9 de jun de 2016

IV Encontro Nacional de Agricultoras e agricultores experimentadores: Agora vai ser na 'tora' Editor o recado está dado, entenda quem quizer...


Esse é o recado do povo do semiárido, que está angustiado com o futuro: vai ser na porrada se inventarem de mexer nos nossos direitos. 

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Najar Tubino
Dani Bento
Aracaju (SE) – Mais de quatrocentas agricultoras e agricultores estão reunidos desde o último dia 6 no encontro, que é o último evento do governo Dilma Rousseff, porque faz parte do PLANAPO e conta com o apoio do MDA, MDS e BNDES e organização da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA). O clima é de angústia, para dizer o mínimo.  Os participantes desse encontro são um retrato das mudanças ocorridas no campo nos últimos 13 anos, com as políticas públicas implantadas nos governos Lula e Dilma. No caso do semiárido, região que envolve os noves estados nordestinos e mais o norte de Minas Gerais, as políticas tem por objetivo maior a convivência com o semiárido. Ou seja, o povo dessa região criou alternativas reais de vida no sertão, mesmo enfrentando secas cada vez maiores.

E os projetos Um milhão de cisternas e Uma terra duas águas, que até agora contavam com o apoio do governo federal e da Petrobras e do BNDES correm o risco de desaparecer do mapa. As mudanças implantadas também levam em conta o relacionamento do Estado com as organizações civis e os movimentos sociais. Aqui sertão as organizações reunidas pela ASA – são mais de três mil – executam os programas. Quer dizer, elas constroem, junto com as comunidades, as cisternas de consumo humano – de 16 mil litros – ou as de produção de alimentos e criação, como a calçadão de 52 mil litros. 

Associação de Mulheres premiada muitas vezes

E estas organizações estão demitindo equipes, como no caso da ASPTA, da Paraíba, do CETRA, do Ceará e de muitas outras. Equipes de seis, sete técnicos especializados, gente que estava executando os projeto de assistência técnica – ATER – e que tem pagamentos atrasados e não sabe como será o futuro. Por um lado a angústia, que ainda vai ser discutida durante o evento. No dia 7 saímos cedo da capital em direção ao sertão. Andamos 200 km até o município de Porto da Folha, onde conhecemos a experiência da Associação de Mulheres Resgatando a sua História e o trabalho do quintal produtivo da Maria Aparecida da Silva, na comunidade de Lagoa da Volta.


Cida, de 52 anos, cinco filhos, traduz a realidade atual do campo brasileiro, dos camponeses e camponesas, dos trabalhadores e trabalhadoras, da agricultura familiar. Ela é a própria mudança ocorrida no país, e lida muito bem com as provocações de racistas e reacionários que não gostam de ver pobres andando de avião. Ela anda seguidamente. Já entregou duas cestas de alimentos da agricultura familiar em mãos para Dilma Rousseff, em uma delas saiu como notícia no Jornal Nacional, quando o programa Bolsa Família completou 10 anos. Mas o trabalho da Associação de Mulheres já foi premiado muitas vezes.

Em 2013, 500 grupos no Brasil concorreram a um prêmio organizado pela Secretaria de Políticas Para as Mulheres da Presidência da República e 20 receberam o prêmio intitulado “Mulheres que Produzem o Brasil Sustentável”. Em 2015 receberam o prêmio Melhores Práticas, da Caixa Econômica Federal, disputado por 100 grupos e elas ficaram entre os 20 vencedores. Cida da Silva está presente, com sua história, em quatro livros, que ela exibe com orgulho no Sítio Verde, onde mantém o quintal produtivo mais organizado que já conheci. Em uma tarefa de terra – medida que em Sergipe equivale a 1/3 de um hectare – ela produz vários tipos de verduras, 35 espécies de plantas medicinais, 130 árvores frutíferas, dois galinheiros, seis ovelhas e um casal de bezerros.

