1 de ago de 2017

Jarid Arraes desvenda ‘As Lendas de Dandara’


Jarid Arraes desvenda ‘As Lendas de Dandara’

Jarid Arraes reinventa a história da líder do Quilombo dos Palmares em 'As Lendas de Dandara'.

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Jarid Arraes - As lendas de Dandara
Jarid Arraes e seu 'As Lendas de Dandara'. Foto: Reprodução.
As Lendas de Dandara (Cultura, 2016), livro de estreia da escritora e cordelista Jarid Arraes, é uma narrativa em forma de relato fantástico da história de Dandara dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, localizado em Pernambuco, antes do ano de 1600. O quilombo era o maior estado negro independente das três Américas, reunindo mais de 20 mil ex-escravos libertos dos canaviais. A escritora optou por contar a história da parceira de Zumbi dos Palmares sob a forma de lenda, porque muito pouco se sabe sobre a vida da guerreira.
O livro foi publicado de forma independente em julho de 2015. Ao longo de um ano, a primeira edição esgotou. A Editora Cultura publicou cinco outras edições, com ilustrações de Aline Valek. Dentro do gênero das lendas, a escritora usa elementos fantásticos, como a criação da heroína por Iansã, a orixá das tempestades e ventanias. Além de Iansã, também são usados nomes africanos nos personagens, como Bayô e Kambo. A opção de usar nomes africanos teve motivações históricas: os negros trazidos da África para o Brasil foram obrigados a usar nomes cristãos. Além disto, levavam os sobrenomes dos senhores de escravos.
As lendas de Dandara conta a criação mítica por Iansã, o seu encontro com  a guardiã Bayô na floresta, a cura da velha e a vida no quilombo. O crescimento da personalidade guerreira, anticonvencional  para os padrões femininos da época, as aventuras que a tornaram líder do grupo, o despertar da paixão de Zumbi, as lutas para libertar os escravos e a destruição do quilombo. Em 1694, os senhores de escravos exigem que o governador de Pernambuco dê fim aos ataques de Zumbi e Dandara. Quilombo dos Palmares é atacado com seis canhões e praticamente destruído pelo bandeirante paulista Domingos Jorge Velho. Zumbi foge, mas no dia 20 de novembro de 1695 foi capturado, morto, decapitado e teve a cabeça exposta em praça pública. Quando Zumbi fugiu, Dandara preferiu suicidar-se, atirando-se do alto de uma pedra.
As lendas de Dandara conta a criação mítica por Iansã, o seu encontro com  a guardiã Bayô na floresta, a cura da velha e a vida no quilombo.
Jarid se deu conta que durante a vida escolar jamais ouviu falar do protagonismo de mulheres negras na história do Brasil. Assim, começou a pesquisar o tema. E escreveu o primeiro e o segundo livros. A heroína dos Palmares também é cantada nos cordéis de Jarid em Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis ( Polén, 2017), ao lado de outras líderes, como Aqualtune, mãe de Zumbi, Na Agontime, Zacimba Gaba e Tereza de Benguela.
Ao resgatar a história de mulheres negras brasileiras, Jarid reorganiza uma historiografia de perspectiva eurocêntrica, para a qual a história dos negros, amarelos e vermelhos é secundária. A história oficializada anula a história dos negros brasileiros, que por terem seus antepassados expropriados de terras e culturas de origem têm problemas de identidade. Muitos não sabem contar de que país ou região vieram, como os descendentes de europeus ou asiáticos.
Jarid nasceu em Juazeiro do Norte, no Cariri, interior do Ceará, há 26 anos. É filha de pai e avô cordelista. Seu pai, Hamurabi Batista, era o único negro da família. Ela herdou não apenas o talento para escrever e versejar como a cor da pele. Até a adolescência, ela não se via como negra, dizia-se mestiça. Uma amiga a levou para o movimento negro e a fez repensar seus conceitos sobre identidade. A partir daí, Jarid passou a perceber as várias microagressões sofridas desde criança. Desde a discriminação na hora de ganhar presentes até a hiperssexualização na adolescência.
De acordo com a poeta, a representatividade – ter a história contada por quem se identifica com a etnia – pesa nas apresentações em escolas. Meninas negras se aproximam dela: “O mesmo cabelo, a mesma cor de pele, e escritora”. Pela primeira vez, veem-se representadas por uma mulher importante, diferente do que é reproduzido nos livros didáticos, em novelas de tevê, no cinema e na literatura, no noticiário e na publicidade. Não é mais preciso seguir um estereótipo mantido por décadas e apresentar-se como escrava, empregada doméstica ou Globeleza.
Ilustração de Aline Valek - As lendas de Dandara
Ilustração de Aline Valek, representando Dandara bebê nos braços de Iansã / Reprodução.
“De repente, trovões. Os sons da natureza ecoavam, redemoinhos de vento bailavam em círculos e espirais rosados, escuros e perigosos. Da espada de Iansã, uma luz crescia e pulsava como a respiração de uma mulher em trabalho de parto, até que o clímax foi atingido. nos braços dela, estava, enfim, uma garotinha de olhos expressivos.
– Seu nome será Dandara e você trará libertação para seus irmãos e irmãs – disse Iansã sorrindo, olhando a menina com ternura.
Tomada por esperança, Iansã dançava com Dandara em seus braços, em movimentos mágicos que empurravam as correntes de ar quente em todas as direções. Em África, tempestades bramiam por todas as partes, anunciando o início de uma nova era e a abertura de novos caminhos. Os animais se alvoroçavam, sentindo novamente o despertar de seus instintos. África estava viva, acordada, com os olhos bem abertos. A dança de Iansã com sua filha recém-criada demarcava uma celebração poderosa, que duro dias ininterruptos.” | Trecho de As Lendas de Dandara, páginas 23 e 24.
http://www.aescotilha.com.br/literatura/ponto-virgula/critica-jarid-arraes-as-lendas-de-dandara/

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