3 de ago de 2017

Aos 20 anos, o que comemora um jovem negro? . - Editor - Se não estiver preso, a maioria está sem perspectiva. Mas comemorar pouco, pois o GOLPE DOS CORRUPTOS TIROU DOS JOVENS, OPORTUNIDADES IMPLEMENTADAS DESDE 2003. 51%, DA POPULAÇÃO É NEGRA. A PERGUNTA QUE SE FAZ É - QUANDO VÃO TOMAR CONTA DA SUA PARTICIPAÇÃO NOS DESTINOS DO PAÍS. AS MÃOS NEGRAS QUE ENGRANDECERAM ESSE PAÍS, PODEM NAS URNAS FAZER METADE DOS COMPONENTES DO SENADO, DA CAMARA FEDERAL, DAS ASSEMBLEIAS LEGISLATIVAS E DAS CAMARAS MUNICIPAIS, ALÉM DO PRESIDENTE OU PRESIDENTA DE REPÚBLICA, GOVERNADORES-AS- E PREFEITOS-AS-. É SÓ QUEREREM, AS ARMAS ESTÃO NAS MÃOS DE CADA UM E CADA UMA, NAS URNAS, DANDO UM BASTA NO DOMINIO DA MINORIA. CHEGA DE SOFRIMENTO. É HORA DA VIRADA DEMOCRÁTICA.

Aos 20 anos, o que comemora um jovem negro?
Quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Aos 20 anos, o que comemora um jovem negro?

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Completar um aniversário, especialmente quando se é jovem, é um momento que costuma ser alegre, traduz as realizações do último ano e marca a esperança que se aponta para o próximo período, os sonhos a serem alcançados e o futuro que nos aguarda. Não se engane, quando digo geralmente alegre, refiro-me ao fato de que a esperança, o sonho e o futuro são palavras vagas para boa parte de nossa juventude, a quem é negado o direito de conhecer os conceitos por trás desses termos.
No Brasil, de 2005 a 2015, 318 mil jovens foram assassinados. 2.650 por mês. 88 por dia. 3 por hora. Em média, 1 a cada 16 minutos. Segundo essa estatística, enquanto lemos esse texto e tomamos um café, mais um adolescente será vítima de homicídio em nosso país. Esta é a realidade que nos mostra o Atlas da Violência[1]; publicação do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de junho de 2017, em que foram analisados os dados dos homicídios praticados no Brasil até 2015, cruzando as informações do Ministério da Saúde e do Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Ainda de acordo com os registros oficiais, 47,8% dos jovens de 15 a 29 anos que morreram em 2015 foram vítimas de homicídio. Se selecionarmos a faixa etária de maior risco segundo os pesquisadores, os garotos dos 15 aos 19 anos, esse índice sobe para 53,8% das mortes contabilizadas, um verdadeiro cenário de guerra. E é nesse ponto que devemos nos perguntar: qual a guerra estamos lutando? Ou para qual guerra estamos enviando nossos filhos?
A resposta para essas perguntas não parece ser apenas uma, mais acertado é entender a mortalidade daqueles que mal chegaram à idade adulta como a união de alguns fatores, dentre os quais merecem destaque a guerra às drogas, a violência policial e a criminalização da pobreza, todos diretamente relacionados e com um denominador comum: o racismo. É impossível não associar esses três fenômenos a um delineado recorte racial, tendo em vista que a incidência dos três tem um comprovado e especial impacto sobre o povo preto.
A guerra às drogas vem encarcerando seletivamente, dando carta brancapara a Polícia violar comunidades, residências e corpos; o Estado e a opinião pública cada vez mais condenam a pobreza e a fome, decretando a pena de morte nas ruas: pela bala do policial, pela água sobre o desabrigado ou pelas mãos da classe média que nos amarram aos postes. Ser negro no Brasil sempre foi considerado crime e aos capitães do mato foi dada a licença de caça, a nós sempre foi reservada a favela, a sarjeta e a miséria; o pano de fundo dos homicídios descritos acima.
Vejam só, segundo os mesmos especialistas, “de cada 100 pessoas que sofrem homicídio no Brasil, 71 são negras”. Esse dado significa dizer “que o cidadão negro possui chances 23,5% maiores de sofrer assassinato em relação a cidadãos de outras raças/cores, já descontado o efeito da idade, sexo, escolaridade, estado civil e bairro de residência”[2].
Trocando em miúdos: independente do cenário ou do algoz, quem morre tem raça certa.
Qual seria então a solução para esse absurdo extermínio de nossa juventude negra e periférica? Para alguns, a saída para toda a violência que faz jorrar sangue pelos bueiros de nossas cidades é armar a população ainda mais. É o que prevê, por exemplo, o PL 7282/2014 em tramitação na Câmara dos Deputados, que facilita a compra e o porte de armas e munições e cuja autoria é atribuída a Jair Bolsonaro.
No entanto, se nos debruçarmos mais uma vez às estatísticas, encontraremos que o Brasil ostenta uma posição de destaque nas mortes por armas de fogo (AF), números recordes que se comparam a países sob conflitos bélicos históricos. Novamente, a perspectiva é ainda pior para a nossa juventude, já que “pode ser vista a enorme concentração de mortalidade nas idades jovens, com pico nos 20 anos de idade, quando os homicídios por AF atingem a impressionante marca de 67,4 mortes por 100 mil jovens”.[3]
Assim, resta óbvio que os que defendem esse tipo de medida ignoram a realidade ou mesmo tentam encobri-la por motivos espúrios, outros quaisquer que não sejam o interesse público, tendo em vista que bastaria uma breve consulta ao Mapa da Violência de 2016 para concluir que as balas estão sendo descarregadas aos montes nas nossas costas, da juventude preta e pobre. Afinal, se “morrem, proporcionalmente, 71,7% mais negros que brancos”[4] por armas de fogo no Brasil, não parece sensato que mais armas possam ter qualquer outro impacto nessa estatística que não seja o aumento da violência racial.
O que nos interessa não é nada senão a chance de sonhar, de sorrir, de ir para casa e voltar seguros sem sermos abordados por uma viatura ou termos dedos em riste apontados para nós. Há séculos lutamos pelo básico direito de viver, e ele ainda há de ser conquistado!
Aos 20 anos, uns comemoram mais um ano de vida, mas nós somos capazes de comemorar apenas mais um ano em que não fomos mortos.
Marco Aurélio Barreto Lima é estudante de Direito da PUC-SP, negro, pobre e prounista. Assistente de Pesquisa do Projeto Estado e Sociedade Civil. Gestão do Centro Acadêmico 22 de Agosto da Faculdade de Direito da PUC-SP.

[1] CERQUEIRA, D., Lima, R. S. D, Bueno, S., Valencia, L. I., Hanashiro, O., Machado, P. H. G., &Lima, A. D. S. (2017). Atlas da Violência 2017. IPEA e FBSP. Rio de Janeiro. 2017.
[2] CERQUEIRA, D e COELHO, D. (2017). Democracia Racial e Homicídios de Jovens Negros na Cidade Partida. TD 2267 – IPEA, Brasília, Janeiro de 2017.
[3] WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da violência: Homicídios por armas de fogo no Brasil. pg 51. São Paulo. 2016.
[4] WAISELFISZ. pg 60.
http://justificando.cartacapital.com.br/2017/08/02/aos-20-anos-o-que-comemora-um-jovem-negro/

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