24 de abr de 2017

Mídia e democracia: nada a ver? Cobertura política coloca em xeque objetividade e imparcialidade da grande imprensa brasileira. -Editor- a falta do Marco Regulatório das Comunicações, definida pelo PIG como CENSURA, trouxe mais um golpe, que o povo vai rechaçar. DEMOCRACIA JÁ.


Mídia e democracia: nada a ver? Cobertura política coloca em xeque objetividade e imparcialidade da grande imprensa brasileira





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Este texto foi produzido originalmente para publicação na edição de junho da Revista Continente, da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). Faria parte de um bloco maior de matérias abordando a cobertura realizada pela grande grande mídia sobre os recentes acontecimentos políticos que culminaram com o afastamento da presidenta Dilma, entre outros aspectos, como a oligopolização da mídia no Brasil e reflexões sobre a internet. Fui procurado pela Revista para colaborar com três textos, enviados para a redação na semana passada. Nesta semana, recebi a informação de que eles não sairiam mais na Revista, não havia condições políticas de serem publicados neste momento. 
Em respeito aos cinco estudiosos da mídia entrevistados por mim, decidi publicar o material no site da Marco Zero Conteúdo, com a anuência dos demais integrantes do coletivo. O texto é longo e tem uma abordagem mais fria, de revista, mas creio que pode ajudar na reflexão sobre o comportamento enviesado da mídia neste momento tão grave da vida nacional.
Hoje publicamos os três textos enviados à revista: o texto principal que seria o de abertura da reportagem com a análise da cobertura do impreachment; uma entrevista ping-pong com o professor de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, Rogério Christofoletti; e os principais pontos do manual de manipulação da grande imprensa produzido nos anos 1990 pelo professor e jornalista Perseu Abramo. 
A partir da segunda-feira serão postadas no site da Marco Zero as entrevistas completas concedidas pelos especialistas de mídia.
 A noite do dia 26 de outubro de 2014 começava com um país dividido e em transe, aguardando a primeira parcial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as eleições presidenciais. A quatro dias da eleição, a Revista Veja tinha estampado na capa as fotos de Lula e Dilma com a manchete: “Eles sabiam de tudo”, uma referência ao desvio de verbas da Petrobrás. O Jornal Nacional e a grande mídia repercutiram intensamente a matéria nas horas que antecederam a abertura das urnas. Na madrugada do domingo de votação, um boato se espalhara como rastilho de pólvora pelas redes sociais: o doleiro Alberto Youssef havia sido envenenado. Era mentira, mas a vitória certa de Dilma estava agora em xeque.
Quando a primeira parcial foi divulgada, com mais de 50% das urnas apuradas, Dilma apareceu à frente com 51,09% e em pouco tempo consolidou a dianteira totalizando 51,64%: 54.501.118 votos contra pouco mais de 51 milhões do tucano Aécio Neves. Terminava naquele momento uma eleição presidencial – o grande momento de qualquer democracia liberal – e começava uma guerra. Seriam muitas as capas da Veja, os noticiários do Jornal Nacional e os boatos sem comprovação circulando nas redes sociais até que a presidenta eleita Dilma Rousseff fosse afastada de suas funções pelo Senado Federal em 12 de maio de 2016. Exatos 565 dias depois daquele domingo triunfante de 2014.
Um processo de impeachment é sempre um trauma para o sistema político de qualquer país porque coloca no centro do debate a legitimidade e eficácia da política. Mas no Brasil de 2016 o impeachment também expôs a grande mídia corporativa, acusada por grupos à esquerda no espectro político – movimentos sociais, artistas, estudantes e acadêmicos – de promover o golpe parlamentar e midiático de um governo legitimamente eleito. As comparações com as pressões que levaram ao suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, e a destituição de João Goulart, em 1964, se tornaram inevitáveis.
Jornais receberam efusivamente o Golpe Militar de 1964, exaltando mobilização de rua e legalidade do processo. O mesmo caminho trilhado em 2016
Jornais receberam efusivamente o Golpe Militar de 1964, exaltando mobilização de rua e legalidade do processo. As semelhanças com 2016 não são mera coincidência.
