20 de jun de 2017

“Todos os governos progressistas da América do Sul evitaram as mudanças estruturais”. -Editor - é preciso REFORMAS DE BASE PROFUNDAS

“Todos os governos progressistas da América do Sul evitaram as mudanças estruturais”

In­ca­pazes de res­ponder à crise es­tru­tural do ca­pi­ta­lismo global, que já al­cança uma dé­cada, os go­vernos de es­querda da Amé­rica La­tina vão bei­jando a lona ou vendo o res­sur­gi­mento de al­ter­na­tivas ra­di­cal­mente an­tis­so­ciais, sem for­mular res­postas à al­tura. Para ana­lisar o de­sen­canto, en­tre­vis­tamos Fabio Luís Bar­bosa dos Santos, que acaba de lançar o livro “Além do PT – A crise da es­querda bra­si­leira em pers­pec­tiva la­tino-ame­ri­cana”, que se presta a ana­lisar as ra­zões do fim do ciclo.

“Faltou en­frentar a raiz dos pro­blemas, na di­mensão es­tru­tural. O Brasil, a Bo­lívia, Equador, Uru­guai, Pa­ra­guai, enfim, todos os países iden­ti­fi­cados com o pro­cesso, apos­taram numa tí­mida re­dis­tri­buição da renda, na me­lhor das hi­pó­teses. Mesmo na Ve­ne­zuela, o que de­sen­ca­deou a ten­ta­tiva de golpe em 2002? A apro­pri­ação es­tatal da renda pe­tro­leira e re­cu­pe­ração da ca­pa­ci­dade dis­tri­bu­tiva. Mas ao não se pro­mover a mu­dança es­tru­tural, o vín­culo dos povos com tais pro­cessos man­teve na­tu­reza vo­látil, a flu­tuar ao sabor das con­jun­turas po­lí­ticas e econô­micas”, ex­plicou o pro­fessor de Re­la­ções In­ter­na­ci­o­nais da Uni­fesp em Osasco (SP).

Na con­versa, Fábio traça al­guns pa­ra­lelos entre a ex­pe­ri­ência pe­tista e os cha­mados go­vernos “pro­gres­sistas”, eleitos na es­teira da des­truição so­cial dos anos 90, em muitos casos a partir de co­mo­ventes mo­bi­li­za­ções po­pu­lares. Em comum, o fato de não terem ja­mais ata­cado, de fato, os grandes ali­cerces do ca­pital, in­clu­sive cul­tu­ral­mente, de ma­neira que quando se chegou ao fim da bo­nança econô­mica ba­seada no boom das com­mo­di­ties não havia bases dis­postas a re­novar os pro­cessos.

“A lição prin­cipal é que as es­tra­té­gias e ca­mi­nhos tra­çados pelos par­tidos foram su­fi­ci­entes para chegar à pre­si­dência de vá­rios países, num con­texto de forte con­tes­tação ao ne­o­li­be­ra­lismo. No en­tanto, in­su­fi­ci­entes para mudar os países. Para mudá-los é pre­ciso uma cor­re­lação de força, prá­ticas, pro­gramas e va­lores di­fe­rentes das ex­pe­ri­ên­cias que agora se en­cerram”, afirmou.

A en­tre­vista com­pleta com Fabio Luis Bar­bosa dos Santos pode ser lida a se­guir.

Cor­reio da Ci­da­dania: Co­me­çando pelo tema de seu livro, por que che­gamos ao fim de um ciclo – po­lí­tico e econô­mico, mas com ou­tros re­flexos – dos go­vernos ditos de es­querda, “pro­gres­sistas”, na Amé­rica do Sul, após uma onda de vi­tó­rias elei­to­rais no co­meço do sé­culo?

Fábio Luís Bar­bosa dos Santos: É hora de ba­lanço. Falar em onda con­ser­va­dora, como agora, supõe uma in­flexão, uma mu­dança de sen­tido geral da his­tória e dos anos re­centes. Quando ana­li­samos as ca­rac­te­rís­ticas fun­da­men­tais da cha­mada onda pro­gres­sista e também de seus subs­ti­tutos, como na Ar­gen­tina e Brasil, vemos uma ace­le­ração no tempo e na in­ten­si­dade das me­didas, mas não uma mu­dança de sen­tido.

