19 de abr de 2017

Gilberto Gil - De Luiz Gonzaga a Barack Obama

 FOTOS DANILO RIBEIRO
FOTOS DANILO RIBEIRO
TEXTO: Redação | FOTO: Thuanne Maria | Adaptação web: David Pereira

Gilberto Gil é um herdeiro de Luiz Gonzaga?
Somos produtos desse homem mestiço brasileiro com forte presença africana, forte presença indígena, uma coisa cultural portuguesa muito forte. O Nordeste é muito assim, o Gonzaga era muito isso. Eu sou herdeiro. Não acho que é absurdo dizer isso no palco quando mexo com o meu canto, aprecio a obra dele, não é falsa semelhança entre mim e ele.
Vamos desviar o assunto sobre o novo trabalho, as canções e os ícones interioranos para confrontar o artista em suas múltiplas facetas. Ao longo da vida, você desempenhou diversas funções, desde administrador de empresa em São Paulo (pouco antes do início da carreira artística), até ministro da Cultura do Brasil. Qual dessas funções, somadas à de poeta, escritor e músico, exigiu mais do ser humano Gilberto Gil?
Eu acho que todas exigem, porque todas são reflexos da dimensão humana que nos caracteriza. Nós somos homens, somos seres humanos e tudo advém daí. Toda atividade humana, tudo o que o homem faz, fala, sonha e quer é humano, porque ele, embora seja parte da natureza e esteja inserido no todo, é um animal nesse sentido, como todos os outro seres, mas ele é um “hominal”, um animal humano com essa diferença, detentor de uma consciência que não se sabe se, nessa mesma dimensão, haja indícios que existam outros animais e seres. E o ser humano é tudo o que ele faz, é consequência dessa dimensão humana geral. Então tudo o que eu faço, como tenho feito na minha vida, exige minha humanidade inteira, tudo o que é humano em mim, minhas preocupações, meu cuidado em atender minha própria dimensão individual, os meus desejos, os meus anseios pessoais, ao mesmo tempo buscando atender a dimensão social, que é o fato de eu estar inserido numa comunidade, numa sociedade, num conjunto de seres humanos que compartilham o mundo comigo. Sempre fui assim em qualquer coisa. Como ministro, eu era igual, a mesma coisa, preocupado comigo e com os outros e na construção dessa ponte com o eu e o “eu” geral, social.
Mas, especificamente, o que é foi mais prazeroso fazer, olhando para trás nessa contribuição à cultura brasileira?
Do ponto de vista do específico, pessoal, claro que há coisas que são mais satisfatórias do que outras, correspondem mais ao seu anseio particular, enfim, estão mais de acordo com a sua personalidade e tal. E, dessas coisas todas, a que mais preenche, tudo no meu mundo, é a música. A música é dona de mim! As outras coisas eu dialogo com outras faixas de atendimento da minha dimensão humana, mas são coisas que não provocam o mesmo exultante, o
júbilo maior. Meu júbilo maior é com a música. Agora, há vários momentos de serviços prestados à causa da sociedade que me deram prazer e nesse sentido, é outra distinção. Essa área exige mais empenho, mais senso de responsabilidade, exige mais cuidado. O serviço público é muito demandante e eu dediquei toda a minha dimensão humana para isso, como na música, como nas outras coisas, como na família enfim, em tudo que eu faço. Mas a vida pública deu mais trabalho.
