31 de mai de 2017

As “Dimensões da Cultura” por Isaura Botelho


As “Dimensões da Cultura” por Isaura Botelho

Analisar de forma concreta as políticas culturais brasileiras é ao que tem se proposto Isaura Botelho em suas reflexões sobre os desafios das dimensões da cultura como objeto de gestão pública, sobre a marginalidade do campo na agenda governamental e sobre a descontinuidade de políticas na área.

IsauraBotelho_foto_LuaneAraujoDoutora em Ação Cultural pela ECA (USP), com pós-doutorado na França em pesquisas socioeconômicas na área da cultura, Isaura Botelho é Gestora cultural desde 1978, especializada em planejamento e formulação de políticas públicas, trabalhou na Funarte, na Biblioteca Nacional e no Ministério da Cultura. Dedica-se hoje à qualificação de gestores culturais e à pesquisa.
Seu mais recente livro, lançado no início do ano – Dimensões da Cultura – é o principal assunto da entrevista dada ao Cultura e Mercado. Ela abordou também a profissionalização da gestão cultural, a economia criativa e as políticas culturais dos EUA, da França e do Brasil.
Cultura e Mercado – Como se estruturam os eixos do seu livro?
Isaura Botelho– Na verdade, os textos não estão organizados cronologicamente, mas por temas. A ideia foi ir do geral para o particular, começa com as Políticas culturais, depois as Práticas culturais dos indivíduos e os Equipamentos culturais onde se dão grande parte dessas práticas. Por fim, a questão da Economia da cultura, que atravessa todos esses temas, e a Economia criativa.
CeM- A Economia criativa é um novo paradigma?
IB- É um novo paradigma que está muito em moda e sobre o qual tenho minhas restrições. Não o fato do paradigma em si, mas o fato de as pessoas estarem lidando como se fosse uma nova questão que tivesse aparecido, quando na verdade não é. Tem alguém que disse que economia criativa é um assunto da economia, de fato. A economia é que está se “inventando” mais criativa e instrumentalizando o segmento cultural visto particularmente como dos mais criativos. Do ponto de vista da cultura, o que nos interessa é de fato a economia que é gerada pelo fazer cultural, pelas práticas culturais. É um paradigma que foi inventado, muito em função dos problemas da economia de países desenvolvidos, no caso especificamente da Inglaterra. Exatamente por sua formulação mais recente é que o tema se inclui na parte final do livro.
CeM – Grande parte dos textos deste livro foram publicados como capítulos de livros, como artigos ou em anais de encontros; como surge a ideia de juntar tudo numa só publicação? existem textos inéditos no livro?
IB– Artigos, capítulos de livros ou publicações e principalmente anais são pouco lidos e, na verdade, esta é uma área que não tem uma bibliografia extensa em português. Assim, fazia sentido a reunião destes textos para compor um volume que passasse por todos estes temas. Há alguns textos que nunca foram publicados, como por exemplo o artigo que está na última parte, sobre a questão da moda. Este foi um texto feito no contexto de minha participação em um grupo de pesquisa na área de economia criativa. Naquele momento, as pessoas estavam muito fascinadas com a possibilidade de a SP Fashion Week virar algo como a Paris Fashion Week. Ora, cada território tem uma história, cada campo econômico tem uma história, tanto que o texto tem como epígrafe uma frase de Luis XIV, que diz que “A moda é para a França, o que as minas de ouro são para o Peru”. Então veja só, o que a França é em termos de indústria da moda e da manufatura de luxo vem sendo criado há séculos. Como o texto, embora elogiado, não interessava aos objetivos do grupo, terminou não sendo utilizado. Sendo assim é um texto virgem e que está publicado aqui pela primeira vez. Outro que também é inédito é o texto sobre a Diversidade cultural. Eu participei de um grupo de especialistas internacionais que redigiu a Carta cultural Ibero Americana, por iniciativa da Organização dos Estados Iberoamericanos – OEI. Para estimular a divulgação da Carta, a OEI solicitou a alguns participantes do referido grupo para escreverem um texto sobre ela, levando em conta a experiência de seus respectivos países. Meu texto, de alguma forma fugia um pouco do proselitismo em relação à carta e foi alijado da eventual publicação, que nem sei se aconteceu. Eu estava muito mais preocupada em mostrar aos europeus que a diversidade cultural brasileira é diferente da hispano-americana.