Não en­tendo que o “golpe” no Brasil ou a der­rota do kir­ch­ne­rismo con­fi­gura ca­valo de pau na his­tória. Temos uma agu­di­zação de po­lí­ticas vin­cu­ladas à agenda do ajuste es­tru­tural, que na ver­dade es­tavam na agenda de todos os go­vernos, pe­tistas e de­mais. A ex­ceção é a Ve­ne­zuela, que tem di­fi­cul­dades de outra na­tu­reza.

É pos­sível en­tender que o mo­vi­mento an­te­rior con­tri­buiu para a cri­ação das con­di­ções da cha­mada onda con­ser­va­dora. No caso bra­si­leiro, é um fenô­meno que vem muito de trás, que contou com a par­ti­ci­pação mais re­cente do PT. Não con­si­dero que as ges­tões pe­tistas te­nham sido pro­gres­sistas em ne­nhum as­pecto.

Cor­reio da Ci­da­dania: Mas por que os go­vernos su­pos­ta­mente pro­gres­sistas cri­aram as con­di­ções de re­torno dos go­vernos pu­ra­mente ne­o­li­be­rais, acom­pa­nhados de amplo rancor so­cial e até cul­tural que em al­guns casos re­mete até ao fas­cismo de ou­tros tempos? 

Fábio Luís Bar­bosa dos Santos: A questão fun­da­mental é que tais go­vernos não en­fren­taram os pro­blemas his­tó­ricos da so­ci­e­dade sul-ame­ri­cana. Op­taram pela linha de menor re­sis­tência. No caso bra­si­leiro, a pro­posta das ges­tões do PT foi con­ci­liar ca­pital e tra­balho. Ou seja, avanços para o campo do tra­balho até o li­mite em que não im­pli­cassem em con­ces­sões do campo do ca­pital.

Na po­lí­tica de in­te­gração sul-ame­ri­cana, a pers­pec­tiva bra­si­leira foi con­ci­liar so­be­rania e im­pe­ri­a­lismo. Vimos avanços na so­be­rania do con­ti­nente, como na cri­ação da Unasul, mas até o ponto de não con­tra­dizer os in­te­resses dos EUA.

Na me­dida em que não se en­frentam os pro­blemas his­tó­ricos e suas causas es­tru­tu­rais, é im­pos­sível re­solvê-los. Ao não re­solvê-los, voltam, em muitos casos com in­ten­si­dade maior. Pri­meiro porque neste pro­cesso se des­pres­ti­giou aquilo que o povo en­tende por es­querda. Em se­gundo lugar porque em casos como o bra­si­leiro e al­guns ou­tros o per­curso de chegar ao go­verno e lá se manter, com as con­ces­sões que foram feitas para “os de cima”, im­pli­caram, por outro lado, no apas­si­va­mento dos “de baixo”.

O que al­guns cha­maram de modo lu­lista de re­gu­lação do con­flito so­cial en­volveu o apas­si­va­mento das or­ga­ni­za­ções po­pu­lares. O que de­vemos ava­liar é como se es­go­taram as con­di­ções para a ma­nu­tenção dessas si­tu­a­ções, em que a am­bição de con­ci­liar opostos se es­gota e traz um con­ser­va­do­rismo mais forte.

A si­tu­ação in­ter­na­ci­onal se agrava, com a crise es­tru­tural do ca­pi­ta­lismo, que marca me­didas mais in­tensas contra os tra­ba­lha­dores. Ao mesmo tempo, esse campo po­pular, do tra­balho, está fra­gi­li­zado. No caso bra­si­leiro, de­vemos en­tender que o PT teve uma po­lí­tica que des­mo­bi­lizou, ali­enou e apas­sivou os se­tores po­pu­lares.

E por quê? Con­fundiu porque abraçou pro­grama e prá­ticas da di­reita, fa­zendo-se passar por es­querda. Apas­sivou porque en­volveu se­tores po­pu­lares na gestão pú­blica, mas não para re­a­lizar as ban­deiras his­tó­ricas das or­ga­ni­za­ções po­pu­lares, e sim neu­tra­lizar tais mo­vi­mentos. Ali­enou porque pro­moveu o con­sumo como so­lução para pro­blemas so­ciais; con­sumo que é uma via in­di­vi­dual, não co­le­tiva, e que tende a mer­can­ti­lizar o que deve ser en­ten­dido como di­reito.