Sobre política e o governo Lula, do qual foi ministro da Cultura de janeiro de 2003 a julho de 2008. O que foi pra você ser ministro da Cultura em um governo como o de Lula?O presidente Lula avançou numa série de coisas no sentido do conceito de nacionalidade, de cidadania, de responsabilidade pública, porque ele é egresso de um setor social historicamente reprimido, relegado ao segundo plano, não admitido nas instâncias decisórias do país, nas instâncias da função, da riqueza, etc. Homem pobre, homem nordestino, homem simples, homem operário, que chegou à presidência da República contrariando uma lógica histórica de que sempre apenas as elites atingiam o poder. Depois, contrariava também a situação clássica de desatenção ao homem simples, pobre, com algumas exceções com Getúlio Vargas e talvez, com alguns outros presidentes que tiveram a ousadia de pensar no chamado povo, no homem simples brasileiro, mas enfim, não foram muitos e Lula era isso, significava isso, trazia isso. Ele contrariava a hegemonia das elites, do poder, trazia o protagonismo do homem simples, do homem popular, também contrariando uma lógica histórica.
Algumas críticas quanto a sua atuação no ministério se deram por essa ruptura, por esse estilo e tipo de governo?O fato de Lula ter me indicado para o Ministério da Cultura e eu ter aceito com essa perspectiva que acabo de descrever, deram àquele órgão essa capacidade de protagonizar esse nosso momento na história, contrariando também expectativas conservadoras, clássicas e trazendo ao mesmo tempo, estímulo à atuação do governo numa faixa nova da população brasileira, uma faixa que começava a ser atendida. Acho que o Ministério da Cultura no meu tempo e no tempo do Juca, teve essa característica de trazer novos protagonistas vindos de setores até então menosprezados.
Ainda sobre o governo Lula: Gilberto Gil na Cultura; Orlando Silva nos Esportes; Marina Silva no Meio Ambiente; Benedita Silva na Ação Social; Matilde Ribeiro na Igualdade Racial... Era um time de ministros negros nunca visto antes na história deste país, como diria o ex-presidente. Agora, só Orlando Silva e Luiza Bairros estão lá. E aí?
Talvez por uma questão também bem natural, com a eleição de uma mulher, tenha substituído o caráter de raça por gênero. Não temos elementos para dizer que a não presença tão grande de negros ou negros mestiços nesse governo em comparação ao outro possa significar uma regressão intencional ou recuo no meu entendimento a essa questão por parte do governo. Eu acho que são ênfases e nuances, acho que aquilo que se avançou com a presença mais significativa de negros e negras, não necessariamente se perde nesse governo de agora. Ao mesmo tempo, são urgências e emergências novas que vão surgir sempre. É preciso talvez, dar ênfase, aí até como eu disse antes – por causa da eleição da primeira mulher presidente – foi preciso dar ênfase a aspectos de igualdade racial para igualdade de gênero.
Então, cadê as mulheres negras, mesmo em outros escalões?
Sinceramente, não tenho elementos para dizer que existe um retrocesso! Não tenho elementos. Acho que todos os avanços obtidos pelos movimentos sociais no governo anterior deverão prosseguir, uma vez que esse é um governo de continuidade.
Recentemente estive na África e resumiria a experiência na frase de sua música Se eu quiser falar com Deus: “Nada do que eu pensava encontrar”. Como você analisa o ‘Continente Negro’ e o renascimento africano atualmente?
A África ainda precisa se libertar dos resquícios do colonialismo, dos resíduos ainda muito fortes da colonização por parte da Europa – França, Portugal, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Espanha – e todo esse rescaldo da colonização que trouxe algum benefício à África, mas trouxe também prejuízos inestimáveis à própria dimensão africana em si, com desrespeito muito grande ao caráter africano, do africano no seu território com a sua cultura, com seu modo de vida. A colonização foi arrasadora em relação a uma série dessas coisas.
E o renascimento africano?
A primeira questão do renascimento africano é livrar a África desses últimos resquícios de uma colonização que em muitos aspectos, foi mais prejudicial do que benéfica para o surgimento de uma África nova, de um continente unido enfim, dizendo ao mundo da sua própria dimensão, da sua própria condição. Segundo, acho que a África precisa se livrar do colonizador, precisa se livrar também dos males históricos, das suas dificuldades históricas, o tribalismo, a separação muito acentuada entre os países, as diferenças econômicas, a própria escravidão que foi uma parceria entre a África e os colonizadores. É uma dívida que a própria África tem com seus homens nos seus territórios e com seus descendentes que se espalharam pela diáspora.
