27 de jul de 2016

Silenciar a América Enquanto se prepara a guerra por John Pielger

Silenciar a América
Enquanto se prepara a guerra
John Pielger*    05.Jun.16    Destaques
Ao contrário do que uma leitura apressada pode fazer crer, este texto de John Pielger não é uma manifestação de desespero, nem uma declaração de impotência perante a inevitabilidade de o próximo presidente dos EUA, seja ele qual for, continuar a política criminosa das anteriores administrações norte-americanas.
Do que verdadeiramente John Pielger nos fala é do longe caminho que a luta dos povos, povo norte-americano incluído, ainda tem para percorrer…
A ilusão sobre os candidatos do sistema à presidência dos EUA, como sucedeu até às lágrimas em 2008 com Obama, só pode atrasar a compreensão do momento e a capacidade de luta dos povos por um outro mundo possível…

De volta aos Estados-Unidos em ano de eleições, estou espantado pelo silêncio. Cobri quatro campanhas presidenciais desde 1968. Estive com Robert Kennedy quando foi atingido e vi o assassino preparar-se para o matar. Juntamente com o espumar de violência da polícia de Chicago na fraudulenta convenção do partido Democrático, foi o meu baptismo na via americana. Começava a grande contra-revolução.
O primeiro a ser assassinado nesse ano, Martin Luther King, tinha-se atrevido a ligar o sofrimento dos afro-americanos com o povo do Vietnam. Quando Janis Joplin cantou “A liberdade é apenas outra palavra para mais nada a perder”, falou talvez inconscientemente para milhões de vítimas da América em locais distantes.
“Perdemos 58.000 jovens soldados no Vietnam e eles morreram defendendo a nossa liberdade. Não esqueçamos isso hoje.” Assim dizia na semana passada um guia do Serviço dos Parques Nacionais no Monumento a Lincoln em Washington. Dirigia-se a uma reunião escolar de jovens adolescentes em camisa laranja-vivo. Como um autómato, converteu a verdade sobre o Vietnam numa mentira sem contraditório.
Os milhões de vietnamitas que morreram e foram estropiados, envenenados e desapossados pela invasão americana não têm lugar histórico na cabeça dos jovens, para não falar nos 60.000 veteranos de guerra que lhes tiraram a vida. A um amigo fuzileiro que ficou paraplégico no Vietnam perguntaram muitas vezes “De que lado combateste?”
Há alguns anos, assisti a uma exposição popular chamada “O Preço da Liberdade” na venerável Smithsonian Institution em Washington. As filas de gente vulgar, a maior parte crianças folheando textos revisionistas do mais primário, eram presenteadas com grande variedade de mentiras: o bombardeamento atómico de Hiroshima e Nagasaki salvou “um milhão de vidas”, o Iraque foi “libertado [por] ataques aéreos de precisão sem precedentes”. O tema era infalivelmente heróico: só os americanos pagam o preço da liberdade.
A campanha eleitoral de 2016 é notável não apenas pela subida de Donald Trump e Bernie Sanders, mas também pela resiliência do persistente silêncio sobre a sinistra e auto-investida divindade [que a América se considera]. Um terço dos membros das Nações Unidas já sentiram a bota de Washington, derrubando governos, subvertendo a democracia, impondo bloqueios e boicotes. A maior parte dos presidentes responsáveis eram liberais – Truman, Kennedy, Johnson, Carter, Clinton, Obama.
Esse avassalador record de maldade está de tal forma transformado na mente das pessoas que, conforme escreveu Harold Pinter, “isso jamais aconteceu… Nada nunca aconteceu. Mesmo quando estava a acontecer, não acontecia. Não interessava. Não tinha interesse. Não interessava…”. Pinter exprimiu fingida admiração por aquilo a que chamou “uma manipulação perfeitamente clínica do poder em todo o mundo, ao mesmo tempo que mascarando-se de força do bem universal. Trata-se de uma brilhante, até mesmo espirituosa, e altamente bem sucedida operação de hipnose.
