4 de mar de 2014

O futuro do carnaval de Salvador - BA por Rafael Rodrigues

 
paulo-miguezO futuro do Carnaval de Salvador é de fortalecimento dos camarotes com a apresentação para o público interno de grandes estrelas do axé, em paralelo a um processo de redução de quantidade de blocos com cordas.
Neste movimento, manterão a venda de abadás somente as poucas agremiações que hoje conseguem manter os preços caros e ainda assim esgotam.
Essa é a projeção do professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paulo Miguez, doutor em Comunicação e Cultura, com formação em Economia e Administração. Ele dedica a maior parte de sua bibliografia em estudos culturais para o Carnaval de Salvador. Miguez é entusiasta da festa, exalta o axé enquanto produção cultural baiana, mas elege a indústria que tem por trás das grandes atrações do gênero como um modelo a ser combatido.
 

Em um bate-papo em sua casa, o professor empolgou-se ao falar do Furdunço – projeto da prefeitura para o folião pipoca –, através do qual, em sua leitura, será possível ampliar a diversidade de atrações na folia e pressionar o poder público para a realização de mudanças na fila dos blocos.

Em tempos em que se discute rolezinho, o Carnaval sofre influência dos conflitos sociais contemporâneos, reflexo da ascensão da nova classe média?
Não tenho dúvidas que sim. Pessoas que passam a ter uma renda extra, passam a consumir mais os blocos e camarotes. O que me deixa preocupado é que essa transformação não alcançou o plano da cidadania, da política. Ela se resolveu quase que exclusivamente no plano do mercado. Produzimos uma transformação, de ampliação do mercado interno de consumidores, mas do ponto de vista da construção da cidadania produziu poucas inflexões importantes.
É a iniciativa privada, por trás das estrelas do axé, que sustenta o Carnaval de Salvador?
Isso é absolutamente falso sobre todos os aspectos. Primeiro, é preciso que as pessoas que conseguiram posição de destaque com sua arte na vida artística cultural brasileira, a partir do Carnaval, compreendam que elas se tornaram grandes porque o Carnaval às fez grandes. Não foram elas que fizeram o Carnaval, ao contrário. Foi o Carnaval que transformou elas em estrelas.
A segunda questão, os números frios de investimentos na festa, tanto estado e prefeitura, são absolutamente significativos, seja do ponto de vista econômico-financeiro, seja dos resultados. Sem esses investimentos não haveria possibilidade alguma de termos a festa na escala que a gente tem, e os negócios que o Carnaval consegue produzir seriam impossíveis de acontecer caso não tivesse presença do Estado garantido infraestrutura de serviços. Então, ao contrário, eles são absolutamente devedores.
Mas sem essas estrelas, o Carnaval não perderia em público e visibilidade?
O Carnaval produziria novas estrelas. Todos os anos você tem alguém novo que aparece, tem um ritmo novo. Nas últimas três décadas, quando esse modelo nasceu e foi se organizando e se consolidou, você tem um grande número de pessoas que surgiram, desapareceram, algumas permaneceram, mas há sempre o surgimento de novas. Hoje você tem uma fidelização muito grande dos foliões em volta destas estrelas, mas isso não impediria a renovação da festa de forma nenhuma. Eu acho ótimo que as estrelas existam, mas o Carnaval não depende delas para continuar sendo a grande festa do povo.
Existe a tão falada crise do axé?
Não creio que ela tenha a dimensão que normalmente as pessoas costumam afirmar. A agenda desses artistas continua cheia. Evidente que isso faz parte da lógica da indústria cultural: um gênero que alcançou a magnitude que o axé alcançou, em algum momento vai sofrer, é um ponto fora da curva e depois volta à curva. Porque outros gêneros vão surgindo, as disputas se estabelecem. Evidentemente que o quadro é diferente de quando o axé surgiu, deixa de ser novidade. Você tem número muito grande (de atrações), a disputa é maior, mas não vejo crise.
Pode-se afirmar que a renovação das músicas de Carnaval acontece mais com ritmos mais populares, como pagode e o arrocha?
Acho que sim. O pagode é um gênero que se renova sempre. O público consumidor do pagode é muito maior. Está ligado aos setores populares que sempre tiveram uma relação direta com o samba. O pagode é uma forma contemporânea de fazer samba, eletrônica, aeróbica, tem um público muito maior. E alcança em larga medida os consumidores de classe média.
É impressionante como o pagode aproximou, trouxe uma parte da juventude da classe média que antes não tinha relação com o samba. Isso certamente facilita mais produzir uma banda de pagode que uma de axé.
E o axé se renova?
Também. Nos últimos anos vimos a projeção de Magary (Lord), por exemplo. Há uma confusão muito grande: uma coisa é o axé, enquanto estilo, gênero. Outra é o negócio do axé. As pessoas ao criticarem o estilo concentrador que terminou sendo a forma de organização do axé, isso merece crítica. Outra coisa é o gênero axé. Me sinto bastante feliz em saber que minha cidade produziu em tão pouco tempo duas manifestações musicais para as festas de rua com tamanha potência, como é o axé e o pagode.
Me encanta ver as estrelas do axé no Carnaval, a Ivete (Sangalo), Saulo, a Claudia Leitte. Outra coisa é a discussão do modelo de negócio. Esta discussão faz com que as pessoas joguem na lata de lixo algo positivo da vitalidade no campo da música de estar produzindo algo novo.