DE VOLTA AO PASSADO
Em editorial de 13 de março deste ano, o Estado de S. Paulo bradava que Chegou a Hora de Dizer Basta! E de acabar com a “boquinha” do PT no governo federal. Essa “tigrada”. O tom duro e grosseiro lembrava o editorial do Correio da Manhã em 1964 contra Goulart, intitulado Basta!: “Não é possível continuar neste caos em todos os sentidos e em todos os setores. Tanto no lado administrativo como no lado econômico e financeiro. Basta de farsa”. No dia 2 de abril, é a vez da Folha de S.Paulo pregar também em editorial a mudança do comando do país, defendendo a renúncia da presidenta eleita: “Enquanto Dilma Rousseff permanecer no cargo a nação seguirá crispada e paralisada. É forçoso reconhecer que a presidente constitui hoje o obstáculo à recuperação do país”.
O professor Luís Felipe Miguel, titular do Instituto de Ciência Política da UnB e estudioso da relação mídia-política e da teoria da democracia, vê semelhanças entre a postura da grande imprensa nos anos de 1954, 1964 e, agora, em 2016. Para ele, os principais veículos são aliados históricos do grande capital corporativo e dos interesses norte-americanos conservadores. “Os meios de comunicação agem como porta-vozes de uma posição política reacionária. Algo sempre presente na história do Brasil e que se torna mais evidente nos momentos de crise, quando os anteparos para ganhar credibilidade são deixados de lado”.
Luís Felipe Miguel, autor do livro Mídia e Política no Brasil (Plano, 2002), chama a atenção para a criação de novos grupos políticos que surgiram nos últimos anos no Brasil para dar voz ao discurso conservador, a exemplo do Movimento Brasil Livre (MBL) e do instituto Millenium, e diz que o mesmo aconteceu em 1964 com o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), organização anticomunista criada em 1959. “Qual o papel dos veículos de comunicação? Dar espaço desproporcional a estes grupos de pensamento de direita. E ai surgem os Kim Kataguiri (jovem líder do MBL) sem trajetória popular e que se torna uma celebridade (mais novo colunista do jornal Folha de S.Paulo) ao passo que movimentos sociais do Brasil não conseguem furar o bloqueio dos grandes jornais. Os meios de comunicação deliberadamente abrindo espaço e alavancando o discurso da direita”.
Para muitos estudiosos da comunicação, a postura anti-governo do PT por parte da grande mídia brasileira não é nova, ela já estava clara desde a posse do presidente Lula em 2003, mas ganhou contornos de urgência a partir da reeleição da presidenta Dilma, fortemente atrelada à agenda ditada pela oposição, que na primeira semana de novembro de 2014 já falava em fraude, contestava a votação e pedia ao TSE auditoria nas urnas eletrônicas.
Não é à toa que a primeira grande manifestação de rua contra o governo Dilma, realizada em 15 de março de 2015, recebeu um tratamento diferenciado da Globonews com cobertura ao vivo por várias horas, quase sem interrupções. Cobertura que soou como convocatória e apoio explícito para muitos pesquisadores da mídia. O modelo seria seguido para os demais protestos pró-impeachment em 2015 e 2016. Os atos pró-Dilma não receberam o mesmo tratamento.

Luís Felipe Miguel afirma que a grande mídia atua em 2016 como porta-voz de forças reacionárias, exatamente o que ocorreu em 1954 e em 1964
Luís Felipe afirma que a grande mídia atua em 2016 como porta-voz de forças reacionárias, alavancando o discurso da direita por meio de grupos como o MBL, exatamente como ocorreu em 1964 com o IBAD.

 OPERAÇÃO LAVA-JATO
A principal crítica à grande mídia, no entanto, está centrada na cobertura da Operação Lava-Jato, comandada pelo juiz federal do Paraná, Sérgio Moro, e alicerçada no trabalho do Ministério Público Federal e da Polícia Federal. Assim como em 1954, a corrupção é alçada pela mídia à agenda pública numero 1 do Brasil.
As prisões do pecuarista José Carlos Bumlai – o “amigo de Lula” – e do líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT), em novembro de 2015, abrem o caminho para uma ofensiva contra o ex-presidente Lula, que culminaria com a sua condução coercitiva para prestar depoimento em 4 de março de 2016. Pesa sobre Lula a acusação de ocultar patrimônio. Ele seria o verdadeiro dono de um apartamento no Guarujá, registado no nome da construtora OAS, e de um sítio em Atibaia, interior de São Paulo, registrado no nome de um amigo de sua família.