A escravidão e a colonização são ainda os pilares de parte desse desarranjo africano?
Sim! Muito da forma institucional que a pretensa dimensão democrática chegou à África tem ainda resíduos muito fortes do sistema tribal e do sistema de parcerias entre africanos e colonizadores, no sentido prejudicial ao povo africano. A renascença africana tem essas duas coisas. A África se livrando do resto do mundo, naquilo que o resto do mundo não corresponde ao seu desejo e se livrando de si mesma, de sua herança difícil, de um passado que a África
tem. É uma tarefa enorme e ao mesmo tempo, como é que essa África chega apta, capacitada a compartilhar de um mundo atual que já é tão complicado de ser esboçado como novidade das suas outras dimensões? A Europa decadente em muitos aspectos e já não dando conta do seu papel na humanidade. Os Estados Unidos são o novo império que substituiu a Europa. A emergência de uma Ásia também com muitas dificuldades de relação com o passado, o problema das castas na Índia, o problema dos mandarins na China, tudo isso são heranças que eles precisam trabalhar, digerir. Na América Latina também, com a questão indígena que não foi resolvida até hoje. Então, como a África vai se inserir nesse mundo todo, que ainda está tratando suas feridas, não constitui organismo saudável para o desenvolvimento de um novo corpo civilizacional geral, quer dizer, essas três questões. A África, com relação ao colonialismo antigo, com relação a seus problemas de civilização própria em si e a África com os problemas da pós-modernidade, da contemporaneidade do mundo de hoje. Acho que as relações africanas só podem ser encaradas, no mínimo, com essas três grandes preocupações.
O que pesou mais na dificuldade de aceleração do desenvolvimento africano diante do mundo?
A reprodução de uma estrutura tribal era pertinente quando o mundo era pequeno, quando as relações não transbordavam seus próprios territórios. Quando começou essa coisa de a África chegar ao mundo, o invasor, lidar com essa presença do homem branco, o europeu, ela acabou tendo que engolir muito sapo, teve que se tornar uma coisa que não estava preparada para ser, não estava à altura daquilo que é a beleza, da dimensão cultural, da criatividade daquele povo, da natureza, da alma, das configurações de alma daquele povo. E, nesse aspecto, acabou ficando para trás.
Existem muitas ditaduras e democracias ainda frágeis!
Reflexo disso que estou dizendo, pois não foram encontradas formulação política e institucionalização adequadas a tudo isso, reproduziram o pior. Enfim, é aquilo que eu falei, a democracia, mesmo no berço da democracia na Europa, as coisas não caminharam bem. Imagina na África, onde as coisas foram impostas e levadas pela colonização, por aquele estatuto perverso. A África é muito isso ainda hoje. É uma dificuldade e acho que essa percepção que você teve lá, que é decepcionante em algum sentido, mas é verdadeira, corresponde. Não foi possível encontrar o melhor da África porque este melhor está soterrado sob os escombros de um debate imenso de uma decaída profunda, que foi provocada por colonização, escravidão e todas essas coisas levadas pelo homem branco.