Em tais cir­cuns­tân­cias, em que por um lado se de­bi­lita o campo po­pular, for­ta­le­ceram-se todos os seg­mentos que cos­tumam en­frentá-los. Por exemplo, o agro­ne­gócio, o ca­pital fi­nan­ceiro, os par­tidos con­ser­va­dores, o ne­o­pen­te­cos­ta­lismo, todos foram for­ta­le­cidos pelas ges­tões do PT. E po­demos es­tender esse ra­ci­o­cínio pelos países da Amé­rica do Sul.

O PT não é ví­tima, mas cor­res­pon­sável, em todos os as­pectos. Man­teve in­to­cável o poder das grandes cor­po­ra­ções de co­mu­ni­cação e nunca fo­mentou ca­nais al­ter­na­tivos se­ri­a­mente. Deram muito anúncio e ca­rinho pra Globo, Veja e si­mi­lares. In­cor­porou as ideias e serviu aos pro­pó­sitos da Lei de Res­pon­sa­bi­li­dade Fiscal, à qual o par­tido foi his­to­ri­ca­mente contra, in­clu­sive quando o go­verno FHC a aprovou, e que serviu, há pouco, para depor Dilma.

Também pra­ticou a com­bi­nação entre co­op­tação ou re­pressão aos mo­vi­mentos po­pu­lares, basta ver a lei an­ti­ter­ro­rismo pro­mul­gada por Dilma, como des­do­bra­mento evi­dente das ma­ni­fes­ta­ções de junho de 2013. Também porque fez do lo­daçal da po­lí­tica par­la­mentar sua base, ja­mais o povo ou a es­querda. E foi neste lo­daçal que tentou ne­go­ciar até o úl­timo mo­mento sua sal­vação, sempre na vil moeda da po­lí­tica mer­cantil.

Se for pa­ro­diar o dito de Ro­o­se­velt sobre So­moza, o di­tador da Ni­ca­rágua – “pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta” -, Temer foi esse su­jeito para o PT. E não é ver­dade que não foi eleito. Foi eleito como vice, assim como Jango e Itamar.

Por­tanto, o re­sul­tado de tal po­lí­tica foi a de­si­lusão do povo com um par­tido e um pro­jeto iden­ti­fi­cado com a es­querda, o que por sua vez re­força o cre­ti­nismo par­la­mentar, ex­pres­sado nas elei­ções re­centes, tanto no alto ín­dice de abs­tenção como através de vi­tó­rias como de Cri­vella no Rio de Ja­neiro e Doria, o novo CEO de São Paulo.

Ao mesmo tempo em que o preço pra ficar no poder foi de­bi­litar e neu­tra­lizar o po­ten­cial de rei­vin­di­cação e pro­testo autô­nomos do campo po­pular for­ta­le­ceram-se todos os ele­mentos da po­lí­tica, da eco­nomia e da so­ci­e­dade con­ser­va­dora que agora de­vemos en­frentar, porém, mais en­fra­que­cidos de nossa parte.

Cor­reio da Ci­da­dania: Ainda nesse sen­tido, o que você co­menta da tra­je­tória e do go­verno de Ni­colas Ma­duro, tendo como re­fe­rência o pró­prio pro­jeto cha­vista em sua gê­nese?

Fábio Luís Bar­bosa dos Santos: No arco desses go­vernos, a ex­pe­ri­ência ve­ne­zu­e­lana foi a mais di­fe­rente. Con­fron­tada com a re­ação das oli­gar­quias – ex­pres­sada pri­meiro no golpe de 11/04/2002 se­guida de lo­caute que pa­ra­lisou a pro­dução pe­tro­leira e der­rubou o PIB – a pe­cu­li­a­ri­dade é a ra­di­ca­li­zação do pro­cesso.

Quando der­ro­tado o lo­caute pa­tronal, coin­cide-se com Lula e Kir­chner as­su­mindo o poder, o que enche de novas pers­pec­tivas o pro­cesso bo­li­va­riano e faz Chávez adotar nova re­tó­rica, iden­ti­fi­cada com o so­ci­a­lismo. E também prá­tica, a fim de su­perar as de­bi­li­dades ini­ciais do cha­vismo. A questão fun­da­mental é que não havia base so­cial or­gâ­nica. A Ve­ne­zuela sempre foi uma so­ci­e­dade ren­tista, sem tra­dição de mo­vi­mentos so­ciais, par­tidos or­ga­ni­zados etc.

