28 de jul de 2017

O que nos conta o sismógrafo gramatical da TV Globo? - Editor - "Apesar de voce, amanhã há de ser outro dia...." CHICO BUARQUE DE HOLANDA. CHEGA DE MANIPULAÇÃO. DESLIGUE A TV.

O que nos conta o sismógrafo gramatical da TV Globo?




Em 2015 o escritor Pablo Villaça ironizou a proliferação do adjunto adverbial de concessão no bordão “Apesar da crise” repetido pela grande mídia como uma deliberada tática de repetição para criar uma crise autorrealizável e desestabilizar o governo Dilma. Na época, depois de décadas de “jornalismo adversativo”(“porém”, “mas” etc.) a mídia dava uma guinada gramatical para os advérbios. Agora, no momento em que o desinterino Temer virou “chefe de quadrilha” depois de ser incensado como uma espécie de novo Winston Churchill da ponte para o futuro, a mídia corporativa dá outra guinada gramatical: retorna ao velho jornalismo das conjunções adversativas: “há crise política, MAS a economia dá sinais de recuperação”, rezam os articulistas da Globo, tentando divorciar a política da economia. Essas guinadas gramaticais não são meras mudanças de estilo na máquina retórica de destruição da Globo. Sua engrenagem é um verdadeiro sismógrafo que repercute o movimento das placas tectônicas da política e economia, movimentos preocupantes para a Globo na luta para a manutenção do seu monopólio. E principalmente o porquê, de repente, a Globo querer jogar o desinterino Temer ao mar.

Os discursos da máquina retórica da mídia corporativa são um verdadeiro sismógrafo para detectarmos os movimentos das placas tectônicas da economia e política. Por exemplo, a forma como são utilizadas conjunções ou adjuntos adverbiais nos textos e falas jornalísticas são como aquelas canetas que traçam em rolos de papel o sismograma, revelando a amplitude das ondas sísmicas.

Como discutíamos em postagem anterior, por décadas a grande mídia praticou o que chamamos de “jornalismo adversativo”, no qual proliferavam conjunções “como”, “porém”, “contudo” etc. Eram épocas em que os telejornais corporativos procuravam minimizar os impactos econômicos das medidas da agenda neoliberal dos anos 1990.

Em plena maxidesvalorização do Real, depois da reeleição presidencial de Fernando Henrique Cardoso, o helicóptero da TV Globo sobrevoava os pátios lotados de veículos das montadoras do ABC paulista resultante na crise do mercado automobilístico. Enquanto isso, no estúdio Chico Pinheiro minimizava o impacto: “MAS quem ganhará é o consumidor com os descontos que as concessionárias oferecerão...” – clique aqui.

Observávamos que essas conjunções permaneceram durante os governos petistas, na época do boom do neodesenvolvimentismo brasileiro: o PIB aumentou? MAS... o desemprego aumentou. A economia aqueceu? PORÉM... não há estradas suficientes para escoar a produção... Ou seja, as conjunções adverbiais permaneceram, apenas com o sinal trocado.


De tanto martelar uma suposta crise econômica autorrealizável, o País conheceu o abismo do desemprego e desmonte da linha produtiva da economia. E a grande mídia começou a cair junto no abismo com perda de anunciantes, audiência e depreciação do espaço publicitário.

A primeira guinada gramatical


Com esses novos movimentos sísmicos, ocorreu uma verdadeira guinada gramatical: as adversativas foram substituídas por adjuntos adverbiais de concessão (“apesar de”, “embora”, “em que pese”, “mesmo que” etc.). “Apesar da crise, cresce a venda de ovos de páscoa...”; “Embora o desemprego seja elevado, o setor de informática é o que mais contrata...”. Bordão que rendeu até memes e ironias nas redes sociais pelo abuso da expressão “apesar da crise”.

Expressão que indicava a necessidade conciliar cavalgada da grande mídia em direção ao golpe político com a manutenção da normalidade do fluxo das inserções publicitárias.

Nesse momento observamos uma nova mudança no sismógrafo retórico: retornam as conjunções adversativas.

Tudo começou quando repentinamente o desinterino Michel Temer, tido até então como um espécie de novo Winston Churchill capaz de “modernizar” o País com as reformas, tornou-se líder de uma quadrilha que assalta o butim de Brasília. Repórteres e âncoras ao vivo, esbaforidos e gaguejantes, todos pegos de surpresa com a guinada “editorial” da família Marinho, obrigados a bater o bumbo das delações da JBS.


Segunda virada gramatical


A partir desse momento, colunistas e comentaristas passaram a andar numa corda bamba entre a necessidade de derrubar o desinterino Temer e sustentar a normalidade da agenda das reformas trabalhistas e previdenciária. Entre um novo golpe dentro do golpe e a necessidade de figurar a normalidade da aplicação das medidas econômicas neoliberais.

Esse retorno forçado do jornalismo adversativo trouxe momentos bizarros. Como a ginástica retórica do comentário ao vivo de Tereza Heredia da Globo News, tentando mostrar o “lado bom” da queda da inflação motivada pela deflação causada pela recessão econômica e desemprego: “PORÉM... aumentou o poder de compra dos brasileiros...”.

Nesse momento em que a reforma trabalhista passou pelo Senado e o texto-base vai para a sanção do desinterino Temer, a linha retórica da grande mídia é adversativa: a reforma trabalhista foi aprovada, mas a crise política permanece.

