22 de jun de 2017

Pesquisa revela atuação do Dops na ditadura


Pesquisa revela atuação do Dops na ditaduraImprimirE-mail
Jornal 06 - Março de 2004
Militares criaram diversos órgãos de repressão
que funcionavam de forma integrada
Paulo Pupim
No dia 31 deste mês, quando se completam 40 anos do golpe militar no Brasil, um estudo do professor Angelo Priori, do Departamento de História, resgata uma parte do período obscuro, no qual o país ficou mergulhado por 25 anos. Priori vasculhou o Arquivo Público do Estado à procura de informações sobre a atuação da Delegacia do Paraná do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Nos arquivos da Unicamp, onde ampliou o levantamento, foram identificadas 20 mil pessoas presas no Brasil, das quais, 3.799 no Paraná. Analisando cópias de Inquéritos Policiais Militares, que incriminavam militantes e políticos resistentes ao regime militar, Priori descobriu que, no Paraná, ocorreram 25 processos envolvendo centenas de presos.
O Dops foi um braço da ditadura militar, compondo uma rede integrada de repressão contra os chamados "inimigos do regime". Além de agir como um órgão punitivo, também fichava as pessoas com a missão de identificar suspeitos de conspirarem contra a ditadura. Em Curitiba, onde está o acervo do Dops/PR, a equipe de pesquisa do professor consultou cerca de 693 mil documentos. O estudo, financiado pela Fundação Araucária, mapeou os momentos distintos em que o Dops direcionava suas investigações de forma prioritária, mas não exclusiva, para assuntos, instituições ou grupos sociais.
O Dops ao longo da História
De 1920 a 1930, o Dops centrou suas ações no movimento operário, mais precisamente no comportamento dos militantes anarquistas e anarco-sindicalistas. Entre 1930 e 1945, ele se voltou, em princípio, contra os movimentos tenentistas e, depois, contra os imigrantes estrangeiros dos países do Eixo. A atenção sobre os imigrantes, principalmente os alemães e japoneses, devia-se ao fato de o Brasil ter participado da 2ª Guerra Mundial, ao lado dos países aliados.
De 1945 a 1964, o órgão direcionou seu foco para os movimentos sociais e as atividades do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Foi um período de ebulição no campo. Nesta época, ocorreram, por exemplo, as revoltas camponesas de Porecatu (Norte do Estado) e do Sudoeste, na década de 50, além da crescente sindicalização rural, no começo da década de 60.
Entre 1964 e 1979, o Dops resolveu acompanhar mais de perto as ações dos militantes dos partidos de esquerda, especialmente do PCB e das organizações que se envolveram na luta pelo fim da ditadura militar. Fatos como as eleições de 1982, a campanha das Diretas Já e a chamada "transição" democrática tiveram um tratamento especial com o aumento da vigilância exercida pelo Dops.
Priori destacou que a atuação do Dops revela o "medo" com o avanço das conquistas sociais. Sentimento que, por sua vez, estava latente na cabeça dos representantes das elites econômicas conservadoras. Esse medo fez com que, tanto a polícia política, representada pelo Dops, como os ideólogos da época buscassem reprimir qualquer forma de avanço nos direitos sociais, individuais ou coletivos. Os estudos mostram que a ditadura militar não foi fruto do acaso. Sua estrutura se fortaleceu na medida em que a democracia e a participação política da população cresceram.
No início dos anos 60, começava a ser configurada uma nova forma de ação, por meio da organização popular, que questionava o arbítrio interno e a dependência externa e exigia mudanças nas estruturas econômicas e sociais. O grupo de militares que tomou o poder no Brasil vinha de uma tradição militar mais antiga, já que participaram da 2ª Guerra Mundial e, quando retornaram ao Brasil, estavam profundamente influenciados pela concepção de ?defesa nacional?. Tanto é que acabariam criando a Escola Superior de Guerra, vinculada ao Estado Maior das Forças Armadas. Dentro da escola surgiram os princípios da Doutrina de Segurança Nacional e alguns de seus subpro-dutos, como o Serviço Nacional de Informações (SNI). O objetivo principal desta doutrina era identificar e eliminar "os inimigos internos", aqueles que questionavam o regime estabelecido.
Um dos mecanismos criados para esta identificação foi o Dops. De início, o departamento formava um "arquivo dos indesejáveis", no qual figuravam o nome da pessoa, sua filiação, estado civil, impressão digital e fotografia. A criação do arquivo facilitou o trabalho da polícia política. Um exemplo é que as forças policiais militares intervieram na "Guerra de Porecatu", no Norte do Estado, (1948?1951), somente depois que os agentes do Dops tinham localizado, mapeado e identificado os camponeses revoltosos, dando informações detalhadas da revolta e da geografia da região.
Priori faz uma análise curiosa sobre o governo militar. O regime autoritário foi marcado pela ambigüidade, pois, ao mesmo tempo em que agia com ações repressivas, tentava apresentar-se como um sistema de governo democrático. Apesar de os militares encampa-rem grandiosos projetos públicos para demonstrar o "milagre econômico" do País, o regime começou a ruir diante da violência praticada contra os estudantes, os quais tiveram papel de destaque na luta contra a ditadura.
Nos 25 anos da ditadura militar foram editados 17 atos institucionais. O mais polêmico e violento foi o AI-5, que suspendeu o direito ao habeas corpus e instituiu, objetivamente, a tortura e a violência física contra os opositores do regime
Enquanto matavam guerrilheiros, os governantes da época não enfrentavam forte oposição, porque justificavam a matança como forma de eliminar "terroristas". Mas, ao massacrar estudantes nas passeatas e manifestações, os militares começaram a ganhar a reprovação da sociedade. A morte do estudante Edson Luis Lima Souto, no dia 28 de março de 1968, no Rio de Janeiro, durante uma manifestação pacífica, em defesa do Restaurante Universitário "Calabouço", gerou um protesto nacional. No dia 26 de junho daquele ano, 100 mil estudantes saíram, em passeata, pelas ruas do Rio, marcando o auge destas manifestações.
O sindicalismo, enfraquecido no período, só foi retomar o fôlego no final da década de 70. A inflação galopante, os salários cada vez mais arrochados e a concentração de renda crescente, aliados ao enfraquecimento do regime militar, contribuíram para o ressurgimento do movimento sindical, sobretudo na região do ABC paulista.
http://www.jornal.uem.br/2011/index.php?option=com_content&view=article&id=215:pesquisa-revela-atua-do-dops-na-ditadura&catid=39:jornal-06-marde-2004&Itemid=2
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