Foi de­pois disso que se evo­luiu para a ideia do Es­tado co­munal, uma ideia de poder po­pular e pa­ra­lelo ao Es­tado. Como o pro­cesso bo­li­vi­a­riano sempre es­teve em dis­puta, tal ini­ci­a­tiva in­clu­sive nunca foi unâ­nime dentro do pró­prio pro­cesso. Tanto que a única der­rota elei­toral que Chávez so­freu – o ple­bis­cito 2008 – era vol­tada a esse as­pecto, de ra­di­ca­lizar o poder co­munal. E al­guns de seus ex­po­entes não es­tavam dis­postos a tal avanço. Um pre­feito de uma ci­dade como Lara não tem in­te­resse em fo­mentar um poder al­ter­na­tivo ao seu.

Enfim, em minha lei­tura a Ve­ne­zuela foi onde mais se am­bi­ci­onou, com muitas con­tra­di­ções e di­fi­cul­dades, al­gumas her­dadas, ou­tras re­pro­du­zidas. A pró­pria Alba (Ali­ança Bo­li­va­riana para os Povos da Nossa Amé­rica) é exemplo, com seus pró­prios li­mites e pro­blemas. Só de se aliar com Cuba, que há dé­cadas faz di­fe­rente, de­fende so­be­rania e igual­dade com grandes di­fi­cul­dades, já é um sin­toma disso. A Ve­ne­zuela penou no ce­nário re­gi­onal porque nunca contou com a so­li­da­ri­e­dade dos go­vernos vi­zi­nhos, a não ser mer­cantil. O Brasil, por exemplo, ofe­receu bons ne­gó­cios, mas isso é di­fe­rente de um pro­jeto he­gemô­nico – ou contra-he­gemô­nico.

A pró­pria Unasul, se é po­si­tiva pela uni­dade do con­ti­nente e sub­con­ti­nente, também serviu pra neu­tra­lizar a Alba. A Ve­ne­zuela não teve, di­gamos, um campo aberto para ex­plorar a di­ver­si­fi­cação econô­mica e si­ner­gias que po­de­riam re­sultar de uma in­te­gração re­gi­onal pau­tada por ou­tros va­lores. E penso que o Brasil e o ca­ráter con­ser­vador da po­lí­tica re­gi­onal pe­tista con­tri­buíram.

Posto tudo isso, o re­sul­tado de tais im­passes é que a Ve­ne­zuela não con­se­guiu su­perar a de­pen­dência da renda do pe­tróleo. No mo­mento em que o Es­tado gastou muito no úl­timo es­forço elei­toral do Chávez antes de sua morte, ao lado da queda dos preços do pe­tróleo, vol­taram as pres­sões que ca­rac­te­rizam eco­no­mias sub­de­sen­vol­vidas, no caso do país com pressão in­fla­ci­o­nária e de­sa­juste cam­bial.

Re­sumo da ópera: o des­com­passo entre o câmbio ofi­cial e pa­ra­lelo gerou pres­sões es­pe­cu­la­tivas, o que re­sultou na vida das pes­soas a ne­ces­si­dade de obter dó­lares pra so­bre­viver, por­tanto, al­ter­na­tivas ao seu meio de tra­balho cor­ri­queiro. Ganha mais di­nheiro o cara que enche o tanque de ga­so­lina e vai na fron­teira fazer o trá­fico do que o pro­fessor.

A re­ação do Ma­duro a tais pro­blemas é, na minha in­ter­pre­tação, a de re­cusar os ca­mi­nhos tra­di­ci­o­nais do ajuste. Num se­gundo mo­mento – pre­sumo, pois não acom­panho em cima – a si­tu­ação passou a ser muito pro­ble­má­tica do ponto de vista po­pular, de­mo­crá­tico e também das es­co­lhas econô­micas.

Cor­reio da Ci­da­dania: Para além das aná­lises so­ci­o­e­conô­micas, po­demos en­carar a ideia, a essa al­tura, de que o selo “onda pro­gres­sista” e sua in­te­gração re­gi­onal foram mais uma abs­tração ide­o­ló­gica, com o tempo re­for­çada por aná­lises ufa­nistas e bons re­sul­tados em termos prag­má­ticos, mas que deixou em falta um pro­jeto eman­ci­pa­tório mais con­creto?