CeM – Que importância tem este livro nessa fase da sua vida profissional?
Na verdade, a minha vida profissional se deu em diversas instituições federais da cultura. Passei por diversas áreas o que explica essa diversidade de intervenções. Parece-me fazer sentido contribuir com esse conjunto de textos que podem alimentar quem se interessa pela área, quem está estudando o campo. Sinto-me responsável por passar adiante experiências e reflexões, o que me levou também a me dedicar, nos últimos anos à qualificação de gestores culturais. É aí que se insere o curso de Gestão Cultural do Centro de Pesquisa e Formação do SESC, as especializações feitas na Fundação Joaquim Nabuco, num primeiro momento contando com a Universidade Federal Rural de Pernambuco para a titulação, e depois, a partir da segunda edição sob a responsabilidade da Universidade Federal da Bahia. As três edições realizadas no Nordeste contaram com o apoio do MinC e de Secretarias da Cultura.
CeM – Você costuma sugerir a leitura de textos de sociologia da cultura de autores americanos, em contraponto à bibliografia francesa que é mais difundida por aqui. O Brasil poderia ser um híbrido de EUA e França em termos de modelo de política cultural?
 A questão é você pensar em diversidade, eu não estou falando em diversidade cultural, estou falando de diversidade institucional, diversidade regulatória.
Nos EUA você tem leis que são municipais, estaduais e federais cujos impostos revertem para a área cultural, há uma multiplicidade de leis aliada a uma grande diversidade de modelos institucionais. Por exemplo, um imposto que sobretaxa um setor pode beneficiar um outro num primeiro momento, mas que posteriormente beneficiará o que foi taxado, beneficiando ambos. É o caso dos hotéis em São Francisco. O pressuposto é de que o imposto sobre os hotéis, que reverte para um fundo de fomento às artes, vai fomentar a vida cultural na cidade o que, por sua vez, atrairá turistas que presumivelmente se hospedarão nestes hotéis. Esse tipo de taxação cruzada também existe na França em relação a posse de aparelhos de TV que vai fomentar a produção cinematográfica. Teria que se pensar em marcos regulatórios que propiciem esta diversidade por aqui. A lei de reserva de mercado é uma coisa interessante, esta legislação da Ancine que está nos permitindo assistir à um grande repertório de filmes brasileiros na tv à cabo… Você está estimulando a vida cultural e não está utilizando recursos diretos. Nossas políticas culturais não se inspiram nestes modelos, elas são absolutamente voluntaristas, com exceção de setores como cinema, que é um campo mais concentrado do ponto de vista dos atores e agentes que estão em jogo. As nossas políticas culturais não são baseadas em pesquisas, ou em estudos que nos permitam construir quer instituições, quer diretrizes mais estruturantes. Elas vêm dependendo de dirigentes de ocasião, em grande parte das vezes sem nenhuma afinidade e conhecimento do setor, que continua sendo visto como supérfluo e marginal nas agendas politicas. Isso tudo nos interdita o acesso a uma continuidade necessária. Por isso a importância da qualificação dos gestores, é preciso fortificar os gestores, principalmente de municípios menores, para que eles possam pelo menos lutar pela continuidade de políticas, programas ou atividades relevantes. Estas pessoas se tornam agentes importantes, fundamentais.

Serviço:
DIMENSÕES DA CULTURA- Políticas Culturais e seus desafios
Isaura Botelho
Edições SESC
>> O livro aborda a dimensão econômica da cultura como geradora de riquezas para o país, além de propor uma abordagem da política cultural pautada pela sociologia da cultura e apoiada em informações socioeconômicas sobre as práticas culturais dos indivíduos. Com o foco não só na produção, mas na recepção da cultura, a obra cobre diversos aspectos da gestão cultural, como os arranjos institucionais, a formação de gestores e de públicos, os instrumentos de financiamento e a articulação de políticas culturais transnacionais.
http://www.culturaemercado.com.br/site/entrevistas/dimensoes-da-cultura-isaura/
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