23 de mai de 2017

Operação surpresa de guerra na Cracolândia choca entidades e recebe críticas. -Editor- operação conjunta entre Prefeitura e Governo do Estado do PSDB -SP

Operação surpresa de guerra na Cracolândia choca entidades e recebe críticas
Segunda-feira, 22 de maio de 2017

Operação surpresa de guerra na Cracolândia choca entidades e recebe críticas

Imagem: Caio Castor/Facebook
No final de semana da já esvaziada Virada Cultural, a madrugada e manhã de domingo (21) começou com truculência por parte de mais de 900 agentes da polícia em uma a ação com objetivo de “sufocar o tráfico na Nova Luz”, em São Paulo. A Cracolândia, como é conhecida a região, foi alvo de uma megaoperação com apoio de policiais civis e militares do patrulhamento da área e dos batalhões do Comando de Choque e até helicópteros.
Para os que estavam na região, a ação aproximou-se a um cenário de guerra. Barracas foram destruídas, policiais utilizavam balas de borracha e bombas de gás para liberar acesso às principais ruas e entrar em hotéis e estabelecimentos comerciais onde tinham suspeitos. A operação foi planejada pelo secretário Mágino Alves Barbosa Filho em conjunto com o alto comando das polícias e com a guarda civil metropolitana. 
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), até o fim da manhã, 38 pessoas foram presas e houve apreensão de drogas e armas. Dos detidos, 28 foram presos na região da Cracolândia e 10 em outros locais do Estado. A ação não foi avisada a nenhum órgão de direitos humanos, como também foi omitida ao Ministério Público e Defensoria Pública, que foram surpreendidos com episódio de tamanha magnitude. A repressão à região conhecida por ser frequentada por dependentes químicos em situação extremamente vulnerável é condenada por tratar como caso de polícia uma questão que é, na verdade, de saúde pública.
No entanto, à Ponte Jornalismo, o delegado José Flaminio Ramos Martins disse que a operação, “fruto” de um trabalho de 8 meses de investigação, resultou na prisão do líder do tráfico, “que é do PCC e que estava em Caraguatatuba”, conhecido como FB. Além disso, Martins afirmou que foram expedidos 69 mandados de prisão.
O coletivo de direitos humanos A Craco Resiste narrou parte da ação: “A polícia chegou de forma tão abrupta que os usuários só correram, sem pegar seus pertences ou documentos“. Ainda de acordo com o relato do coletivo, há alguns dias a Prefeitura não fazia a coleta de lixo, “o que deixou o local com acúmulo acima do normal – dando, é claro, mais espetáculo a ação do Prefeito marqueteiro [em referência a João Doria]“.
A Prefeitura, no entanto, disse que há “registros de dificuldades no acesso de caminhões que executam a limpeza por jato de água no local, porém os agentes de limpeza estavam executando a varrição de forma regular“.
Ainda de acordo com o coletivo, Doria, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o secretário municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Filipe Sabará, chegaram ao local depois que o “fluxo” já estava limpo e “tentaram anunciar o início do programa ‘Redenção’, mas foram questionados e repudiados por manifestantes e usuários“.
Para o coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, Maurício Fiore, “por mais assustador que possa parecer, é possível discutir a legitimidade política do objetivo de ‘limpar a região e devolvê-la à cidade’. O que não é mais aceitável é envernizá-lo com a aparência de ‘política pública de cuidado e atenção para quem mora e transita por ali, evocando as ‘evidências científicas de ponta’, enquanto o prefeito e o governador colocam data para que a imprensa e os eleitores “não vejam mais as cenas deprimentes da cracolândia“.
Entidades jurídicas também repudiaram a ação. Em nota conjunta, o Ministério Público de São Paulo e a Defensoria Pública de São Paulo afirmaram que vão abrirão inquérito civil para apurar desvio de função da Guarda Civil Metropolitana na ação. “A ação não resolveu o problema básico da Cracolândia que é a dependência. Enquanto não se resolver isso, não se resolve a questão, a droga vai continuar chegando, tanto na lá como em qualquer lugar do Brasil. O principal é tentar cuidar do usuário dependente, isso é que tem que ser feito. O que estava ruim, com a atuação policial, piorou muito” – afirmou o Promotor de Justiça da Saúde Pública, Arthur Pinto Fiho.
Já o Conselho Federal de Psicologia afirmou em nota que “a ação afronta os 30 anos de história da luta antimanicomial no Brasil, recém-celebrados em 18 de maio, e os princípios internacionais dos direitos humanos”.
Veja no vídeo alguns trechos da operação:
Operação espetaculosa serviu para começo de “Programa Redenção”
A ação neste domingo serviu de palanque para o prefeito, que aproveitou para anunciar o fim do programa social “De Braços Abertos”, da gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT), para consequente substituição pelo programa “Redenção”. Segundo Doria, algumas ações do programa serão mantidas, como auxílio aos usuários com emprego e moradia, que devem ser construídas pela iniciativa privada.
Não haverá mais pensão ou hotel, nenhuma acomodação desse tipo. Toda a área sofrerá uma amplo projeto de reurbanização“, disse.
A palavra fundamental do Programa Redenção é singularidade, porque não existe uma necessidade única para todas as pessoas. Cada pessoa lá é totalmente diferente, com necessidades diferentes. A nossa ajuda é sempre dada a quem aceita, nada é compulsório“, afirmou o secretário de Saúde, Wilson Pollara.
Procurada pela reportagem, a assessoria da Prefeitura de São Paulo explicou que “projeto tem como eixo fundamental o acolhimento e tratamento de dependentes químicos. O conceito básico é primeiro dar abrigo aos dependentes e trabalhar de acordo com a singularidade das pessoas, que possuem necessidades diferentes.”
Hoje (22), o portal exaltou que “mais de 500 pessoas são acolhidas após operação na região da Nova Luz. Na notícia, a informação é de que a região recebeu reforço de segurança, “com 15 viaturas da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e 7 viaturas da Polícia Militar, com o total de 80 homens. Mais cinco câmeras de monitoramento serão instaladas e quatro ônibus de vigilância passam a circular na região“.
Entretanto, uma fonte do Justificando que é ligada ao Projeto, mas que preferiu manter seu nome em sigilo, denunciou uma realidade bem diferente da anunciada pelas fontes oficiais. “Está o caos, a gestão Dória tirou todos dos hotéis e os mandou para lugar nenhum. Agora eles estão buscando teto nos centros de atendimento que não têm mais capacidade física para recebê-los”. 

Policias fazem ‘selfie’ em meio a operação na Cracolândia. Foto: Sato do Brasil/Jornalistas Livres
Políticos e especialistas na pauta denunciaram o ocorrido. O deputado federal Paulo Teixeira (PT) pontuou em um artigo ao Justificando que o episódio deste domingo mostra que “mais uma vez a população mais carente sofrerá as consequências dessa atitude irresponsável e midiática do prefeito que parece viver num reality show permanente“.
Atila Roque, ex-Diretor Executivo da Anistia Internacional Brasil, comentou em seu Facebook: “Vergonha de uma sociedade que aceita calada que seres humanos sejam tratados como lixo e entulho. Náusea de prefeito e governador que se sentem confortáveis, orgulhosos mesmo, de colocar abaixo o primeiro programa a olhar a tragédia da adição ao crack de uma perspectiva humanizante“. Para ele, a ação revela o desprezo pelos pobres. 
http://justificando.cartacapital.com.br/2017/05/22/operacao-surpresa-de-guerra-na-cracolandia-choca-entidades-e-recebe-critica/

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