Fábio Luís Bar­bosa dos Santos: Faltou en­frentar a raiz dos pro­blemas, na di­mensão es­tru­tural. O Brasil, a Bo­lívia, Equador, Uru­guai, Pa­ra­guai, enfim, todos os países iden­ti­fi­cados com o pro­cesso, ex­ceto a já ci­tada Ve­ne­zuela, apos­taram numa tí­mida re­dis­tri­buição da renda, na me­lhor das hi­pó­teses.

Mesmo na Ve­ne­zuela, o que de­sen­ca­deou a ten­ta­tiva de golpe em 2002? A apro­pri­ação es­tatal da renda pe­tro­leira e re­cu­pe­ração da ca­pa­ci­dade dis­tri­bu­tiva. Mas ao não se pro­mover a mu­dança es­tru­tural, o vín­culo dos povos com tais pro­cessos man­teve na­tu­reza vo­látil, a flu­tuar ao sabor das con­jun­turas po­lí­ticas e econô­micas. Porque ne­nhum dos pro­cessos se pre­o­cupou em cons­truir cor­re­lação de forças pra mo­di­ficar o Es­tado ou mudar a pró­pria es­tru­tura da so­ci­e­dade.

Penso como pano de fundo a si­tu­ação cu­bana. Nos anos 90, a União So­vié­tica tinha aca­bado de sumir, e o co­mércio in­ter­na­ci­onal do país de­sabou, o PIB caiu 35% em poucos anos; o país, que tinha alto pa­drão so­cial, passou fome, en­quanto todos os países do bloco so­ci­a­lista foram caindo. E, no en­tanto, Cuba atra­vessou, numa di­fi­cul­dade in­fi­ni­ta­mente maior.

Isso se deve ao fato de Cuba ter na raiz uma re­vo­lução, ali­cer­çada em dois va­lores: igual­dade e so­be­rania. Sem querer ide­a­lizar a re­vo­lução cu­bana, que tem e teve di­versos pro­blemas, in­clu­sive vá­rios as­so­ci­ados à apro­xi­mação total com os so­vié­ticos: mas lá se cons­truiu e re­forçou no povo a noção de que so­be­rania e igual­dade são di­reitos e con­quistas ina­li­e­ná­veis de todos.

De modo que quando con­fron­tado com as al­ter­na­tivas apre­sen­tadas nos anos 90 – con­du­zido por uma di­reção vista como ín­tegra, com­pro­me­tida com os va­lores da re­vo­lução – o povo apertou os cintos e atra­vessou. Porque o povo faz sa­cri­fício quando en­tende o sen­tido desse sa­cri­fício. Mas tal sen­tido pre­cisa ser cons­truído his­to­ri­ca­mente.

E qual a re­tó­rica de todos os go­vernos pe­tistas? É a do con­sumo. Se a pro­messa é sempre con­sumir mais, qual a re­fe­rência de pa­drão ci­vi­li­za­tório? Miami. Na Amé­rica La­tina, como Celso Fur­tado e ou­tros mos­traram, tal pa­drão só se sus­tenta por meio do pri­vi­légio. A outra face desse pri­vi­légio é a po­breza, mi­séria, ex­clusão. Os go­vernos lu­listas apos­taram na re­tó­rica do con­sumo, re­fe­ren­ciada numa so­fis­ti­cação dos pa­drões de con­sumo, que nem pre­param nem po­li­tizam o povo para as con­di­ções da mu­dança so­cial e a busca pela igual­dade.

Cor­reio da Ci­da­dania: Faltou um es­pí­rito ex­trains­ti­tu­ci­onal, pra não dizer re­vo­lu­ci­o­nário, em todo o con­ti­nente, para manter o ho­ri­zonte em pé na hora da tem­pes­tade.

Fábio Luís Bar­bosa dos Santos: Por exemplo: o Bolsa Fa­mília. Os pe­tistas adoram falar que tirou não sei quantos mi­lhões da po­breza, da mi­séria e os mais em­pol­gados dirão que se criou uma nova classe média, classe C etc.

