14 de set de 2015

O ESTADO EMPREENDEDOR de Mariana Mazzucato - Resenha de Osvaldo Euclides


livro o estado empreenddor


A IMPORTANCIA DO LIVRO
Os economistas e os jornalistas costumam dizer e repetir que o Estado deve afastar-se de tudo o que o mercado pode fazer, que o mercado pode fazer tudo bem melhor que o Estado, e que a este Estado só cabe atuar em duas situações: 1. para corrigir ou compensar eventuais falhas do mercado; 2. para agir quando o rendimento social for maior que o lucro privado. Os economistas chegam a dizer que a ação do Estado é sempre ineficiente e paralisante. A historia e os fatos não mostram nada disso.
O livro O ESTADO EMPREENDEDOR, de Mariana Mazzucato, tem a clara e explícita intenção de desmascarar esse juízo, que a autora chama de mito. Usando dados e fatos recentes e expressivos da mais avançada e moderna economia do mundo, a dos Estados Unidos da America, a obra apresenta em diversos setores a ação empreendedora do Estado, que, não raro, chegou à sociedade como se fosse mérito de empresários.
CIRCUNSTANCIAS
A autora do livro, que é consultora do governo do Reino Unido, fez para seu cliente um relatório de avaliação sobre o Estado Empreendedor. Nele, a autora propôs que, em vez de cortar gastos e reduzir programas de apoio e estímulo (em nome de uma economia mais competitiva), o governo tivesse efetivamente uma ação empreendedora e inovadora. O livro é a versão ampliada e aprofundada deste relatório.


A AUTORA


Mariana Mazzucato (ph.D) é a titular da prestigiosa cadeira RM Phillips de Economia da Inovação no departamento de pesquisa em Ciência Política da Universidade de Sussex (Reino Unido). Ela presta consultoria para o governo britânico sobre crescimento estimulado por inovação. Nasceu em Roma, na Italia, e vive em Londres com seus quatro filhos, conforme a orelha do livro.
A PUBLICAÇÃO
O livro O ESTADO EMPREENDEDOR – desmascarando o mito do setor publico vs. Setor privado, de autoria de Mariana Mazzucato, foi publicado no Brasil pela editora Portfolio-Penguin (uma divisão da Editora Schwarcz) em 2014, com 314 páginas. A publicação original na Inglaterra aconteceu um ano antes.
BONS MOMENTOS
1. Assim como a California e o Texas se apropriaram do Mexico através da imagem propositalmente fabricada do “mexicano preguiçoso” debaixo de uma palmeira, o Estado tem sido atacado e crescentemente desmontado por meio de imagens do seu caráter burocrático, paralisante, pesadão.
2. O Estado … “tolamente” desenvolvendo inovações? Sim, a maioria das inovações radicais, revolucionarias, que alimentaram a dinâmica do capitalismo – das ferrovias à internet, até a nanotecnologia e farmacêutica modernas – aponta para o Estado na origem dos investimentos “empreendedores” mais corajosos, incipientes e de capital intensivo.
3. O Estado não é nem um intruso nem um mero facilitador do crescimento econômico. É um parceiro fundamental do setor privado – e em geral mais ousado, disposto a assumir riscos que as empresas não assumem. O Estado não pode e não deve se curvar facilmente a grupos de interesse que se aproximam dele em busca de doações, rendas e privilégios desnecessários, como cortes de impostos.
4. Em muitos casos, investimentos públicos se transformaram em entrega de negócios, enriquecendo indivíduos e suas empresas, mas oferecendo pequeno (direto ou indireto) retorno para a economia ou para o Estado. Isso fica mais evidente no caso da indústria farmacêutica, em que medicamentos financiados com dinheiro público acabam ficando caros demais para os contribuintes (que os financiaram). Isso também se aplica ao caso da TI (tecnologia da informação), em que os investimentos de alto risco do Estado alimentaram os lucros privados, que depois ficam protegidos e deixam de pagar impostos ao governo que os estimulou.
5. A família de produtos da Apple trouxe grande sucesso para a empresa, mas o que permanece relativamente desconhecido do consumidor médio e que as tecnologias básicas incorporadas aos produtos inovadores da Apple são na verdade resultado de décadas de apoio federal em inovação. Embora os produtos devam seu belo design e integração ágil ao gênio de Steve Jobs e sua grande equipe, praticamente toda a tecnologia de ponta encontrada no iPod, iPhone e iPad e uma conquista muitas vezes esquecida e ignorada dos esforços de pesquisa e apoio financeiro do governo e das Forcas Armadas.
6. A Apple utilizou praticas que resultaram em resultado fiscal muito mais baixo para os Estados Unidos. Também decidiu espalhar suas atividades de P&D (pesquisa e desenvolvimento) e fabricacao pelo mundo, deixando muito pouco para seu pais de origem alem de empregos mal remunerados no varejo em sua rede de lojas.
7. Os pesquisadores militares recebem uma “incumbência” clara que precisam cumprir sem se preocupar muito ou quase nada com os custos, já que o governo “não se importa” com preços e pode agir como o líder em aquisição de inovação…Os Estados Unidos adotaram uma abordagem do tipo “financiar tudo” com a esperança de que mais cedo ou mais tarde surjam tecnologias energéticas inovadoras e economicamente viáveis.

CURTAS
1. Os Estados Unidos, apontado como o mais representativo dos benefícios do “sistema de mercado livre”, tem um dos governos mais intervencionistas no que diz respeito a inovação.
2. Quando o Estado não se mostra confiante, o mais provável é que seja submetido e se curve aos interesses privados.
3. Sao os Estados mais fracos que (mais) cedem à retórica de que existe uma necessidade de diferentes tipos de cortes na carga tributaria e eliminação da burocracia.
4. É ingênuo e perigoso permitir que todos os benefícios sejam privatizados.
5. Enquanto o papel do setor privado tem sido super-dimensionado, o do setor público tem sido subestimado.
6. Do desenvolvimento da aviação, energia nuclear, computadores, internet, biotecnologia até a tecnologia verde atual, foi o Estado – e não o setor privado – quem deu o pontapé inicial e construiu o motor do crescimento…
7. Se a Apple declarasse metade do seu lucro nos Estados Unidos (e não apenas 30%) sua obrigação fiscal em 2011 teria sido 2,4 bilhões de dólares a mais.
O LIVRO
Mariana colocou na capa do seu livro as imagens de um gato e de um leão para ilustrar a discussão que se propõe a fazer. Ela pergunta qual deles é o Estado e qual deles representa o setor empresarial privado. E lembra a expressão do economista inglês John Maynard Keynes para a atitude empreendedora – “espirito animal”.
A autora foi contratada pelo governo inglês para analisar possíveis ações inovadoras para enfrentar a crise, como alternativas ao tradicional corte de gastos públicos. O relatório produziu tal impacto que ela resolveu aprofundar e completar as pesquisas, transformando-o em livro. No livro, ela usa muito mais os dados e fatos da economia e da sociedade norte-americana. Por exemplo, ela cita os esforços do governo durante décadas nas áreas de computadores e tecnologia da informação, bem como na área do desenvolvimento de novas alternativas de energia, ou ainda na farmacêutica moderna, todos amplamente aproveitados por empresas privadas.
A autora quebra o paradigma do Estado que apenas deve corrigir as falhas do mercado e propõe um Estado inovador e empreendedor, numa parceria mais inteligente com o setor privado
http://segundaopiniao.jor.br/resenha-o-estado-empreendedor-de-mariana-mazzucato/

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