Veja-se Obama. Quando se prepara para deixar o mandato, começa de novo a sabujice. É um “porreiro”. Obama, um dos mais violentos presidentes, deu rédea livre ao aparelho de guerra do Pentágono do seu desacreditado antecessor. Perseguiu mais reveladores de informações do que qualquer outro presidente. Declarou a culpa de Chelsea Manning antes do seu julgamento. Hoje, Obama conduz uma campanha mundial de terrorismo e assassínio por drones sem precedentes.
Em 2009, Obama prometeu ajudar “o mundo a ver-se livre de armas nucleares” e recebeu o prémio Nobel da Paz. Nenhum presidente americano construíu mais ogivas nucleares do que Obama. Tem “modernizado” o arsenal americano do dia do apocalipse, incluindo uma nova “mini” arma nuclear cujo tamanho e tecnologia “inteligente”, segundo um general responsável, garantem que a sua utilização “deixou de ser impensável”.
James Bradley, o autor do êxito de vendas “Bandeiras dos nossos Pais” e filho de um dos fuzileiros americanos que içaram a bandeira em Iwo Jima, disse “[Um] grande mito a cuja construção estamos assistindo é o de Obama como uma espécie de rapaz pacífico que tenta livrar-se das armas nucleares. Ele é o maior falcão nuclear que temos. Empenhou-nos numa ruinosa corrida da despesa de um trilião [bilião europeu – N.T.] de dólares em mais armas nucleares. De certo modo, as pessoas vivem nesta fantasia de pensarem que, lá por ele dar vagas conferências e discursos e fotos de conforto, isso tem a ver com a política presente. Não tem.”
Na ideia de Obama, está a caminho uma segunda guerra fria. O presidente russo é um vilão de ópera bufa e, se os chineses ainda não voltaram à sinistra caricatura do rabo de porco (como quando todos os chineses foram banidos dos Estados-Unidos), os falcões dos media para lá caminham.
Nem Hillary Clinton, nem Bernie Sanders mencionaram nada disto. Não há perigo, nem riscos para os Estados-Unidos e para todos nós. Para eles, a maior concentração de meios militares desde a 2ª Guerra Mundial junto às fronteiras da Rússia não aconteceu. A 11 de maio, a Roménia passou a “viver” com uma base de “defesa de mísseis” da NATO cujo objetivo é aplicar o chamado “primeiro-golpe” dos mísseis americanos ao coração da Rússia, a segunda potência nuclear do mundo.
Na Ásia, o Pentágono está a enviar navios, aviões e forças especiais para as Filipinas, em ameaça à China. Os EUA cercam já a China com centenas de bases militares que formam um arco desde a Austrália até à Ásia e através do Afeganistão. Obama chama a isso um “pivot”.
Como consequência direta, a China alterou alegadamente a sua política de armamento nuclear de “não-primeiro-golpe” para “alerta elevado” e colocou no mar submarinos com armas nucleares. A escalada acelera.
Foi Hillary Clinton quem, como secretária de Estado em 2010, elevou as reivindicações territoriais concorrentes sobre rochedos e recifes no mar do sul da China ao nível de questão internacional. Seguiu-se a histeria da CNN e da BBC. A China estaria a construir pistas de aterragem nas ilhas em disputa. No jogo de guerra de grande envergadura de 2015 chamado “Operação Talisman Sabre”, os EUA e a Austrália ensaiaram a “asfixia” do estreito de Malaca através do qual passa a maior parte do petróleo e do comércio da China. Não apareceu nas notícias.
Clinton declarou que a América tinha “interesse nacional” nessas águas asiáticas. As Filipinas e o Vietnam foram incitados e subornados para prosseguirem as suas exigências e antigos contenciosos com a China. Na América, as pessoas são condicionadas para verem como ofensiva qualquer posição defensiva chinesa, assim se preparando o terreno para uma escalada rápida. Semelhante estratégia de provocação e propaganda é aplicada à Rússia.
Clinton, “candidata das mulheres”, deixa um legado de golpes sangrentos: nas Honduras, na Líbia (com o assassínio do presidente) e na Ucrânia. A última é agora um parque temático da CIA enxameado de nazis e linha da frente de uma guerra procurada contra a Rússia. Foi através da Ucrânia (literalmente, terra de fronteira) que os nazis de Hitler invadiram a União Soviética, que assim perdeu 27 milhões de pessoas. Esta catástrofe épica continua presente na Rússia. A campanha presidencial de Clinton recebeu dinheiro de nada mais que uma das dez maiores empresas mundiais de armas. Nenhum outro candidato se lhe aproxima.
