6 de jun de 2017

“Não vão quebrar nossa cara”: 30 horas de uma ocupação histórica pela cultura. -Editor- a falta de sensibilidade política de abertura ao diálogo e ao respeito da população, trazem o caos a cidade de São Paulo, engendrado pela atual administração, que perde dia-a-dia, o respeito dos moradores da cidade .


“Não vão quebrar nossa cara”: 30 horas de uma ocupação histórica pela culturaDepois de quase socar trabalhador, André Sturm continua agarrado ao cargo de secretário municipal de Cultura. Dória continua dizendo que foi "bobagem". Ameaçados pela Prefeitura, trabalhadores e trabalhadoras que ocupavam gabinete na Galeria Olido deixaram prédio ainda mais fortes

Fotos Wilson Oliveira
Era por volta de 22 horas de quinta-feira (01 de junho) quando cerca de 70 trabalhadoras e trabalhadores da cultura deixavam a Galeria Olido, no centro de São Paulo. Alguns deles já estavam há 30 horas no prédio, na ocupação do gabinete da Secretaria Municipal de Cultura, em resistência. Na pauta, questões como o descongelamento de 43,5% da verba para políticas públicas culturais e a implementação do Plano Municipal de Cultura. E a mais importante e urgente: a queda do atual titular da pasta, André Sturm.
Nem tudo foi atendido. Até a publicação desta matéria, Sturm continuava agarrado ao cargo. Além de continuar gritando “Fora Sturm”, agora pedem “Fora Dória”. Apesar da desocupação, a cena cultural de São Paulo e seus trabalhadores e trabalhadoras saem vitoriosos. Vamos mostrar por quê.
O Periferia em Movimento acompanhou ao vivo, desde a comunicação da decisão de sair do prédio até a marcha de manifestantes por avenidas do centro.

Por que vitória?

Destacado como interlocutor da Prefeitura para negociar com manifestantes, o secretário de Relações Governamentais Milton Flávio deu um ultimato no início da noite: a gestão de João Doria só dialogaria após a desocupação e, se o movimento não desocupasse o prédio até as 23h, a negociação seria diretamente com a Polícia Militar de Geraldo Alckmin, em reintegração de posse.
Para garantir a própria integridade física, que o secretário Milton Flávio garantira um dia antes mas depois lavou as mãos, agentes culturais optaram pela saída. “Não vamos enfrentar genocida aqui dentro porque a gente enfrenta genocida lá fora todo dia, nas quebradas”, disseram. A conclusão era de que, ao resistir, criaria-se um cenário perfeito para o espetáculo midiático armado por Dória e Sturm. Veja a nota publicada pelo Movimento Cultural das Periferias:
Do lado de fora, outras centenas de pessoas em vigília aguardavam – não só trabalhadores e trabalhadoras da cultura, mas também outros apoiadores como estudantes da Uneafro. Após a saída, todos seguiram em caminhada pela avenida São João até a esquina com a Ipiranga, onde sentaram-se no asfalto e lembraram as lutas do povo negro e dos indígenas, das periferias, de mulheres, gays, lésbicas e transexuais, de vítimas da violência do Estado – mais uma vez, ressaltando o aspecto político-transformador desse movimento.
Na sequência, pararam em frente a uma lanchonete do Habib’s e relembraram o caso do menino João Victor, assassinado por funcionários da rede de fast food. “Sua esfiha tem carne de preto”, entoaram, lembrando que o racismo que mata é estruturante no sistema.
Dali, o grupo seguiu para o Theatro Municipal, equipamento público que detêm 25% da verba para a cultura e é palco de escândalos de corrupção, onde moradores em situação de rua tomaram a palavra no megafone e lembraram a violência contra frequentadores da região conhecida como Cracolândia.
O ato foi encerrado em frente à Prefeitura, onde faixas contra Sturm e Dória foram penduradas e os manifestantes fizeram uma pequena assembleia para definir os próximos passos da luta. Afinal, no dia 12 de junho, participam de uma audiência pública sobre o descongelamento dos recursos na Secretaria Municipal da Fazenda.
Diante das ameaças e perseguições, denúncias de irregularidades e desmonte de políticas em apenas cinco meses de “gestão”, o grupo sai fortalecido e unificado para seguir lutando pela garantia do direito à cultura na cidade de São Paulo e contra uma administrção que desde o ínício tem demonstrado truculência, apesar de propagandear abertura ao diálogo – seja sobre os graffitis, seja sobre a Cracolândia, seja agora na ocupação.
Sturm não caiu, mas sentiu o abalo. Pediu desculpas para a Folha de S. Paulo, mas não diretamente a quem quase foi agredido. Por outro lado, o trabalho das mídias populares foi fundamental para chamar atenção. Desde a revelação da ameaça de partir para cima do secretário até a desocupação do prédio, profissionais individualmente ou em coletivos que compõem a Rede Jornalistas das Periferias (incluindo a gente do Periferia em Movimento) se revezaram para garantir uma narrativa de dentro pra fora dos movimentos, diferente da grande mídia.
O momento é de estarmos juntos, mesmo. Após passar por várias gestões sem represálias, agora trabalhadores e trabalhadoras da cultura – e da comunicação – que são fruto das migalhas dessas políticas públicas as quais tentam evitar o desmonte se tornam alvo ao mostrar potencial de mobilização (basta ver o editorial do jornal Estado de S. Paulo, que acusa o agente cultural Gustavo Soares de “violento” e classifica os movimentos como “radicais”). Novamente, não vão conseguir quebrar nossa cara.
CONFIRA AS FOTOS DA DESOCUPAÇÃO FEITAS POR WILSON OLIVEIRA:

Cronologia da ocupação

A tomada da SMC ocorre por uma série de motivos: sucateamento dos equipamentos culturais públicosdesmonte da Virada Cultural, cancelamento de aulas e oficinas nas periferias, perseguições e ofensas verbais à trabalhadores da cultura, apagamento de grafites, falas de cunho discriminatório e atitudes racistas (tal como a expulsão do agente cultural Aloysio Letra de uma reunião pública).
Entre as ações controversas constam ainda os cortes nas oficinas culturais nos CEUS e outros equipamentos (Programas Piá e Vocacional), o desmonte da Escola Municipal de Iniciação Artística (EMIA), a diminuição de 30% dos recursos destinados ao Programa VAI (política de incentivo à autonomia da juventude periférica) com a desclassificação arbitrária de cinco grupos selecionados para o programa, a suspensão do Programa Aldeias (destinado ao fortalecimento de aldeias indígenas da cidade), os cortes nos programas de fomento a grupos culturais (teatro, dança, circo, cultura digital e periferia), os atrasos de pagamento e abandono aos agentes comunitários de cultura e a demissão em massa de funcionários da SMC.
Segundo os manifestantes e conforme noticiado pela mídia nos últimos dias, André Sturm tem-se mostrado impaciente, autoritário e incapaz de dialogar com artistas e trabalhadores da cultura. O estopim para a ocupação deflagrou-se nesta última segunda-feira (29 de maio) quando André Sturm ameaçou “quebrar a cara” do agente cultural Gustavo Soares, um dos integrantes do Movimento Cultural Ermelino Matarazzo da Zona Leste de São Paulo. O áudio divulgado pelo movimento, publicado em primeira mão pelo Periferia em Movimento e amplamente repercutido por outras mídias e nas redes sociais.
O coletivo Desenrola e Não Me Enrola acompanhou o momento da ocupação e os diversos comunicados feitos ao longo do dia.
Na própria quinta-feira (01), enquanto a ocupação ainda acontecia, grupo de manifestantes realizava um ato de apoio do lado de fora da Secretaria. Reveja:http://periferiaemmovimento.com.br/nao-vao-quebrar-nossa-cara-30-horas-de-uma-ocupacao-historica-pela-cultura/

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