5 de mai de 2017

Paulo Henrique Almeida Rodrigues: ‘A destruição da ciência não é uma consequência, é um objetivo’. -Editor- quanto mais ignorante e manipulado melhor para as elites. POVO UNIDO TUDO PODE. DEMOCRACI JA, COM ELEIÇÕES GERAIS.


Paulo Henrique Almeida Rodrigues: ‘A destruição da ciência não é uma consequência, é um objetivo’

Pessoas, cartazes, manifestação

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No dia 22 de abril foi realizada a Marcha pela Ciência em várias partes do mundo, a fim chamar a atenção da sociedade e dos governantes para a importância da pesquisa científica. No Brasil, os cortes no orçamento federal da Ciência (ver aqui e aqui) tem sido obstáculo na manutenção e no desenvolvimento das pesquisas, importantes tanto para economia do país, quanto para a expansão de políticas públicas voltadas à qualidade de vida da população. “Precisamos reverter essa situação trágica imediatamente”, diz, neste comentário ao blog do CEE-Fiocruz, o professor Paulo Henrique Almeida, do Departamento de Políticas do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj), que vive uma das maiores crises de sua história. “A opção do Estado do Rio é a mesma adotada pelo Governo Federal”, resume Paulo Henrique, que é também diretor adjunto do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes). “Para o governo a Ciência é absolutamente irrelevante. Basta importar as soluções científicas e tecnológicas do exterior. A destruição da ciência e da tecnologia não é consequência, é o objetivo dos atos deles” observa.

Leia a seguir o comentário completo.

“O que se impôs no país desde o governo Collor foi um modelo econômico exportador de commodities, e que importa tudo o mais, até as sementes da soja que planta. Torna-se um país que não precisa de ciência e tecnologia. Esse modelo econômico e político se agravou com o golpe no ano passado. O Brasil está atrasado em tudo, mas, para atual gestão, a ciência é absolutamente irrelevante. Basta importar as soluções científicas e tecnológicas do exterior. A destruição da ciência e da tecnologia não é consequência, mas o objetivo dos atos deles.
No mundo inteiro, ciência e tecnologia dependem menos do mercado e mais do Estado. É absolutamente necessário termos investimentos para ampliarmos nossa capacidade científica e tecnológica, para não sermos um país dependente e vulnerável. Já tivemos o melhor modelo de controle de vetores do mundo, quando adotávamos um modelo de gestão centralizada. Outros países, como China, Índia, países africanos e sul-americanos, vinham para cá aprender a fazer esse controle. Nós abandonamos isso e resolvemos descentralizar as ações e políticas de controle para municípios, o que é inviável.
Outro problema é que, sob a suposição de que o pesticida DDT causa câncer [DDT, inseticida de baixo custo, utilizado na Segunda Guerra Mundial para eliminar insetos e combater doenças como malária, tifo e febre amarela], decidimos trocá-lo por outro tipo de inseticida, que causa outros problemas e não controla os vetores corretamente. A descentralização e a troca do DDT desorganizaram o controle de vetores, e não é à toa que atualmente passamos a ter malária em Petrópolis, o que não acontecia há muitas décadas no Estado do Rio. E está voltando não só a malária, como a febre amarela, a leishmaniose, inclusive, em áreas urbanas. 
Temos um problema de opção política equivocada, que precisa ser investigada. Para isso precisa-se de tecnologia, de pessoas que estudam o assunto, que podem pesquisar e chegar a soluções adequadas para o país.
Temos um problema de opção política equivocada, que precisa ser investigada. Para isso precisa-se de tecnologia, de pessoas que estudem o assunto, que podem pesquisar e chegar a soluções adequadas para o país
Mas o governo está restringindo recursos. Estamos vivendo uma situação na qual o Brasil se torna mais dependente de soluções estrangeiras, muitas vezes duvidosas, como ocorre no caso da vacina contra o HPV [papiloma vírus humano], incluída [em 2014] no calendário de vacinação pelo Ministério da Saúde. É uma vacina pouco eficaz, que não é produzida aqui e que nos deixa dependentes de soluções científicas e tecnológicas importadas.
O atual governo agravou o cenário da pesquisa científica de maneira absurda, uma mentalidade pela qual não precisamos investir em ciência, somos produtores de boi, porco, frango, soja e mais uma meia dúzia de produtos agrícolas e minério. Estamos pagando as consequências dessa opção política. Temos o exemplo da indústria farmacêutica. O Brasil enfrentou os grandes laboratórios, porque desenvolveu a capacidade de quebrar patentes, com Farmanguinhos, na Fiocruz. Isso é capacidade científica e tecnológica. Investir em Farmaguinhos permitiu que o país pudesse fazer engenharia reversa [análise da estrutura e da forma de operar de um determinado dispositivo, um objeto ou um sistema, desvendando assim seu processo de produção]. Os laboratórios sabiam da nossa capacidade e, na maioria das vezes, recuaram. Se o Brasil não tivesse tido capacidade tecnológica para enfrentar os laboratórios, não alcançaríamos o sucesso que tivemos no controle da epidemia da Aids.
Se o Brasil não tivesse tido capacidade tecnológica para enfrentar os laboratórios, não alcançaríamos o sucesso que tivemos no controle da epidemia da Aids

