22 de abr de 2017

O OLHAR DO CIPÓ E A INSPIRAÇÃO QUE VEM DOS TERREIROS DE CANDOMBLÉ . -Editor- dar as costas a cultura africana é renegar o Brasil.



O OLHAR DO CIPÓ E A INSPIRAÇÃO QUE VEM DOS TERREIROS DE CANDOMBLÉ 

Entrevista cedida ao portal AFREAKA, em fevereiro de 2016.
por Kauê Vieira

 “Os terreiros não são só espaços de resistência. São espaços de educação política, social, artística e cultural afro-diaspórico.”  (Foto: Roger Cipó/Divulgação)


O Brasil é o país com a maior comunidade de negros e negras fora do continente africano no mundo. De acordo com dados do Censo, cerca de 51% dos brasileiros se declararam negros e Salvador (BA) é o local onde vivem mais negros fora da África, são 51% da população, ou cerca de 1,3 milhões de pessoas. Diante da expressividade dos números e mesmo com setores da sociedade trabalhando pela não preservação do cordão que liga o Brasil com o continente africano, são muitos os espaços e pessoas atuando na direção contrária e em busca de referências que, além preservarem a relação entre os dois lados do Atlântico, são peças importantes na formação de uma nova geração de negros e negras brasileiras.


Nesse sentido o candomblé, religião de origem africana e que se inseriu no Brasil a partir da chegada de africanos escravizados, se coloca como importante local de resistência, preservação e difusão da cultura africana – seja na língua, especialmente o iorubá ou nas comidas, a África está viva nos barracões. Pois foi vivendo em um dos muitos terreiros espalhados pelo Brasil que o paulista Roger Cipó, candomblecista de 24 anos, atuante nas áreas de fotografia, pesquisa, educação social e militante contra os crimes de intolerância religiosa e racismo, começou a entender o que significa ser negro.


O candomblé, religião de origem africana e que se inseriu no Brasil a partir da chegada de africanos escravizados, se coloca como importante local de resistência, preservação e difusão da cultura africana. (Foto: Roger Cipó/Divulgação)

Há 10 anos adepto da religião, Roger Cipó (apelido adquirido durante os tempos em que dava aula de capoeira), usa as lentes das câmeras fotográficas como forma de documentar o culto e respeito aos orixás, além de dividir com o público o que lhe é permitido sobre a rotina das casas de axé, iniciativa que contribui na luta contra o racismo e a desinformação, ingredientes formadores da intolerância religiosa que persegue o candomblé há décadas. Intolerância esta que também esteve presente em sua vida.

(Foto: Roger Cipó/Divulgação)

“No final da adolescência, eu já dava aulas de capoeira. Cantava cantigas com nomes de Orixás, tocava atabaques, mas era distante e averso à religiosidade. Acreditava mesmo que não era coisa boa e preferia a distância. Era um intolerante por osmose, porque não conhecia nada sobre candomblé, mas repudiava. A contradição entre o não contato e os arrepios na pele quando os nomes dos orixás eram entoados nas cantigas passou a me incomodar. O contato com uma família de alunos candomblecistas me ascendeu a dúvida: “como pode pessoas tão legais serem da macumba?”. Não demorou muito, e eu fui conhecer o terreiro.  A melhor escolha que já fiz. E o melhor tapa na cara que se pode tomar, pois rapidamente foi se desconstruindo todos os estereótipos preconceituosos que me foram ensinados. A oportunidade de estar lá, ver com os próprios olhos, sentir na pele a energia, se emocionar com as relações de cuidado e atenção com o outro e com as divindades, logo me ganharam. Já fazem 10 anos e ainda hoje lembro com muito respeito das cores, do cheiro do ambiente, da energia que me acolheu com tanto respeito,” pontua.