O dia 16 de março foi um marco no processo de agudização da crise política e de manifestação editorial da grande mídia brasileira. No primeiro ato, Dilma convida e Lula aceita ocupar o cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Logo a cobertura da imprensa é conduzida para o fato de que a nomeação dará foro privilegiado ao ex-presidente nas investigações da Lava-Jato. Uma derrota político-jurídica para os defensores do impeachment de Dilma e da prisão de Lula. No segundo e decisivo ato, o juiz Sérgio Moro divulga os áudios de telefonemas de Lula gravados pela Polícia Federal e que o próprio magistrado havia autorizado.
O diálogo entre Lula e Dilma, gravado naquela tarde, sobre o envio para o ex-presidente do documento de posse assinado pela presidenta, para alguma eventualidade, é tratado como uma “bomba” na cobertura do Jornal Nacional daquela noite e dos grandes jornais do dia seguinte. A aliança entre a grande mídia e o Poder Judiciário ganhava contornos dramáticos, mas não era uma novidade. Tinha se tornado frequente nos últimos meses. Se há muito tempo se fala em judicialização da política brasileira, o termo agora podia se ampliar à comunicação, com a judicialização do jornalismo.
“Há um bombardeio constante desde o mensalão até o golpe recém-desfechado. Ele mostra, inclusive, como funciona esse sistema em que o Ministério Público ou o juiz usa a mídia para divulgar informações que vão criar o clima propício para alimentar a investigação que lhes interessa. Mas não foi o juiz do Paraná que disse que era preciso usar a mídia? Nenhuma surpresa nisso, a não ser pelo fato de que as instituições supostamente republicanas são coniventes com esses desvios de função, às vezes criminosos”, avalia Sylvia Moretzsohn, professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal Fluminense.

jornais
Manchetes arrasadoras, com imagens grotescas da presidenta Dilma, deram o tom da reta final do processo de impeachment. Era preciso convulcionar a opinião pública.
 O PAPEL DE OPOSIÇÃO
Esta reflexão nos faz lembrar a declaração da então presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Maria Judith Brito, dada em 2010, de que cabia aos meios de comunicação fazer a oposição ao governo do PT, que os políticos não estavam conseguindo colocar em prática. “Os veículos estão fazendo a posição oposicionista neste país, já que a oposição está fragilizada”, defendia.
Assim como no caso das gravações telefônicas divulgadas pelo juiz Sérgio Moro, o repasse de informações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal para a imprensa se tornou a ferramenta principal de cobertura e divulgação da Operação Lava-Jato. É notória a falta de investigação primária dos jornalistas, ao contrário do que ocorreu, por exemplo, no processo de impeachment do presidente Fernando Collor, em 1992, quando a descoberta, por parte da Revista Istoé, da identidade do motorista Eriberto França e da documentação de compra do Fiat Elba utilizado por ele foi fundamental para comprovar parte das acusações de corrupção feitas por Pedro Collor, irmão do presidente, à Revista Veja.
“A cobertura da crise é muito, mas muito ruim. Tropeça em aspectos técnicos, está viciada nas mesmas fontes, não tem qualquer compromisso com o equilíbrio das narrativas e reforça o discurso pre-julgador. Em muitos momentos, é vergonhoso o que se apresenta ao público”, analisa o pesquisador e jornalista Rogério Christofoletti, da Universidade Federal de Santa Catarina, autor do livro Ética no Jornalismo (Contexto, 2008). “A cobertura tem sido errática, e isso é muito ruim, de uma forma geral. Durante meses, resisti a usar a expressão ‘golpe midiático’, mas não podemos nos desviar dos fatos e perceber que grandes veículos têm sim uma total indisposição para cobrir bem a crise, uma resistência quase primitiva contra o PT, e quase nenhuma preocupação em manter os relatos equilibrados”, reforça.
