5 de jun de 2017

Eleições no Reino Unido: terminou o paradigma Thatcher?

Eleições no Reino Unido: terminou o paradigma Thatcher?

Desde 1945 que não se registava uma variação das sondagens tão expressiva e, neste momento, uma vitória dos trabalhistas é uma possibilidade real.
Cartazes da campanha eleitoral de 1945 no Reino Unido.
Cartazes da campanha eleitoral de 1945 no Reino Unido.
Theresa May convocou eleições em condições mais favoráveis do que qualquer primeiro-ministro desde 1945. Mas, curiosamente, também desde 1945 que as sondagens não apresentavam variações tão drásticas nas semanas pré-eleitorais, o que dificulta uma leitura taxativa das previsões para dia 8 mas permite explorar hipóteses. 
No início de abril, os Conservadores lideravam as sondagens com 19 pontos em relação aos trabalhistas que, se preparavam para o seu pior resultado desde o início do séc. XX. Além disso, o Brexit ofereceu a Theresa May um projeto político forte o suficiente para unificar a direita e anular o UKIP. Estava tudo preparado para uma marcha vitoriosa. 
A seis dias das eleições, as sondagens são unânimes a identificar a tendência de redução expressiva da vantagem dos conservadores para qualquer coisa entre os 3 e os 12 pontos. 
Com o fim da segunda-guerra na Europa em abril de 1945, Churchill convoca eleições para junho confiante de que a vitória lhe entregará uma maioria confortável de deputados. No dia anterior às eleições, o ainda primeiro-ministro confia ao Rei que esperava obter pelo menos uma maioria de 30 a 50 deputados. 
Os trabalhistas concordavam com a leitura de Churchill, de tal forma que se prepararam para uma vitória dos conservadores rejeitando tudo o que as sondagens indicavam, na altura uma indústria ainda em desenvolvimento e estranha à cultura política. Na verdade, desde 1943 que os trabalhistas apresentavam uma liderança de intenções de voto nas sondagens, consistentemente à volta dos 45% e com uma margem face aos conservadores que no início de 1945 atingia os 20 pontos. A grande variação neste caso foi no campo conservador que, entre fevereiro e junho desse ano passou de 28% para 41% das intenções de voto. O resultado final, no entanto, entregou a vitória de forma clara aos trabalhistas, com 48,8% contra 39,3%. 
Desde então, mesmo alargando a amostra de análise para 8 semanas pré-eleitorais, nenhuma eleição apresenta variações nas sondagens desta latitude. A evolução de Jeremy Corbyn é, por isso, um dos momentos mais interessantes da história eleitoral britânica. Dito isto, alguns alertas nas sondagens devem ser tidos em conta quando se olha para os resultados dos trabalhistas. 
À exceção de 2010, todos os atos eleitorais desde 1979 apresentam resultados consistentemente abaixo do que as sondagens previam para os trabalhistas. Mesmo nas vitórias de Tony Blair em 1997, 2001 e 2005, os resultados surgem sempre abaixo das expetativas e para lá da margem de erro (entre março e abril de 1997, os trabalhistas registaram uma vantagem consistente entre os 15 e os 25 pontos face aos conservadores, mas o resultado final deu apenas uma vantagem de 13 pontos). E, crucialmente, é o resultado dos trabalhistas que varia negativamente face às sondagens, enquanto que os conservadores apresentam resultados que, ou variam positivamente (dentro da margem de erro) ou são consistentes com as sondagens. 
Concentração de votos e polarização etária
Outra novidade a assinalar: 80% do eleitorado irá votar Conservador ou Trabalhista. Desde 1979 que a percentagem não era tão alta (81%), e representa um salto significativo face a 2010 (65%) ou 2015 (67%). Considerando a sustentada popularidade dos conservadores, isto significa que não é à direita que o eleitorado voltou, mas sim à esquerda. Isto permite uma leitura consistente com a tese, já aqui explorada, do fim do paradigma Thatcher e o retorno do Labour a um programa verdadeiramente alternativo aos conservadores que estará a mobilizar o eleitorado.
A inexistência de um verdadeiro desafio à esquerda do Labour nos últimos 40 anos é, verdadeiramente, o único facto surpreendente face a estes números uma vez que, claramente, existiria uma parte considerável do seu eleitorado disponível para alternativas. O sistema eleitoral, avesso a pequenos partidos, explica talvez esta situação. 
Feitas as contas, não há uma única sondagem que indique uma vitória de Jeremy Corbyn. Mas alguns factores poderão ainda alterar o jogo. O primeiro é a concentração de votos e a mobilização que isso indicia à esquerda. Se isso se confirmar, o efeito de sobrevalorização dos trabalhistas nas sondagens poderá ser anulado, uma vez que maior concentração de votos permite equilibrar os efeitos do sistema eleitoral de maiorias simples por círculos eleitorais. 
Por outro lado, as diferenças etárias de voto na faixa acima dos 65 anos estão a diminuir de forma expressiva. Há um mês, os conservadores gozavam de uma vantagem de 50 pontos nas intenções de voto nesta faixa etária, enquanto que a 31 de maio essa vantagem foi reduzida para 37 pontos (ou seja, 60% para os conservadores contra 23%). Considerando que este é o grupo do eleitorado com maior taxa de participação (78% em 2015, face aos 43% de participação dos mais jovens), mesmo pequenas alterações podem mudar significativamente os resultados. 
Nos mais jovens (18-24 anos), a relação inverte-se, com os conservadores a obterem apenas 19% das intenções de voto e os trabalhistas 69%, uma vantagem que se tem vindo a acentuar a favor dos trabalhistas e que contrasta com os resultados de 2015, onde 27% dos mais jovens votaram nos conservadores e apenas 43% votaram Labour. Tudo indica também que a participação dos mais jovens aumente consideravelmente, dado que Jeremy Corbyn apela com sucesso a esta faixa etária. 
Data das sondagens
Organização
Amostra
Outros
Margem






