grupo inicial de 32 engenheiros e técnicos da Marinha já se expandiu para mais de 300 profissionais, comprovando que a transferência não é apenas de tecnologia e técnicas de construção, mas principalmente de conhecimento.
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