Christofoletti: "
Rogério Christofoletti: “A cobertura não tem qualquer compromisso com o equilíbrio das narrativas e reforça o discurso pré-julgador”
 MANCHETÔMETRO
Este desequilíbrio de que fala Christofoletti fica evidente ao observarmos os dados estatísticos coletados pelo projeto Manchetômetro, que mensura diariamente, desde 2014, o viés da cobertura da grande mídia em relação ao governo Dilma, à oposição e aos principais partidos políticos brasileiros. Considerando as capas dos jornais Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo e as reportagem do Jornal Nacional, foram publicadas/veiculadas 73 matérias negativas em relação à Situação (Dilma, Governo Federal e PT) e apenas 3 sobre a Oposição (PSDB, PSB e Aécio Neves), entre os dias 19 e 26 de abril, ou seja, logo após a votação da admissibilidade do impeachment pela Câmara dos Deputados.
O Manchetômetro é um projeto do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública (Lemep) sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). O coordenador do grupo, formado por alunos de pós-graduação do Curso de Ciência Política, é o professor e cientista político João Feres Júnior. “Não se trata de desequilíbrio na cobertura. É mais grave. Houve militância aberta. Ao contrário do que acontecia antes de 2014, quando havia uma militância no período eleitoral – vamos lembrar o caso da bolinha de papel na cabeça do candidato José Serra em 2010 -, mas depois das eleições a grande mídia relaxava um pouco, havia mais comedimento, desta vez ela aderiu à agenda do golpe e continuou nesta agenda até conseguir”.
O espaço e a abordagem dados na cobertura diária da grande mídia a dois expoentes do processo de impeachment contra Dilma chamou a atenção de pesquisadores e estudiosos da análise do discurso jornalístico. Falamos do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), e do líder tucano Aécio Neves, dois citados na Operação Lava-Jato. Os recorrentes subterfúgios praticados por Cunha para atrasar a apreciação do processo de cassação do seu mandato pela Comissão de Ética da Câmara receberam acompanhamento quase protocolar da imprensa. Nem próximo da crítica feroz desferida contra Dilma, Lula e o PT. As acusações feitas em delação premiada por Delcídio Amaral contra Aécio só foram divulgadas dias depois das revelações do senador contra o ex-presidente e a presidenta eleita e sem o destaque dado aos petistas.
 João Feres Júnior: “Não se trata de desequilíbrio na cobertura. É mais grave. Houve militância aberta"
João Feres Júnior: “Não se trata de desequilíbrio na cobertura. É mais grave. Houve militância aberta”
GOLPE
“O que houve foi um golpe jurídico-midiático. Uma combinação de ação do Poder Judiciário, com ativismo claro da Primeira Instância que violou, inclusive, alguns direitos dos investigados e de seus advogados. E que garantiu a manutenção de Eduardo Cunha até o fim do processo de impeachment na Câmara, seguida de sua saída posterior feita de forma cirúrgica pelo STF. O sistema jurídico estava armado para esse desfecho, mas sem a mídia o processo junto à opinião pública não andaria como andou. Sem a mobilizando das ruas e a cobertura da Lava-Jato toda centrada em cima do PT”, avalia João Feres.
O termo “golpe” passou a ser adotado pelo governo Dilma e seus defensores para fazer o contraponto à agenda da Operação-Lava Jato e ao processo de impeachment no Poder Legislativo. Mas passou a ser combatido com veemência pela oposição e pela maioria dos comentaristas, colunistas e analistas com espaço nos jornais impressos do eixo Rio-São Paulo, rádios de penetração nacional como a Jovem Pan, revistas de circulação nacional e pelas TVs abertas e fechadas.
O aumento do número de colunistas e comentaristas na grande mídia pode passar uma ideia de que há mais pluralidade de opinião na comunicação brasileira nos últimos anos. Mas casos como o processo de impeachment da presidenta Dilma e a cobertura política recente desafiam esta perspectiva. É o mínimo que se pode dizer ao analisar mais uma vez os dados do Manchetômetro. Considerando o agregado de colunas e artigos dos jornais Estado de S.Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo que tratam de Dilma, do governo federal e do PT, entre 27 de fevereiro e 14 de maio de 2016, foram registrados 295 textos contra, 83 neutros e apenas 19 a favor.
 MÍDIA INTERNACIONAL
Se a tese do golpe lançada pelo governo e seus apoiadores não teve ressonância na grande mídia brasileira, ela ganhou atenção e espaço na imprensa internacional. Editoriais e matérias do The Guardian (Inglaterra), El Pais (Espanha) e The New York Times (Estados Unidos), entre várias outras publicações, levaram em conta os argumentos do governo e questionaram o encaminhamento político-institucional dado à crise pela oposição, pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário, e denunciaram o acompanhamento enviesado dos fatos pela mídia brasileira.