(Foto: Roger Cipó/Divulgação)

Com a conscientização e um conhecimento melhor sobre a religião e seus significados, Roger foi aos poucos se tornando uma voz que usa a arte como caminho de inspiração e quebra de preconceitos. O paulista explica que a fotografia precisa, mais do que documentar, registrar a vida nos terreiros com o intuito de combater o racismo religioso. Para Roger Cipó é fundamental que haja mais respeito por parte dos fotógrafos ao invés de uma visão colonialista, em busca de desvendar mistérios.


Há 10 anos adepto da religião, Roger Cipó (apelido adquirido durante os tempos em que dava aula de capoeira), usa as lentes das câmeras fotográficas como forma de documentar o culto e respeito aos orixás. (Foto: Roger Cipó/Divulgação)


“Me proponho a compartilhar imagens que dialoguem e traduzam por si só o que candomblé é, em essência: uma “religação” com a ancestralidade africana, em sintonia com a natureza, para o cuidado, acolhimento e respeito ao outro. Vivendo candomblé, entendi que documentar era muito pouco, e é. Muitos são os documentaristas que produzem trabalhos incríveis, no campo visual, sobre terreiros. Quase sempre com olhares colonizadores que pretendem investigar os “mistérios” de uma religião exótica. Não é isso que o candomblé precisa! Não somos exóticos, e nem nossas divindades reais são. Poucos  são os que se comprometem a compartilhar e registrar imagens que dialoguem, que motivem, e sensibilizem a partir da verdadeira imagem de terreiro. É preciso que nós, enquanto profissionais da imagem usemos nossas ferramentas também como instrumento de combate ao racismo religioso.

 (Foto: Roger Cipó/Divulgação)

 Sinto que o objetivo é alcançado quando uma pessoa que, assim como eu, teve uma educação pró intolerância, se encanta com a fotografia e se sente convidada a conhecer mais sobre candomblé. Sinto que o objetivo vai sendo alcançado quando vejo brilho nos olhos da criança que contra vontade dos pais, para para admirar uma foto de Orixá. E sentir que, aos poucos, esse trabalho ajuda a desconstruir imagens deturpadas e constrói imagens mais fiéis à realidade dos terreiros, na consciência das pessoas, me dá forças para continuar”, conta.


As mobilizações são importantes porque acordam, ou pelo menos incomodam a sociedade para os retrocessos e cerceamento de direitos que temos vivido. (Foto: Roger Cipó/Divulgação)


Ativista dentro e fora dos Ilês (casa em iorubá), Roger Cipó foi dos organizadores de uma passeata na Avenida Paulista, em São Paulo, pelo fim da intolerância religiosa. O evento reuniu milhares de adeptos do candomblé e, segundo o fotógrafo, serviu para ir contra o retrocesso de parte da sociedade.

(Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa 2016 - Avenida Paulista. Créditos: Jornalistas Livres)


Vídeo do Jornalistas Livres, sobre o Dia Nacional de Combate a Intolerância Religiosa


“  "O ano de 2015 foi extremamente violento para as comunidades de terreiro: crianças foram apedrejadas, terreiros queimados, sacerdotisas foram assassinadas, vítimas do terrorismo religioso brasileiro. Ir às ruas e denunciar esse tipo de crueldade, era o mínimo a ser feito, e fizemos com muita força e esforços de gente que está cansada de tanta violência. As mobilizações são importantes porque acordam, ou pelo menos incomodam a sociedade para os retrocessos e cerceamento de direitos que temos vivido. Tomar as ruas é fazer pressão e insistir na luta por direitos, pois é importante que nos façamos vistos e ativos na luta por igualdade.”


Resistência, ativismo e inspiração, é com este alicerce que Roger Cipó trilha seu caminho de preservação da memória e cultura dos terreiros e de luta contra o racismo e intolerância religiosa. Que os caminhos continuem abertos por Exu e tudo seja levado pela justiça de Xangô!


“Os terreiros não são só espaços de resistência. São espaços de educação política, social, artística e cultural afro-diaspórico. Quem se reencontra e se permite nascer para o candomblé, renasce para a Africanidade adormecida pelo racismo.”


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