30 Maio–1 Jun
1,046
45%
40%
2%
7%

2%

5%
26 Maio–1 Jun
1,224
44%
36%
5%
7%
5%
2%
1%
8%
30–31 Maio
1,875
42%
39%
4%
7%
4%[a]
2%
1%
3%
25–31 Maio
53,611
42%
38%
3%
9%
4%
2%
2%
4%
Pre-31 Maio
19,000
44%
38%
4%
6%
7%
6%
25–30 Maio
1,199
43%
33%
4%
11%
4%
3%
1%
10%
24–30 Maio
53,464
41%
38%
4%
9%
4%
2%
2%
3%
26–29 Maio
2,002
45%
33%
5%
8%
4%
3%
2%
12%
23–29 Maio
~50,000
42%
38%
4%
9%
7%
4%
26–27 Maio
1,009
43%
37%
4%
8%
2%
1%
4%
6%
25–26 Maio
2,003
43%
36%
4%
9%
4%[a]
2%
1%
7%
24–26 Maio
2,044
46%
32%
5%
8%
4%
2%
1%
14%
24–26 Maio
2,024
46%
34%
5%
8%
4%
2%
1%
12%
24–25 Maio
1,556
44%
38%
5%
7%
4%
2%
6%
24–25 Maio
6,000
44%
36%
4%
6%
9%
8%
24–25 Maio
2,052
43%
38%
4%
10%
5%[a]
1%
0%
5%
23–24 Maio
2,002
45%
35%
5%
7%
5%
2%
1%
10%
19–23 Maio
1,019
48%
33%
4%
7%
5%
2%
1%
15%
22 Maio
Atentando em Manchester(link is external), campanha suspensa entre 23 e 24 de Maio
18–22 Maio
1,200
42%
34%
4%
9%
4%
4%
2%
8%
19–21 Maio
2,004
47%
33%
4%
9%
4%
2%
1%
14%
19–20 Maio
1,034
43%
34%
4%
8%
3%
2%
5%
9%
19–20 Maio
1,017
46%
34%
3%
8%
4%
1%
3%
12%
18–19 Maio
1,925
44%
35%
3%
9%
5%[a]
2%
1%
9%
17–18 Maio
1,551
46%
34%
7%
7%
4%
2%
12%
16–17 Maio
2,003
46%
33%
5%
8%
5%
2%
1%
13%
16–17 Maio
1,861
45%
32%
6%
8%
5%
2%
1%
13%
15–17 Maio
1,053
49%
34%
2%
7%
6%
3%
*
15%
12–15 Maio
1,026
47%
33%
5%
7%
5%
3%
*
14%
11–15 Maio
1,201
47%
29%
6%
8%
4%
4%
2%
18%
12–14 Maio
2,030
48%
28%
6%
10%
4%
3%
1%
20%
3–14 Maio
1,952
48%
28%
5%
7%
6%
3%
2%
20%
12–13 Maio
1,016
48%
30%
4%
8%
4%
2%
4%
18%
11–12 Maio
1,630
49%
31%
3%
9%
5%[a]
2%
1%
18%
10–12 Maio
2,007
48%
30%
5%
10%
4%
3%
1%
18%
9–12 Maio
2,003
47%
32%
5%
8%
5%
2%
1%
15%
10–11 Maio
1,508
46%
32%
6%
8%
5%
4%
14%
9–10 Maio
1,651
46%
30%
5%
11%
6%[a]
2%
1%
16%
5–9 Maio
1,027
48%
31%
5%
8%
4%
2%
2%
17%
4–8 Maio
1,201
44%
28%
8%
11%
4%
5%
1%
16%
5–7 Maio
2,038
49%
27%
6%
9%
4%
3%
1%
22%
5–6 Maio
1,005
47%
30%
4%
7%
5%
3%
3%
17%
4–5 Maio
1,644
47%
28%
6%
11%
5%[a]
2%
1%
19%
3–5 Maio
2,020
46%
28%
8%
10%
4%
4%
*
18%
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