Um dos maiores críticos da grande imprensa nacional é o jornalista norte-americano Glenn Greenwald, ex-repóreter do jornal The Guardian e que se tornou conhecido mundialmente ao ser escolhido por Edward Snowden para dar publicidade, em 2013, aos documentos secretos da operação de vigilância feita para o governo americano pela NSA. Em março deste ano (2016), Glenn foi muito crítico ao papel da mídia brasileira de mobilizar a opinião pública nacional em favor dos protestos contra Dilma e o PT.
Em artigo no site Intercept (theintercept.com), ele tentou explicar para os jornalistas norte-americanos o que estava se passando no Brasil na semana do que os jornais e telejornais brasileiros chamaram de “maiores manifestações de rua da história do Brasil”. “Para se ter uma noção do quão central é o papel da grande mídia na incitação dos protestos: considere o papel da Fox News na promoção dos protestos do Tea Party. Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party. Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos”.
 JORNALISMO X PROPAGANDA
A questão que fica no ar é: o que a imprensa internacional vê que a nossa imprensa não vê? Sylvia Moretzsohn, autora do livro Pensando contra os Fatos – Jornalismo e Cotidiano: do Senso Comum ao Senso Crítico (Revan, 2007), aponta a falta de compromisso com a verdade. “A mídia estrangeira, em vários exemplos que foram intensamente compartilhados no Brasil, agiu com o profissionalismo que falta à nossa. Por isso, talvez, a surpresa. Ficamos mais bem informados lendo o El País ou o New York Times ou o Guardian do que os grandes jornais brasileiros. E isso me parece um belo exemplo de degradação da nossa mídia hegemônica. Os jornais estrangeiros não veem nada que não possa ser visto daqui: apenas não estão comprometidos com o golpe, como os nossos claramente estão, e por isso deixaram há muito tempo de fazer jornalismo e passaram a fazer propaganda”.
Sylvia Moretezsohn diz que a mídia
Sylvia Moretzsohn diz que a mídia internacional agiu com o profissionalismo que falta à mídia nacional: “A mídia brasileira trocou o jornalismo pela propaganda”
Luís Felipe Miguel alerta que, no início, a cobertura estrangeira apenas repetiu o enfoque que os jornais brasileiros davam à Lava-Jato, aos protestos contra o governo e ao processo de impeachment da presidenta Dilma. Mas, num segundo momento, começaram a chegar até as universidade estrangeiras e aos meios de comunicação internacionais mensagens mais críticas sobre o cenário político local e isso fez os veículos estrangeiros analisarem o quadro com mais cuidado e apuro.
“Eu acho que existe um custo pro nível de manipulação feito pela mídia brasileira – é manipulação mesmo, escancarada. Isso tem um custo. Então para um jornalista dos Estados Unidos, da França e da Espanha e para sua empresas, qual o interesse em pagar este custo de você ter uma ruptura circunstancial de credibilidade para algo que é tão distante, no Brasil? Temos que considerar que também existe uma exigência profissional maior deles. Nosso jornalismo sempre foi muito frágil do ponto de vista funcional, sempre tivemos uma dependência muito forte dos donos. Isto faz parte da cultura brasileira, em outros países não é assim. Você tem graus de resistência maior”, analisa Luís Felipe.
Essa cobertura internacional mais crítica ajudou a mudar a percepção de muitos brasileiros sobre a abordagem jornalística feita no país pela mídia local e fez muita gente começar a levar em consideração os argumentos do governo. “Os jornalistas estrangeiros mudam a cobertura inicial porque eles têm padrões mais exigentes do que os nossos. Como temos muito o espírito colonizado, o fato de o noticiário ter se movido de outra forma lá fora fez muita gente aqui, no Brasil, pensar em outros termos sobre o que estava acontecendo”.
 JORNALISMO INDEPENDENTE
Se, por um lado, o bombardeio da imprensa às gestões do PT veio num crescendo desde 2003, por outro lado, a partir do segundo mandato do presidente Lula surgiu uma série de blogs e depois, já no governo Dilma, coletivos de jornalismo independente que começaram a fazer o contraponto na internet à cobertura política dos grandes veículos de comunicação. O caso da bolinha de papel na cabeça do candidato presidencial José Serra (PSDB), em 2010, foi emblemático deste novo momento. Em poucas horas, a versão de que ele fora atingido por um objeto perfuro-contundente (como apresentou o Jornal Nacional por mais de 10 minutos) ruiu e caiu no ridículo.