Cida é o exemplo do novo Brasil rural

Cida foi voluntária da Pastoral da Criança durante 15 anos. Logo que chegou a Porto da Folha, onde vivem 16 comunidades rurais, a mortalidade infantil era altíssima. Um vizinho dela que trabalhava com madeira praticamente só produzia caixões para as crianças mortas. Passado esse tempo, a Pastoral conseguiu zerar a mortalidade infantil, logicamente, que em conjunto com as outras políticas públicas implantadas pelo governo federal e dos programas sociais. Hoje, uma das filhas de Cida é do MPA e está cursando faculdade. Outras duas cursaram o curso técnico de agroindústria e trabalham em um frigorífico do Mato Grosso.

Cida é vice-coordenadora da Associação das Mulheres e vai assumir o cargo de Secretária de Políticas Agrícolas do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras de Porto da Folha. Mesmo xingada pelo povo terminou o primeiro grau no município, numa sala de aula com crianças. E continuou estudando. Em 2013, uma equipe do programa Globo Rural fez uma matéria sobre o quintal produtivo de Cida. Ela estava com uma camiseta do Projeto Biodigestor – têm dois deles na propriedade -, que é bancado pela Petrobras. Eles aproveitam o esterco dos animais, colocam em um recipiente com água e armazenam o metano, que poder ser usado como gás de cozinha, como acontece na sua casa.

O cinegrafista pediu para ela trocar de camiseta

O cinegrafista da Globo pediu para ela trocar de camiseta, porque tinha o logotipo da Petrobras e a empresa esta muito queimada no Brasil. Ela respondeu:

“- Pode estar queimada para vocês e em outras regiões do Brasil, mas o projeto Biodigestor funciona e a gente defende ele”.

Cida trocou de camiseta e colocou uma da ASA. Pode parecer um detalhe, porém, este grupo de agricultoras e agricultores experimentadores – no caso dela, multiplicadora, porque ela é guardiã de sementes crioulas – é o que o Brasil tem de mais avançado em termos de tecnologia para lidar com o semiárido. Certamente é um modelo mundial, tanto que várias dessas experiências já foram contempladas com recursos da União Europeia – no caso da Associação de Mulheres, da Alemanha, por intermédio da Congregação Divina Providência. Há mais de 20 anos, esse povo vive se encontrando, trocando experiências e avançando na produção de alimentos saudáveis, sem usar veneno. Criando alternativas de comercialização, novos produtos, novas embalagens, economia solidária, novos relacionamentos com os consumidores, enfim, tudo isso traduzido no avanço da agroecologia, que gerou o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica e que nesta época deveria ter a segunda edição lançada, não fosse o golpe.

É preciso reconhecer também o trabalho do bispo dom José Brandão de Castro que incentivou a organização dos trabalhadores e trabalhadoras e dos camponeses e camponeses em na região. Hoje Sergipe tem cerca de 250 latifúndios, alguns, nem tão grandes. Mas eram 900 na década de 1970. E também conta com 26 plataformas de petróleo na costa.

Vai ser na tora

Enfim, chegamos na “tora”. Em meio a uma discussão na casa da Cida, onde participavam outras agricultoras, sobre a recorrente posição dos maridos de proibirem elas de viajarem para participar de eventos e dos movimentos sociais. Anatália, que representa o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras de Exú (PE) perguntou para Cida, como era o comportamento de Cláudio, seu marido. Ele nunca impôs empecilho para que ela estudasse, ao contrário do pai, que dizia: “mulher só serve na cozinha e para cuidar dos filhos”. Então, Anatália saiu com essa expressão, que volta e meia escuto nas discussões, aqui no nordeste:

“- Lá em casa foi na tora”.

Ou seja, na marra, como dizem os gaúchos. Aí outra companheira já emendou: lá em casa ele sempre dizia que eu não ia participar. Eu fazia a minha mala, e na hora dava um tchauzinho. Lucilene, de Minas Gerais, também contou a sua história: o marido não proibiu a viagem para Aracaju, mas perguntou se ela teria coragem de andar de avião, coisa que ela fez nesses dias. E é esse o recado do povo do semiárido, que está angustiado com o futuro, mas conhece muito bem o passado e a sua trajetória de luta pela sobrevivência, nas condições da caatinga, faça chuva, sol ou seca. Vai ser na tora, ou se quiserem, vai ser na porrada se inventarem de mexer nos nossos direitos.    Transcrito de cartamaior.com.br

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