30 de ago de 2015

Palestrante negro é barrado em portaria de hotel cinco estrelas que sedia seminário em São Paulo-SP

Opera Mundi


Atualização: no sábado, Carl Hart concedeu entrevista em que negou ter sido barrado e explicou a possível origem da notícia
O psicólogo norte-americano Carl Hart, referência internacional em políticas de drogas. Imagem: Simon Fraser University / Flickr CC
O psicólogo norte-americano Carl Hart, referência internacional em políticas de drogas. Imagem: Simon Fraser University / Flickr CC
Atualizada pela revista Samuel em 29.ago.2015, às 17h40 e às 22h50
 
No Seminário Internacional do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, o palestrante Carl Hart, professor associado de psicologia e psiquiatria da Universidade de Columbia, teria sido barrado pela segurança do hotel cinco estrelas Tivoli Mofarrej, que sedia o evento. A organização do instituto teria tido de se mobilizar para autorizar a sua entrada no hotel nesta sexta-feira (29/08).
 
Na sexta-feira, o site Justificando [autor da reportagem reproduzida por Samuel] não encontrou alguém para falar pelo hotel.

No sábado (30/8), o jornalista Bruno Torturra, do site Fluxo, publicou uma entrevista com o próprio Hart, em que ele conta não ter vivenciado diretamente o episódio. "Disseram que, quando cheguei, um segurança do hotel iria me abordar, mas não testemunhei isso". Nessa entrevista, Hart diz que não foi barrado pelo hotel.

Carl Hart é negro e veio a São Paulo palestrar sobre a guerra às drogas e como ela é usada para marginalizar e excluir parte da população. Antes de se tornar um cientista respeitado, com três pós-doutorados, e um dos maiores nomes sobre o estudo de drogas, era usuário de crack. Ele decidiu tornar-se especialista nos efeitos do crack para entender como a droga tinha destruído sua comunidade. E virou um neurocientista, com seus dreads e os três dentes de ouro.

Ao começar sua fala, provocou as mais de mil pessoas que estavam no auditório: "Olhem para o lado, vejam quantos negros estão aqui. Vocês deviam ter vergonha". Não havia nenhum negro na plateia.
 
Para Sérgio Salomão Shecaira, Presidente da Organização do Seminário, o fato evidencia racismo: "É bom para mostrar como vivemos em um país racista".
 
Neste sábado (29/08), reportagem do jornal Folha de S. Paulo, citando o gerente-geral do Tivoli Mofarrej, Renaud Pfeifer, dizia que o hotel não identificou, nas imagens de segurança, o professor sendo barrado. 
"Segundo as imagens, em momento algum Hart foi abordado por seguranças ou impedido de entrar no hotel", disse Renaud Pfeifer, gerente-geral do Tivoli, à Folha.
De acordo o jornal, "o hotel afirmou ainda ter entrado em contato com o hóspede, que negou ter sido barrado durante a sua estada." 
 
O site Justificando atualizou neste sábado a reportagem original, publicando uma nota do hotel e adicionando uma atualização, ambas registradas abaixo.

O Tivoli São Paulo - Mofarrej tem como objetivo e hábito receber hóspedes e clientes de diversos países e em variadas ocasiões.
O hotel afirma que seus funcionários recebem treinamento constante para manter o alto padrão de serviço, para bem atender seus clientes garantindo qualidade, segurança e discrição.
 
O Tivoli São Paulo - Mofarrej proíbe a discriminação em virtude de raça, sexo, cor, idade, religião, orientação sexual ou quaisquer outras formas de discriminação. 
 
Como política o hotel não barra seus clientes, visto que possui diversos pontos de venda e espaços de evento, mas constantemente aborda todos os frequentadores para direcioná-los corretamente aos seus destinos. O hotel reforça que é absolutamente contra qualquer forma de discriminação.
 
ATUALIZAÇÃO: 
 
A Redação do Justificando foi convidada, na manhã deste sábado (29/08), pela Assessoria de Imprensa do Hotel Tivoli a assistir às imagens das câmeras de segurança. Pelas imagens, não é possível ver ninguém se aproximar de Carl Hart na tentativa de barrá-lo. 
 
O Presidente da Organização do Seminário, Sérgio Salomão Shecaira, também negou as declarações [publicadas pelo Justificando].
 
No entanto, pela manhã, o neurocientista esteve no estúdio do Justificando para gravar uma entrevista. Em vídeo, registrou que o incidente foi pequeno e, comparado com o que a população negra sofre diariamente, não é nada. 

Nas duas vezes em que a equipe de Samuel ligou para o Tivoli-Mofarrej, na sexta-feira e no sábado, foi informada de que o hotel se pronunciaria apenas na segunda-feira.

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