Levantamento interativo realizado pela Agência Pública (apublica.org), intitulado O Mapa do Jornalismo Independente no Brasil, apresentava no final de maio um total de 74 sites “que nasceram na rede, frutos de projetos coletivos e não ligados a grande grupos de mídia, políticos, organizações ou empresas”. Segundo a Pública, o lançamento do Mapa é um passo decisivo para a criação da Casa Pública, “o primeiro Centro Cultural de Jornalismo Independente do país, com o objetivo de discutir, apoiar e fortalecer o jornalismo independente e inovador no Brasil e na América Latina”.
O ativismo de grupos como o Mídia Ninja (ninja.oximity.com) e o Jornalistas Livres (jornalistaslivres.org) tem dado visibilidade nas redes sociais aos atores contrários ao impeachment da presidenta Dilma, fazendo um contraponto ao jornalismo da grande mídia. “A ideia de contraponto não me agrada. Acredito que o jornalismo da internet e a sociedade civil organizada podem produzir informações que são ocultadas, apagadas e sonegadas pela grande imprensa. Podem ser um lugar para o debate e a reflexão de temas que não são debatidos em outros lugares. Contraponto remete-me a algo que responde a alguma coisa. Entendo que não é este o papel da produção de informações na internet. Ela deve se abrir às muitas vozes, as diferenças, as diversidades”, considera o professor de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Alfredo Vizeu.
Alfredo Vizeu: "Acredito que o jornalismo da internet e a sociedade civil organizada podem produzir informações que são ocultadas, apagadas e sonegadas pela grande imprensa"
Alfredo Vizeu: “Acredito que o jornalismo da internet e a sociedade civil organizada podem produzir informações que são ocultadas, apagadas e sonegadas pela grande imprensa”
Alguns pesquisadores e professores saúdam o fortalecimento do jornalismo independente na internet, mas reconhecem a força do agendamento da grande mídia inclusive no meio digital. Eles avaliam que tão importante quanto produzir matérias aprofundadas, de mais fôlego, é acompanhar de uma maneira diferente, com novos enfoques, a cobertura do dia a dia da política, economia e cotidiano das cidades e do Brasil. Algo que tem um custo financeiro importante que muito poucos sites de jornalismo independente – e sem fins lucrativos – conseguem implementar.
 A influência do noticiário da grande mídia na circulação de conteúdos na internet salta aos olhos ao se analisar os dados auferidos pelo projeto Monitor do Debate Político no Meio Digital, produzido pelo Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da USP, que busca “coletar, mensurar e analisar o ecossistema do debate político na internet”. Na antevéspera da votação da admissibilidade do processo de impeachment pelo plenário da Câmara dos Deputados, entre os dez conteúdos mais compartilhados nas redes sociais, nada menos do que seis deles eram originários de grandes veículos de comunicação vinculados à mídia tradicional: UOL, Folha, Exame, G1 e Veja.
 BOATOS NA REDE
Junto com essa influência da grande mídia um outro fenômeno que só faz crescer: o avanço da produção e circulação de conteúdo falso nas redes. Segundo o Monitor, três das cinco notícias que mais rodaram na internet na semana do impeachment eram falsas. Qualquer semelhança com o boato do envenenamento do doleiro Alberto Youssef na madrugada do dia da votação, em 2014, não é mera coincidência.
Pela ordem, circularam os seguintes textos pseudo-noticiosos: “Polícia Federal quer saber os motivos para Dilma doar R$ 30 bilhões a Friboi”, do site Pensa Brasil (3º lugar no ranking geral da semana, com 90.150 compartilhamentos); “Presidente do PDT ordena que militância pró-Dilma vá armada no domingo: ‘Atirar para matar’”, do site Diário do Brasil (4º lugar, com 65.737 compartilhamentos); “Lula deixa Brasília às pressas ao saber de nova fase da Lava-Jato. Seria um mandado de prisão?”, do site Diário do Brasil (5º lugar, com 58.601 compartilhamentos). Não é preciso dizer que as assessorias do PDT, Friboi e Lula tiveram que se desdobrar nesta semana decisiva para dar os esclarecimentos e desmentidos oficiais nas redes sociais.