Por outro lado, há uma tentativa de renovação da música de Carnaval por outra vertente, mais elitizada, através do BaianaSystem e Bailinho de Quinta, por exemplo. Este movimento tem força?
Há espaço para esses grupos, essas formas mais sofisticadas. É uma preocupação de compositores, instrumentistas, produzir algo que é diferente do que há em larga escala dentro do axé e do pagode. E há espaço para este pessoal, e eu acho maravilhoso. Adoro o Bailinho de Quinta e o BaianaSystem, que foram citados. Não é fácil para eles a busca pelo espaço.
Tem a questão de espaço nas rádios. O CORREIO publicou recentemente que se gasta até
R$ 300 mil para emplacar uma música. Evidentemente, nenhuma dessas bandas tem esse dinheiro para bancar o lançamento de sucessos, mas acho absolutamente ótima a presença delas.
O arriar das cordas de grandes blocos com estrelas do axé, iniciado há uns dois anos, parece ter estacionado. Há alguma tendência neste sentido?
Nós estamos assistindo a uma mudança do modelo do negócio nos últimos dois anos. Ele estava concentrado basicamente no bloco, com as estrelas. Mas o bloco é caro de ser desenvolvido. Não só do ponto de vista dos recursos financeiros que exige, mas principalmente por conta daquilo que na economia se chama custos de transação – você tem circuito de cinco horas para fazer, tem segurança, tem uma grande equipe. O camarote tem uma facilidade com custo de transação melhor. Está ali, parado, você tem um controle maior.
O camarote está se tornando o maior produto do Carnaval, superando os blocos?
A tendência dos próximos anos é essa: consolidar o camarote como um grande negócio. Os blocos continuarão como um elemento importante, mas já não serão o filé mignon da coisa. Continuarão a existir, eu não tenho dúvida. Mas o camarote já comporta um dos elementos fundamentais do negócio carnavalesco, que é a estrela. Uma parte dos camarotes já é organizada em linha direta com estrelas.
O trio elétrico continuará sendo importante, e, sem cordas, ele é elemento mais barato para o patrocinador. O dinheiro para colocar o trio na rua não precisa ser repartido para assegurar os custos do bloco que vai desfilar. Por outro lado, o camarote avança ao oferecer maior sofisticação daquilo que oferece.
Neste modelo, como entra o trio sem cordas?
O arriar das cordas é um movimento que aponta na direção da mudança do modelo de negócio. Para mim, vai ser o camarote como o grande negócio, e o bloco como uma perspectiva secundária de alimentação desse negócio. Embora continue sendo um bom negócio, especialmente para alguns, em três a cinco blocos que não têm problemas na venda de abadás.
Os outros, aí você vê pelos preços, você vai nivelando para baixo. Os preços vão caindo para poder aumentar o número de pessoas que possam vir a comprar. Isso significa que o negócio nessa área passa a uma condição secundária se comparado ao negócio dos camarotes.