Porém, em 13 anos de ges­tões nunca foi ins­ti­tu­ci­o­na­li­zado como po­lí­tica de Es­tado, isto é, con­ver­tido em di­reito. Por­tanto, é muito di­fe­rente uma po­lí­tica so­cial, que en­tenda a renda mí­nima como um di­reito, de uma po­lí­tica as­sis­ten­ci­a­lista con­di­ci­o­nada a cum­pri­mento de al­guns re­qui­sitos, que be­ne­ficia mais ou menos pro­vi­so­ri­a­mente uma ca­mada da po­pu­lação.

O livro do André Singer – Os sen­tidos do lu­lismo – di­ag­nos­ticou que os se­tores mais po­bres do país são con­ser­va­dores, se iden­ti­ficam mais com va­lores de di­reita que de es­querda, ainda que acre­ditem que o Es­tado deva ajudar os mais po­bres. Mas eles se­riam contra qual­quer me­dida de rup­tura. Penso que o PT go­vernou de acordo com esse di­ag­nós­tico, que é uma si­tu­ação pro­duto de uma so­ci­e­dade mas­sa­crada por essa ide­o­logia. E assim ab­dicou de cons­truir ou­tros va­lores, opostos.

São três as­pectos im­por­tantes:

1) Po­lí­ticas re­fletem di­reitos, não são oca­si­o­nais, con­jun­tu­rais; 2) sem rup­turas pro­fundas, que na his­tória são vi­o­lentas, não há mu­dança subs­tan­tiva; 3) o Es­tado em de­fesa do povo bra­si­leiro pre­cisa ga­rantir so­be­rania e igual­dade, mas isso im­plica en­frentar o pri­vi­légio e o im­pério.

Não dá pra con­ci­liar Ca­pital x Tra­balho, não dá pra manter pri­vi­légio e com­bater a de­si­gual­dade, assim como não dá pra de­fender so­be­rania e manter re­la­ções mais que amis­tosas, mas de com­ple­men­ta­ri­dade, com os EUA. Os go­vernos pe­tistas não ti­veram o ho­ri­zonte de cons­truir ou­tras cor­re­la­ções de força e va­lores al­ter­na­tivos.

O PT no poder cen­tral foi pela linha do menor es­forço. Do ponto de vista econô­mico, isso im­plicou em po­lí­ticas que ata­caram a dis­tri­buição, não a pro­dução. Do ponto de vista da cul­tura po­lí­tica e mo­bi­li­zação, re­forçou os va­lores da so­ci­e­dade bra­si­leira que eles en­con­traram, ao invés de cons­truir novos. O povo pensa assim porque é for­mado pela Rede Globo. Pre­ci­samos de um povo for­mado por ou­tras ideias.

Eles apoi­aram o Cor­reio da Ci­da­dania? Eles apoi­aram, por exemplo, a Te­lesur, ini­ci­a­tiva da Ve­ne­zuela de criar uma TV com outra nar­ra­tiva de mundo? O Brasil é o único desses países ditos pro­gres­sistas que deu as costas para a Te­lesur. Per­gunte pra quem fez parte do go­verno PT ou o apoiava porque não fo­men­taram a emis­sora. Vão dizer que não sabem, mas temos uma hi­pó­tese: in­fe­liz­mente, o Brasil via as po­lí­ticas saídas de lá como con­cor­rentes, não como par­ceiras de um pro­jeto contra-he­gemô­nico na Amé­rica do Sul.

Por­tanto, ini­ci­a­tivas como Banco do Sul, Alba, Te­lesur, com po­ten­cial mais ra­dical, foram boi­co­tadas pelo Brasil, neu­tra­li­zando seu al­cance. Afinal, trata-se de me­tade da Amé­rica do Sul.

Cor­reio da Ci­da­dania: Fi­na­li­zando, qual sua visão do Equador, que acaba de eleger, por pouca margem, Lenin Mo­reno, dando sequência ao pro­cesso li­de­rado por Ra­fael Correa, cha­mado de Re­vo­lução Ci­dadã?