João Feres Júnior, do Manchetômetro, embora ressalte a importância do jornalismo independente, vê um problema de sustentabilidade. “A verdade é que há uma crise da mídia, os anunciantes migraram para a internet, mas especialmente para sites que não são essencialmente noticiosos como é o caso do Yahoo e do Google. Os sites de jornalismo independente não têm recursos para mandar jornalistas produzir conteúdos diários. Eles acabam repercutindo o noticiário dos grandes veículos. O poder de agenda continua nas mãos da grande mídia, mesmo na internet”.
A algumas horas do início da votação do impeachment no plenário da Câmara, o poder de agendamento e enquadramento das notícias produzidas nas redações brasileiras se fez mais uma vez onipresente. Destaque para a fala do vice-presidente Michel Temer afirmando que Dilma praticou uma “mentira rasteira” ao dizer que ele cortaria programas sociais; em mais um capítulo das delações premiadas o ex-presidente da Andrade Gutierrez revela que o PT exigiu propina para a construção de uma hidrelétrica na Venezuela; e cenas de “agressões a manifestantes” praticadas por homem da comitiva do ex-presidente Lula ganham espaço nos telejornais.
O noticiário nacional contrastava mais uma vez com a cobertura dos veículos internacionais. Os jornais norte-americanos New York Times, Wall Street Journal e Washington Post, os mais importantes dos EUA, destacavam a incongruência das acusações contra Dilma – as chamadas pedaladas fiscais – e apontavam o currículo repleto de acusações de corrupção dos líderes políticos do movimento pró-impeachment.
No dia em que Dilma deixou o Planalto, jornais estrangeiros apontaram a irregularidade do processo e criticaram o ministério do presidente interino Michel Temer
No dia em que Dilma deixou o Planalto, após decisão do Senado Federal, jornais estrangeiros mantiveram a cobertura crítica, apontando a irregularidade do processo, informando que a crise política não terminava ali  e mostrando o aspecto conservador do ministério nomeado pelo presidente interino Michel Temer
 DEMOCRACIA E JUSTIÇA SOCIAL
O avanço do discurso de direita no Brasil, com seu paradigma de intolerância, acende o sinal amarelo, de advertência. Embora o Jornal Nacional tenha ignorado no primeiro dia pós-votação na Câmara as palavras do deputado Jair Bolsonaro em defesa da memória do coronel-torturador Brilhante Ustra, quando desferiu seu voto pró-impeachment (como se não houvesse notícia ali passível de uma importante crítica pública), o pronunciamento do parlamentar chocou grande parte da opinião pública do país. “Existe uma disparidade entre a visibilidade que o discurso da direita tem e sua real inserção na realidade. Os meios de comunicação não estão tendo apenas um papel de reforçar as condições do golpe no Brasil, eles estão tendo um papel de fazer retroceder o debate politico no país”, critica Luís Felipe Miguel.
Para o pesquisador, valores que pareciam consolidados desde a redemocratização agora estão perdendo aderência na sociedade. “Tem dois consensos importantes que estão sendo rompidos no Brasil: o consenso da necessidade de combate à desigualdade extrema e o consenso em relação aos procedimentos da democracia eleitoral. A ideia de que a única forma aceitável de atingir o poder é pelo voto. E os meios de comunicação estão contribuindo muito para criar narrativas que justifiquem isso. Os meios de comunicação estão contribuindo para uma visão da política que contraria os interesses da justiça social e da democracia. Em parte podemos explicar isso por conta da crise no setor com o surgimento das novas tecnologias. Como está cada vez mais difícil vender informação, eles estão vendendo influência”. E, podemos completar, cobrando um preço muito caro por ela.
Lei também
http://marcozero.org/midia-e-democracia-nada-a-ver-cobertura-politica-coloca-em-xeque-objetividade-e-imparcialidade-da-grande-imprensa-brasileira/
bsdo Editor - Ap[os o titulo da mat[eria [e publicado imagem de 4 capas sendo uma da Veja, 
Época e 2 da Isto é todas referindo-se a Presidenta Dilma Rousseff, todas com títulos altamente manipulados ao ver deste Editor. Peço escusas pela falta de conhecimento técnico de informática e ao autor.
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