24 de set de 2016

Entrevista: "O Brasil tinha um destaque que ameaçava a hegemonia dos Estados Unidos"


Entrevista: "O Brasil tinha um destaque que ameaçava a hegemonia dos Estados Unidos"

Professora analisa inserção do país antes e depois de Temer

São Paulo e Belo Horizonte,
Tatiana Berringer : "Ofensiva sobre a América Latina começa com o golpe em Honduras, em 2009” / Arquivo pessoal
O impeachment de Dilma Rousseff teve grande repercussão no Brasil e promete, também, ter impactos fora do país. Tatiana Berringer, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), analisa a integração dos países da América Latina e a posição brasileira no cenário internacional com o início do governo não eleito de Michel Temer.
Brasil de Fato - Quais elementos internacionais influenciaram o processo de impeachment no Brasil?

Tatiana Berringer - O primeiro elemento é a crise financeira prolongada, que vem desde 2008. Reflexos dessa crise na economia brasileira agudizaram os conflitos políticos. O segundo elemento é o reordenamento geopolítico - ligado a uma ascensão chinesa e a uma recuperação da Rússia - que se materializou na formação dos BRICS [o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul]. Além disso, o Brasil vinha desempenhando um papel muito importante na integração latino-americana, fortalecendo o Mercosul, dando a ele um caráter político, e, ao mesmo tempo, criando a Unasul. Em suma, um papel de destaque internacional que ameaçava a hegemonia dos Estados Unidos. O terceiro elemento são os interesses imperialistas em relação ao pré-sal.
Os Estados Unidos atuaram diretamente no processo brasileiro?

Sempre houve uma disputa entre governos de esquerda e forças ligadas ao imperialismo, mas isso começou a se mostrar uma ameaça aos EUA. Há uma ofensiva geral que começa com o golpe em Honduras, em 2009, que desemboca no Paraguai e passa pela desestabilização dos governos venezuelanos. E o imperialismo não atua só como uma força externa. Os interesses e as alianças são colocados internamente, desde as empresas que estão aqui, até as forças políticas que atuam no país.
Os processos de integração da América Latina podem estar em risco?

Eles tomam um novo formato e assumem novas características, mas seguirão. A burguesia brasileira, principalmente a interna, depende das exportações para os países do Mercosul e das relações com a China. A questão é o caráter político que irão tomar. O Mercosul pode voltar a ser uma integração de cunho mais econômico, mas sem uma cooperação política e social que coloca a região em um patamar geopolítico diferente. É retomar uma posição de subordinação passiva em relação ao imperialismo: esses blocos podem existir, mas sem contrariar os interesses imperialistas.
Como você avalia a repercussão internacional do processo de impeachment?

Foi uma certa surpresa. Os mais importantes jornais dos EUA e da Europa colocaram questionamentos ao impeachment. Há uma certa desconfiança sobre o processo. De outro lado, isso não tem o impacto do rompimento de relações, que é o que poderia reverter o quadro. Infelizmente essa reação não reverberou em ações diplomáticas. Os chefes de Estado não se pronunciaram.
De forma geral, toda a América Latina está sob uma ofensiva?

Tínhamos governos progressistas e de esquerda, que vinham trabalhando em um projeto coletivo. E essa estratégia [do imperialismo] tem um efeito dominó. Foram retirados os partidos de esquerda dos governos que tinham mais força e capacidade de levar adiante esse projeto: Argentina, Venezuela e Brasil, e assim quebra-se a tríade e muda-se todo o quadro. Depois do Brasil, o próximo alvo é seguir o curso da ofensiva sobre a Venezuela. Porém, é preciso lembrar que foram criadas resistências, conquistas e compromissos. Apesar do momento de retrocessos, pode haver também um momento de recuperação e reversão desse quadro. 

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