Barack Obama, o poder negro e suas nuances O Brasil – maior país negro fora da África –, recentemente recebeu Barack Obama – o primeiro presidente negro dos Estados
Unidos da América. Qual é a sua impressão sobre Obama? O que eu apreendo da dimensão pessoal dele é de um homem bom, muito bemintencionado, muito imbuído da força de toda essa dimensão trágica da presença do negro no mundo, convencido desse conhecimento da força da ancestralidade, dessa idealização sobre uma África profunda e profundamente dedicado ao mundo e tal como muitos de nós no Brasil, muitos africanos. Ele é um homem que participa de tudo isso, talhado para a coisa política e ao mesmo tempo, é um homem que teve que escolher entre ser um guerreiro ou um magistrado, ou um chefe de estado. Ele teve que escolher. Acho que escolheu isso quando, na verdade, muito da expectativa em relação a ele fosse revelar uma dimensão guerreira pura e simples. Obama teve que disfarçar essa dimensão guerreira, ornamentar essa dimensão guerreira com a dimensão de estadista clássico, ocidental, que tem que ter muitas características de diplomata, de negociador, de conciliador, especialmente por causa da situação dos Estados Unidos hoje no mundo. Toda a potência encarnada no Obama teve que ser relativizada.
Você diria então, que ele é o homem certo na hora errada?
Aquilo que falei em relação à África – como ela vai entrar nesse mundo multipolar de poderes compartilhados, de processos civilizacionais confusos e contraditórios? Como é trabalhar pela redenção do homem negro, quando você tem ainda o peso profundo do trabalho da redenção do homem todo, seja lá que cor for?
Obama tem esse problema, na verdade é trágico, é como, de certa maneira, reproduzir a dimensão trágica de alguém como Martin Luther King que naquela situação, de ter que buscar respostas ao homem negro a toda a opressão, todo histórico que o homem americano tinha imposto, que o branco tinha imposto, teve que pregar a paz, a conciliação. A atuação do Obama reproduz o discurso de Martin Luther King, ou seja, não dá para cometer suicídio, não dá para fazer brotar a dimensão pura do guerreiro e se submeter a uma autoimolação. Esse não é o conflito de todo homem negro quando chega no espaço de poder criado e codificado pelo homem branco? Sim, mas só é possível um apoderamento desse espaço fazendo parte disso. Uma perspectiva de ser parte desse esquema todo e não para vir colocar uma bomba e trabalhar pela destruição desse sistema, mas pelo aperfeiçoamento dele. Essa questão da escolha entre destruir alguma coisa ou continuar aperfeiçoando, é uma das questões do Obama, porque o sistema todo está difícil. O capitalismo com vícios absurdos, com a coisa do privilegiamento da dimensão financeira, do dinheiro, do capital, tudo isso no mundo inteiro e a divisão do poder e a permanência do poder nas mãos daqueles poucos que, historicamente, manipularam este poder que veio da Europa e depois se estabeleceu no Estado Americano, na Independência. Obama é um pouco refém desta história.
E como se livrar e superar tudo isso?
Ele não tem muitas saídas, teve e terá muitas dificuldades políticas, chegou no governo norte-americano num ciclo particularmente difícil da vida americana então, todo reformismo, mesmo que seja legítimo que ele advogue, fica dificultado por uma paralisia do sistema internacional e do sistema americano, por conta dessas últimas grandes crises do capitalismo mundial. Ele não tem como dar vazão aos ideais dele, à grande generosidade de alma que ele tem. Obama tem que ser menor do que ele é, sendo muito maior do que a realidade permite que ele seja. Essa é a verdade! Ele é intelectualmente muito mais bem-dotado, preparado, culto e politicamente generoso. Já mostrava traço diplomático, conciliatório, quer dizer, um homem de reunião, de concórdia, isso tudo num mundo que fica parecendo que os de índole guerreira podem ser mais bem avaliados e mais bem-aceitos e recebidos. É como se o mundo ficasse pedindo grandes guerreiros e ao mesmo tempo, não pudesse tê-los entre nós.
Então, não há mais espaço para guerreiros?
Estão limitados por uma necessidade mesmo de conciliação de muitas coisas nesse mundo de hoje. É um pouco isso que ocorre com o Obama, ocorre com todo o ímpeto revolucionário. Esse ímpeto de mudar completamente as coisas, transformar o mundo, instalar uma nova realidade completamente diferente. Obama é muito realista, ele percebe que não pode tudo o que ele quer nesse mundo que aí está
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