Sanders, a esperança de muitos jovens americanos, não é muito diferente de Clinton na sua visão senhorial do mundo fora dos Estados Unidos. Apoiou o bombardeamento ilegal de Clinton à Sérvia. Apoia o terrorismo de Obama com os drones, a provocação à Rússia e o regresso de forças especiais (esquadrões da morte) ao Iraque. Nada diz sobre os tambores de guerra de ameaça à China e o risco crescente de guerra nuclear. Concorda que Edward Snowden devia ser julgado e chama a Hugo Chavez, social-democrata como ele, “ditador comunista morto”. Promete apoiar Clinton se for ela a nomeada.
A eleição de Trump ou Clinton é a velha ilusão da escolha que não é escolha: dois lados da mesma moeda. Ao usar as minorias como bode expiatório e prometendo “fazer a América de novo grande”, Trump é um populista interno de extrema-direita, mas o perigo Clinton pode ser mais letal para o mundo.
“Apenas Donald Trump disse alguma coisa de significativo e crítico relativamente à política externa americana,” escreveu Stephen Cohen, professor jubilado de História da Rússia em Princeton e na Universidade de New York, um dos poucos especialistas sobre a Rússia nos Estados-Unidos a falarem abertamente sobre o risco da guerra.
Numa emissão de rádio, Cohen referiu-se a questões críticas que só Trump levantou. Entre elas: porque estão os Estados-Unidos “por todo o lado no mundo”? Qual a verdadeira missão da NATO? Porque procuram sempre os Estados-Unidos mudar os regimes no Iraque, na Síria, na Líbia, na Ucrânia? Porque tratam os Estados-Unidos a Rússia e Vladimir Putin como inimigos?
A histeria nos media liberais com Trump serve de ilusão de “debate livre e aberto” e da “democracia a funcionar”. As suas ideias sobre os imigrantes e os muçulmanos são grotescas e no entanto o deportador-máximo de pessoas vulneráveis da América não é Trump, mas Obama, cujo legado é uma traição à gente de cor, como é a colocação em armazém de uma população prisional predominantemente negra agora mais numerosa do que no gulag de Staline.
Esta campanha presidencial será sobre o populismo, mas sobre o liberalismo americano, ideologia que se vê a si própria como moderna e portanto superior e único caminho verdadeiro. Os da ala direita assemelham-se aos imperialistas cristãos do séc. XIX, com o dever atribuído por Deus de converterem ou escolherem ou conquistarem.
Na Grã-Bretanha, é o Blairismo. O criminoso de guerra cristão Tony Blair foi para a frente com a preparação secreta feita para a invasão do Iraque em grande parte porque a classe política liberal e os media se deixaram ir na sua “porreirice”, distração conhecida por política da identificação e importada dos Estados-Unidos, da qual facilmente se encarregou.
A História foi declarada no seu fim, as classes foram abolidas e o género promovido como feminismo, com montes de mulheres entrando para deputadas do Novo Partido Trabalhista. Conforme as instruções, votaram no primeiro dia do Parlamento pelo corte de benefícios fiscais dos pais solteiros, a maior parte mulheres. E a maioria votou por uma invasão que provocou 700 mil viúvas iraquianas.
O equivalente nos EUA são os falcões politicamente corretos do New York Times, do Washington Post e das redes de TV, que dominam o debate político. Assisti a um debate furioso na CNN sobre as infidelidades de Trump. Era evidente, segundo disseram, que a um homem assim não se pode confiar a Casa Branca. Nenhum problema foi tratado. Nada sobre os 80% de americanos cujo rendimento caíu ao nível dos anos 70. Nada sobre a derrapagem para a guerra. A mensagem recebida parece ser “olhe em frente” e vote Clinton: tudo menos Trump. Deste modo, para-se o monstro e preserva-se um sistema que abafa outra guerra.
Tradução de Jorge Vasconcelos transcrito O Diário.info

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