Somos hoje o sexto maior mercado de medicamentos do mundo. Como não produzir medicamentos em um país de 210 milhões de habitantes? Nós importamos praticamente tudo, porque não produzimos nem os farmoquímicos, sais básicos na produção de remédios. Produzimos uma quantidade grande de remédios simples, sem patentes, os genéricos, com base nos sais importados. Os remédios mais complexos são importados e mais caros, o que dificulta o acesso, para as pessoas e para sistema de saúde que é obrigado a comprar em moeda estrangeira e a preços elevados. A sociedade brasileira paga com a vida e com sofrimento.
A situação dramática que vivemos hoje na Uerj é outro exemplo. A opção do Estado do Rio é a mesma adotada pelo Governo Federal. A Uerj é a quinta melhor universidade do Brasil e está funcionando de maneira precária, por conta da chantagem do governo do Estado, que ameaçou cortar o ponto dos funcionários, não tem água em todos os andares, a maior parte dos elevadores parados, a situação de energia elétrica é precária, o Instituto de Medicina Social está perdendo apoio administrativo porque não temos mais como manter pessoas pela falta de recursos, ou seja, o governo está inviabilizando uma universidade que produz ciência e tecnologia no Brasil.
A Uerj representa a Stalingrado da universidade e da ciência brasileiras: ou nós somos capazes de resistir e vencer essa pressão absurda, ou não é apenas a Uerj que estará em risco, mas todo ensino público universitário brasileiro e todo desenvolvimento científico-tecnológico do país
A comunidade acadêmica da Uerj está pagando um preço altíssimo, salários atrasados, pesquisas interrompidas por falta de recursos, é uma situação calamitosa. Se isso estivesse acontecendo em qualquer país um pouco mais organizado, haveria uma crítica nacional. Mas temos uma reação um pouco débil por parte da sociedade e da própria sociedade científica brasileira, que tem apoiado pouco.
A Uerj representa a Stalingrado da universidade e da ciência brasileiras, ou nós somos capazes de resistir e vencer essa pressão absurda que está sendo colocada sobre a universidade, ou não é apenas a Uerj que estará em risco, mas todo ensino público universitário brasileiro e todo desenvolvimento científico-tecnológico do país. 
A situação é difícil e estressante. Estamos em processo de avaliação; se pararmos, corremos o risco de sermos mal avaliados e perdemos recursos, como bolsas, e a situação ficar ainda pior. Dessa forma, somos obrigados a trabalhar em condições extremamente penosas, colegas em estado de estresse, à beira de crises nervosas, com dificuldade até para se deslocarem para faculdade, porque tudo isso custa dinheiro.
A sociedade brasileira, infelizmente, tem pouca consciência da importância da ciência e da tecnologia em sua vida, sua sobrevivência. Os cientistas precisam levar para população a importância do trabalho que fazem, precisamos sair da academia e ganhar as ruas, estimular a consciência social, no sentido de ganhar o apoio da sociedade para reverter esse processo. (Comentário a Daiane Batista/CEE-Fiocruz).
Paulo Henrique Almeida: "É absolutamente necessário termos investimentos para ampliarmos nossa capacidade científica e tecnológica, para não sermos um país dependente e vulnerável". ( Foto: Instituto de Medicina Social da UERJ (IMS/Uerj)
http://cee.fiocruz.br/?q=node/555
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