A cada comentário sobre a pauta política ou econômico percebe-se um esforço retórico em desvincular a agenda das reformas neoliberais da contagem regressiva para a queda do presidente desinterino Michel Temer. Através do jornalismo adversativo, agora a grande mídia faz de tudo  para desvincular uma suposta força política de Temer com as aprovações a toque de caixa das reformas.

Por que essa guinada gramatical? O que indica esse novo movimento do sismógrafo da máquina retórica midiática? Por que agora Temer não serve mais para representar o papel do novo Winston Churchill da ponte para o futuro?


“Follow The Money”


“Siga o Dinheiro”, como diz a velha máxima do jornalismo investigativo – MAS não daquele da Abraji, Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Para essa associação investigar e apenas “checar” informações – clique aqui.

O monopólio midiático da Globo em terras brasileiras fez o grupo dos Marinhos ambicionar os mercados internacionais de audiovisual desde os anos 1970. É conhecida a tentativa das Organizações Globo entrar no mercado europeu por meio da Tele Montecarlo (TMC) na Itália e em Portugal através da participação na SIC – Sociedade Independente de Comunicação.

Esse movimento passou a incomodar grupos privados de comunicação europeus, levando o Channel Four a produzir o documentário Muito Além do Cidadão Kane (1993) detalhando não só como o proprietário da Globo Roberto Marinho construiu o monopólio das comunicações, como isso se converteu em arma política sem qualquer controle ou regulamentação.

Desde então tornou-se obsessão para a Globo desmentir todas as denúncias desse documentário. Chegando ao ponto de, nas comemorações dos 50 anos, dedicar uma grande espaço no programa para rebater as críticas – clique aqui.

Sensível à sua imagem no mercado externo, diligentemente a Globo alinhou o seu jornalismo a agenda internacional política (guerra ao terrorismo) e econômica (a ortodoxia neoliberal do chamado Estado Mínimo, desregulamentação dos mercados financeiros, privatizações e destruição das garantias sociais e trabalhistas). 

Transformou seus correspondentes no exterior em meros tradutores dos releases das agências de notícias internacionais e vitrine luxuosa de uma suposta internacionalização da emissora.

Globo internacional: apenas replicando pautas das agências estrangeiras

Geopolítica antiterror contra a Globo


Porém (oops!, uma adversativa...), a Globo não esperava que essa política de “guerra ao terrorismo” implicasse em combate internacional (liderado pelo Departamento de Estado dos EUA) às “finanças ilícitas” – a lavagem de dinheiro para supostamente “financiar grupos terroristas”.

Pois o xadrez geopolítico dos EUA para enquadrar os BRICs através da cooperação internacional no combate às “finanças ilícitas” levou a Globo a entrar na mira do Departamento da Justiça dos EUA: junto com o Ministério Público espanhol, as Organizações Globo foram indiciadas em função da compra dos direitos de transmissão da Copa do Brasil da CBF de Ricardo Teixeira – iniciada com a prisão do ex-presidente do Barcelona e ex-executivo da Nike, Sandro Rosell, que atuava em parceria com o ex-presidente da CBF. Um escândalo com know-how  da Globo de criar empresas laranja para adquirir direitos de transmissão por preços mínimos.

A Globo soube desse escândalo poucos dias antes do vazamento das delações da JBS, o que fez a cúpula da emissora dar o sinal verde para o “investigativo” Lauro Jardim repercutir o conteúdo das gravações das denúncias dos donos da JBS.

De forma atabalhoada (clique aqui), a Globo deu a guinada (editorial, gramatical etc. diante de seus incrédulos e inseguros âncoras e comentaristas) para bater o bumbo das delações, ocultando as repercussões do escândalo da CBF – acabou pautando de toda a grande mídia com a sua tentativa de jogar Temer ao mar.

Em uma clássica estratégia de agendamento, o tsunami das delações, gravações e vídeos contra Temer e contra “todos os homens do presidente” soterraram qualquer interesse da grande mídia em puxar o fio da meada da prisão do ex-presidente do Barcelona, dos escândalos da CBF e o interesse do FBI no esquema de compra dos direitos de transmissão pela Globo.


Nesse momento as conjunções adversativas dominam os textos e locuções jornalísticas globais como uma ginástica retórica para tentar equilibrar, de um lado, a urgência do andamento das reformas no campo econômico e, do outro, a urgência em derrubar o desinterino Temer, agora rebaixado a condição de “chefe de quadrilha”.

“Mas”, “porém”, “entretanto” são conjunções utilizadas para tentar separar a crise política da gestão “técnica” da economia na aplicações dos “remédios” da ortodoxia neoliberal.

Para os diligentes comentaristas da Globo News, por exemplo, há uma crise política, MAS a economia dá sinais de recuperação, necessitando, portanto, acelerar as reformas tão importantes para criar empregos... e assim por diante.

Essa guinada gramatical é tão evidente que seus articulistas, como Miriam Leitão, tentam substituir a conjunção pelo ponto e vírgula (“;”) para criar um efeito de conjunção subordinativa – “enquanto”. 

Há um divórcio entre economia e política. A economia começa a dar sinais de melhoras cada vez mais consistentes; a política se afunda em crises e decisões ruins”, diz Leitão defendendo a proteção da “tecnicidade” da equipe de Fernando Meirelles da contaminação do agora “leproso” Temer. 

 A guinada da máquina retórica da Globo, dos adjuntos adverbiais para a volta à conjunções adversativas, é mais do que modismo discursivo: é um interessante sismograma da repercussão na superfície midiática do movimento das gigantescas placas tectônicas: o choque entre os incrustrados interesses do monopólio nacional das comunicações contra o xadrez geopolítico internacional.

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