Fábio Luís Bar­bosa dos Santos: O can­di­dato ven­cedor não deve ser iden­ti­fi­cado à es­querda. Por que, tal como o go­verno de Evo Mo­rales, o cor­reísmo tem ado­tado sis­te­má­tica pos­tura de per­se­guição e re­pressão aos mo­vi­mentos so­ciais e po­pu­lares, ao mesmo tempo em que es­ti­mula o cha­mado ex­tra­ti­vismo, a ex­por­tação de pro­dutos pri­má­rios, com todas as con­sequên­cias agres­sivas ao meio am­bi­ente e modos de vida in­dí­genas im­pli­cados por tais ati­vi­dades.

Por isso, diga-se, o Evo perdeu o ple­bis­cito feito no ano pas­sado que rei­vin­di­cava um quarto man­dato. E não foi porque a di­reita o der­rotou, mas porque sua base so­cial está fra­tu­rada. Mi­li­tantes de es­querda, autô­nomos e se­tores com­pro­me­tidos com a mu­dança di­mi­nuíram seu apoio.

Não é um ce­nário que apre­senta muita es­pe­rança para quem acre­dita em mu­danças de fundo na Amé­rica do Sul. A lição fun­da­mental que de­vemos tirar da cha­mada onda pro­gres­sista é que o es­paço para a mu­dança dentro da ordem na Amé­rica La­tina é exíguo, muito pe­queno. A boa in­tenção não é o bas­tante. É in­di­fe­rente se o Lula queria fazer a re­forma agrária ou não, mas se pac­tuou com os la­ti­fun­diá­rios não vai fazer re­forma agrária.

A lição prin­cipal é que as es­tra­té­gias e ca­mi­nhos tra­çados pelos par­tidos foram su­fi­ci­entes para chegar à pre­si­dência de vá­rios países, num con­texto de forte con­tes­tação ao ne­o­li­be­ra­lismo. No en­tanto, in­su­fi­ci­entes para mudar os países. Para mudá-los é pre­ciso uma cor­re­lação de força, prá­ticas, pro­gramas e va­lores di­fe­rentes das ex­pe­ri­ên­cias que agora se en­cerram.

Em poucas pa­la­vras: a bur­guesia tem uma agenda, do ajuste es­tru­tural. Tem or­ga­ni­za­ções, como o par­la­mento, a mídia, o ju­di­ciário, a po­lícia. Tem mé­todo, que é o do medo, como do de­sem­prego e da re­pressão. E tem os va­lores, que são os do ca­pi­ta­lismo, do ne­o­li­be­ra­lismo.

A es­querda tem de cons­truir outra coisa, oposta. Tem de ser contra a agenda do ajuste, não basta o Fora Temer, porque o banco de re­serva do Temer está cheio, in­clu­sive o Lula está lá, sen­tado na pon­tinha. É pre­ciso co­locar a ri­queza do tra­balho a ser­viço da po­pu­lação, o que sin­te­tiza o con­teúdo do que seria uma “Re­vo­lução Bra­si­leira”. São ne­ces­sá­rias or­ga­ni­za­ções que com­binem a luta dentro da ordem e contra a ordem. É pre­ciso múl­ti­plas or­ga­ni­za­ções para fazer isso. A ocu­pação das es­colas é um exemplo, mas pra mul­ti­plicar a ex­pe­ri­ência e mudar a cor­re­lação de forças é pre­ciso ocupar o país. E é pre­ciso fo­mentar va­lores al­ter­na­tivos, de so­li­da­ri­e­dade e igual­dade subs­tan­tiva. Pre­ci­samos ter uma cul­tura de es­querda di­fe­rente.

Fi­na­lizo, para me re­ferir ao caso bra­si­leiro, mas que pode ser en­ten­dido a ou­tros, com um re­frão do Emi­cida: “sobre as chances, é bom vê-las, às vezes se perde o te­lhado para ga­nhar as es­trelas”. Nesse mo­mento, tem muita gente olhando o te­lhado. Pra quem se iden­ti­fica com o PT, a casa caiu, para quem tem como re­fe­rência a mu­dança ne­ces­sária, tem-se nova opor­tu­ni­dade de olhar as es­trelas.
http://www.correiocidadania.com.br/internacional/30-america-latina/12496-todos-os-governos-progressistas-da-america-do-sul-evitaram-as-mudancas-estruturais



Ga­briel Brito é jor­na­lista e editor do Cor­reio da Ci­da­dania; Ma­tias Pinto é his­to­ri­ador e co­la­bo­rador da we­brádio Cen­tral

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