Gosta da ideia do Furdunço?
Estou muito satisfeito em ver o poder público municipal retomando uma posição de liderança na discussão das coisas do Carnaval. É uma coisa que a gente não viu nos últimos oito anos, esteve completamente ausente. Algumas iniciativas são muito positivas, ainda que não seja o enfrentamento direto com aquilo que me parece um dos grandes problemas do modelo atual, que é a organização da fila. Mas não deixa de ser uma sinalização neste sentido, de que a maneira como a fila está organizada não reflete a riqueza do carnaval.
Na mesma linha do desfile do Afródromo, ele vai ser marcado por uma riqueza que está assentada na diversidade de coisas que vai trazer, de pequenos equipamentos, bandas que vão sair no chão, performances e etc.

Mas teve folião pipoca que reclamou de ter que esperar o fim da fila para ter espaço. Isso seria um fator de exclusão?
Quero considerar que este ano a iniciativa – muito bacana – seja o primeiro sinal para um enfrentamento que terá de vir. O sucesso do Furdunço desafiará o atual modelo da fila, ele vai garantir que esse enfrentamento possa se dar em bases mais confortáveis. Que estas medidas possam se materializar no enfrentamento, para que no próximo ano a gente possa ter uma organização da fila que não obedeça mais uma lógica que atende exclusivamente ao mercado.
E qual o melhor critério para organizar a fila?
Não tenho solução, mas sugestão. Pode ser feito a partir do seu projeto de Carnaval, um edital. Vai ter lugar privilegiado na fila quem tiver projeto artístico que envolva o tamanho do equipamento, fantasias que vão usar, performances que vão fazer. Não pode o Malê Debalê, que tem belíssima ala de dança, não ter lugar destacado na festa.
Se não fossem os afoxés, os blocos de travestidos e os blocos afros, teríamos perdido completamente a dimensão plástica do carnaval. Já tínhamos perdido no sentido da decoração, da cidade como um cenário da festa. Se transformou um grande outdoor, uma poluição visual desagradável. A prova de que rever a fila é importante é o sucesso que teve o Afródromo e que certamente o Furdunço terá. A festa precisa de que sua diversidade tenha lugar de destaque.

Afródromo, um circuito para os blocos afros e afoxés, resolve problema da visibilidade destes blocos?
A questão que motivou é real. Não me parece que a melhor forma seja estabelecer um circuito. Ao contrário: eu gostaria de ver essas organizações com a mesma ousadia que significou a emergência delas 40 anos atrás, quando disseram ‘vamos às ruas porque temos direito, queremos mostrar a beleza de nossas organizações’.
Criar um lugar só para elas, se pode resolver o problema de visibilidade, por outro deixa de lado o enfrentamento do grande desafio do Carnaval, de que a diversidade possa estar presente. Blocos afro deram contribuição para a cidade que está para além do carnaval. A briga agora é maior ainda, mas eles têm potência de fazer. Vamos mexer na fila, vamos mudar a fila, queremos lugar de destaque em função do que a gente apresenta.
Neste ano, a Secult decidiu não mais patrocinar trios independentes, sob o argumento de que não têm público. Optou pelos minitrios. De fato, este modelo tem de ser revisto?
Garantir recursos para cultura é obrigação do estado. Agora, não faz sentido que essa presença do estado se resuma ao financiamento. Não pode só dar o dinheiro e ‘se vire’. Senão, vai ter mais gente em cima do trio que embaixo. Porque o lugar, o horário, a divulgação, tudo isso importa. E você tem que produzir critérios em volta disso, não pode estar desarticulado da organização do conjunto dos desfiles.
Entrevista publicada originalmente em http://www.correio24horas.com.br

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