20 de out de 2016

Vergonha alheia: ministro de Temer ataca protecionismo da Índia na casa do anfitrião Editor - que falta faz o Chanceler Celso Amorim. É covardia comparar com o atual e antigos entreguistas e subalternos de Wahsgnton de governos do PSDB

Vergonha alheia: ministro de Temer ataca protecionismo da Índia na casa do anfitrião

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(Marcos Pereira, ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, participa da abertura do Fórum Empresarial dos BRICS, na Índia. Foto: Ascom/ MDIC)

Ministro ataca protecionismo da Índia na casa do anfitrião

por J. Carlos de Assis
Nesse espetáculo de picadeiro que foi a visita de Temer ao Oriente, nada se revelou mais patético do que o ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços do Brasil, Marcos Pereira, esculhambar publicamente, para dezenas de jornalistas, a política de proteção industrial da Índia. Segundo o ministro, que deve entender mais de sânscrito do que de comércio exterior, a Índia é excessivamente protecionista e deve abrir o seu mercado.
Tanta estupidez nos tira do sério. O ministro, que, ao contrário de seus congêneres da Índia está no cargo porque embarcou num golpe sem necessidade de voto, se acha no direito de dar conselhos de política industrial a uma nação várias vezes milenar, com nada menos do que 1,2 bilhão de habitantes, e que tem que dar conta de empregos de qualidade para seus milhares de cidadãos. Não é à toa que a Índia cresce à maior taxa de expansão do mundo, espantosamente dentro de uma democracia exemplar.
Se o ministro fosse alfabetizado em política industrial, e não uma espécie de fâmulo das agências multilaterais de crédito, como FMI e Banco Mundial- que querem “abrir” os países em desenvolvimento a qualquer custo para atender ás ordens de Washington -, saberia que o mantra da liberação atende exclusivamente aos interesses das nações mais avançados, que tem um diferencial tecnológico em relação às demais. Para um país em desenvolvimento, abrir significa matar a indústria nascente e retroagir à condição de primário-exportador.
Estamos caminhando para isso, de fato. Os oportunistas  que ameaçavam tomar conta da política comercial externa brasileira já no tempo de Dilma flertavam com os neoliberais, e não há muito segredo que José Serra vai agora pelo mesmo caminho. Por um triz, contra a opinião de Palocci, e graças aos esforços de Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães, o presidente Lula derrotou a ALCA, algo que lhe deve ter custado grande antipatia das classes dominantes associadas  à chamada comunidade financeira internacional.
Os livros do coreano Chang e do argentino Gullo, tratando do liberalismo econômico na perspectiva mundial e latino-americana, deixam muito claro que os países hoje ricos, quando estavam na fase de desenvolvimento, eram invariavelmente protecionistas. E todos eles, sem exceção, quando se tornaram desenvolvidos, viraram livre-cambistas. Isso qualquer economista que não seja capacho das agências multilaterais e de seu patrão norte-americano sabe perfeitamente. Claro, este não é o caso de um ministro que chegou ao poder não pela teoria econômica mas na carona de um golpe branco.
Não fosse pela falta de especialização técnica, o ministro Marcos Pereira ainda assim é muito mal educado porque não tem o direito de, em nome do Brasil, criticar publicamente a política de outra nação. Mesmo que tivesse razão. Se o Brasil fosse uma potência imperial, como os Estados Unidos, justificava-se uma pressão de bastidores pela abertura comercial da Índia. Isso, aliás, acontece sempre, encontrando porém a resistência inabalável dos indianos que não querem ver destruído pela concorrência dos ricos seu parque industrial.
É isso que dá a apropriação do poder por uma elite despreparada. Temos um ministro da indústria que nada entende de indústria, e um ministro de Relações Exteriores bronco, igualmente despreparado, tonto no meio dos problemas internacionais que cercam o Brasil da atualidade. Nesse contexto, só nos resta ter paciência e buscar estrategicamente uma alternativa para 2018. É essa a missão do Movimento Brasil Agora. Se soubermos limpar as cavalariças do rei nos três poderes da República, poderemos reconstituir as instituições hoje derretidas e retomar o desenvolvimento do país.
J. Carlos de Assis é economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ, autor de mais de 20 livros sobre economia política brasileira

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