27 de abr de 2017

Maiakóvski, o Poeta da Revolução, no meio da crise política brasileira. -Editor- Dilma Rousseff, Presidenta da República Federativa do Brasil, no Senado, na votação da cassação do mandato do POVO BRASILEIRO, em seu discurso citou Maiakóvski. DEMOCRACIA JÁ. GREVE GERAL É O INICIO FULMINANTE E O FIM DO GOLPE, VISANDO DERRUBAR OS GOLPISTAS E CORRUPTOS QUE SE APOSSARAM DAS ESPERANÇAS DO POVO.

Maiakóvski, o Poeta da Revolução, no meio da crise política brasileira

    Maiakóvski, o Poeta da Revolução, no meio da crise política brasileira
    O POETA RUSSO VLADIMIR MAIAKÓVSKI
    No pronunciamento de 31 de agosto, feito momentos depois da decisão do Senado de cassar o seu mandato de presidente da República, Dilma Rousseff citou versos de Vladimir Maiakóvski (1893-1930).
    A ex-presidente encerrou sua fala com as palavras do poeta russo, chamando-as de alento. Elas foram escritas na Rússia da década de 1920, alguns anos após a revolução que instauraria o regime comunista no país. Maiakóvski, a princípio um entusiasta do movimento, acabou tornando-se um crítico de seus desdobramentos.
    Ao longo dos anos, seus versos de esperança foram sendo substituídos por frustrações. “E então, que quereis?...”, o poema citado por Dilma, foi escrito em meio a esta transição de sentimentos.

    “Não estamos alegres,
    é certo,
    mas também por que razão
    haveríamos de ficar tristes?
    O mar da história
    é agitado.
    As ameaças
    e as guerras
    havemos de atravessá-las,
    rompê-las ao meio,
    cortando-as
    como uma quilha corta
    as ondas.”

    Trecho do poema “E então, que quereis?...” citado por Dilma Rousseff

    Para Sonia Branco, professora de literatura russa na UFRJ e tradutora, a referência a Maiakóvski não remete apenas às convulsões dos tempos soviéticos, cuja revolução bolchevique ocorreu em 1917, mas à década de 1960 na América Latina, quando o poeta russo chegou à região em traduções como a antologia feita por Boris Schnaiderman.

    “Eram anos de muitas mudanças, quando começam as ditaduras. Maiakóvski entra não só no Brasil, como na Argentina, no Chile, influenciando poetas como Neruda. Aqui, ele teve a mesma importância que Che Guevara na representação da libertação, das amarras da ditadura, da liberdade da palavra. E Dilma é dessa geração.”
    Sonia Branco
    Professora de literatura russa da UFRJ e tradutora

    A revolução de Maiakóvski
    Maiakóvski se envolveu com a política antes da poesia. Aos 15, ingressou na facção bolchevique do Partido Social-Democrata Russo. Foi mais tarde que começou a escrever, incentivado pelo amigo David Burliuk. Símbolo da resistência bolchevique, gastou boa parte de suas palavras em legendas para cartazes de propaganda política.

    “Ele sempre foi muito associado ao partido comunista, foi apropriado por Stálin como baluarte do partido”, explica Letícia Mei, especialista em literatura russa pela USP.  “Ele encarna muito no discurso, na retórica, na pessoa, a ideia do homem novo”, diz Sonia Branco.

    No entanto, com a consolidação do Estado socialista, o Poeta da Revolução tornou-se também crítico ferrenho do sistema. “E então, que quereis?...” expressava essa insatisfação.

    Escrito em 1927, ele não foi motivado por nenhum fato político particular, diz Mei. O ano marcava, no entanto, os 20 anos da revolução de 1905, considerada o ensaio geral para a Revolução de Outubro de 1917, que desembocou no poder aos bolcheviques. Possivelmente, era a essa data que Maiakóvski se referia ao escrever “Nestes últimos vinte anos / nada de novo há / no rugir das tempestades.”

    Foi 1927 também o ano em que Stálin subiu ao poder e o regime endureceu, em particular em relação à classe artística. Maiakóvski fazia parte de uma escola conhecida como cubo-futurismo, dedicada a experiências com a linguagem. "Sem forma revolucionária não há arte revolucionária", era seu lema.

    Para os artistas, a revolução ia muito além das questões políticas e econômicas. “Era uma revolução do pensamento, da cultura, da palavra, dos grilhões que a aprisionam. E isso é bastante importante no caso dos escritores”, diz Branco. “Fiz ranger as folhas de jornal / abrindo-lhes as pálpebras piscantes” não era apenas uma metáfora, mas uma recriação do mundo, diz ela.

    A forma, porém, não era bem vista. “O partido queria uma arte panfletária, utilitária. Então ao mesmo tempo que Maiakóvski era muito bem recebido quando exaltava os líderes do regime, era mal visto ao escrever poemas mais líricos”, explica Mei.

    Os últimos anos
    “E então, que quereis?...” marcou os últimos anos da vida do poeta, permeado pelo tom de amargura, mas ainda aponta para alguma esperança  (“As ameaças e as guerras / havemos de atravessá-las”). Esperança, porém, que vai se perdendo nos anos seguintes. A obra “O Percevejo”, uma comédia fantástica, foi sua última crítica mordaz motivada pela frustração em relação a um projeto utópico. Em 1930, deu um tiro no peito.

    “Ele fica muito frustrado com esse retrocesso [político]. Ele esperava uma coisa e na prática foi outra em relação a economia e sociedade. E ele foi acusado de ser incompreensível para as massas. Ele não queria ser poeta distante do povo, mas era acusado de ter uma poética mais elaborada, complexa. Nunca foi plenamente aceito e foi transformado em instrumento de propaganda. ”
    Letícia Moi
    Doutora em literatura russa pela USP

    O empréstimo das palavras feito por Dilma tornou-se manchete do outro lado do mundo. “Presidente do Brasil é apaixonada por poesia russa”, disse um jornal. “A saga brasileira do impeachment termina em Maiakóvski”, escreveu outro. “Russos vão se lembrar da primeira presidente mulher do Brasil por seu gosto pela poesia, e não pelas acusações de corrupção”.

    Leia a íntegra do poema, traduzido por E. Carrera Guerra em 1987 e que foi também musicado por João Bosco:

    E então, que quereis?...
    “Fiz ranger as folhas de jornal
    abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
    E logo
    de cada fronteira distante
    subiu um cheiro de pólvora
    perseguindo-me até em casa.
    Nestes últimos vinte anos
    nada de novo há
    no rugir das tempestades.

    Não estamos alegres,
    é certo,
    mas também por que razão
    haveríamos de ficar tristes?
    O mar da história
    é agitado.

    As ameaças
    e as guerras
    havemos de atravessá-las,
    rompê-las ao meio,
    cortando-as
    como uma quilha corta
    as ondas.”

     Fonte nexojornal.
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