13 de jul de 2016

Jornalismo é parte importante do trabalho do polêmico modernista Oswald de Andrade Editor- um exemplo a ser seguido nos dias de hoje.

Jornalismo é parte importante do trabalho do polêmico modernista Oswald de Andrade

Flávio Costa 05/07/2011 21:26
Homenageado da Festa Internacional Literária de Paraty (Flip), o polêmico escritor Oswald de Andrade (1890-1954) teve atuação destacada em jornais durante toda a vida. 

Apesar de seu lado jornalístico ser menos conhecido que sua atuação literária, Oswald criou periódicos como a revista Antropofagia e o jornal O Homem do Povo e publicou reportagens, ensaios e críticas literárias em publicações como Diário Popular e Correio da Manhã.

Saiba mais sobre sua trajetória jornalística no artigo de Mário Drumond, estudioso da obra oswaldiana. 


Jornalismo brasileiro: cinquenta anos sem Oswald de Andrade

Por Mario Drumond

Ilustração:Daniel Klein
Em 22 de outubro de 1954, dois meses depois da morte de Vargas, o Brasil perdia outro grande brasileiro: Oswald de Andrade - nome que vem crescendo nas muitas facetas em que seu gênio brilhou em primeira grandeza, seja como poeta, romancista, dramaturgo, orador, filósofo, modernista ponta-de-lança. Mas ninguém parece lembrar que foi, antes e acima de tudo, um jornalista. Mais que isso, é fundador do jornalismo moderno no Brasil, se entendermos por jornalismo moderno o que se fez no século 20 - e ainda se faz - com independência, cultura e opinião, e a serviço do leitor, da nacionalidade e do progresso humano.

Começou cedo, por onde muitos terminam. Sua primeira missão de repórter recém-contratado do Diário Popular de São Paulo, em 1909 (aos 19 anos de idade), foi acompanhar o presidente da República em viagem ao sul do país. Escreveu ali uma série de artigos intitulados "Penando" (o Presidente era Afonso Pena), que infelizmente não conhecemos por não haver curadoria competente da sua obra jornalística.

A partir de então, é presença de forte impacto na história do jornalismo. Atuou na reportagem, na redação, na crítica, na crônica e nas seções de política, cultura, literatura, artes e serviços, escrevendo de forma incisiva e polêmica nos principais veículos de São Paulo e Rio de Janeiro. Sua carreira se define na luta sem tréguas em defesa do país e do povo brasileiro, se colocando sempre, em 45 anos de jornalismo, na vanguarda do pensamento nacional.

É também precursor da imprensa independente ou "alternativa", a imprensa de cultura, política e opinião desvinculada de interesses capitalistas ou comerciais cujas páginas escrevem os melhores momentos da imprensa no Brasil desde a fundação, seja no exílio, pela audácia nacionalista do Correio Braziliense de Hipólito da Costa, já no início do século 19 demonstrando os potenciais de riqueza da cana-de-açúcar que o Império fingiu não enxergar, seja nos primórdios, pelas façanhas gráficas de Viegas de Menezes, já na Vila Rica inconfidente dos fins do século 18, afrontando as proibições colonizadoras que retardaram em mais de três séculos as atividades dos tipos móveis em território brasileiro.

Em 1911 fundou a revista O Pirralho, ainda sabotada pelos censores acadêmicos, da qual, além de proprietário, era editor, diretor de arte, redator, colunista e correspondente na Europa. Foi ela o primeiro veículo moderno de opinião publicado no Brasil. Trazia em suas páginas o primeiro time da época, inclusive Monteiro Lobato, e revelava novos que a história confirmaria, tais como Guilherme de Almeida e Di Cavalcanti. Foi em O Pirralho que Oswald, em 1912, fixou observações de viagem em reportagens pioneiras que deram ao Brasil as notícias de uma Europa a se agitar em experimentos vanguardistas na literatura, nas artes e na política. Foi também nela que escreveu, em 1915, o artigo "Em prol de uma Pintura Nacional", o primeiro manifesto publicado em favor de uma arte própria e bem brasileira. E era só o começo.

Em paralelo, atuava na imprensa diária, sacudindo os arraiais de província com artigos contundentes e polêmicas vigorosas. Escrevia a coluna Teatros e Salões no Diário Popular, fazia reportagens para A Gazeta, sob a direção de Cásper Líbero, e artigos diários para o Jornal do Commercio de São Paulo. São célebres o artigo em defesa da pintora Anita Malfatti, num quebra-pau com o seu amigo Monteiro Lobato, e a disputa a pescoções com um colega jornalista pelos originais de Mário de Andrade, que daria no famoso "O meu Poeta Futurista", cuja linguagem mordaz e avant-garde inovava o jornalismo de crítica ao ponto de assustar o próprio homenageado.

Em 1918 fechou a revista e passou a dedicar-se aos caminhos que nos levariam à Semana de 22 - marco inicial da luta, ainda em curso, pela independência nacional de fato e de direito. Assumira já a condição de nosso embaixador informal para as vanguardas e nos deu entrevistas com Isadora Duncan, Anna Pavlova, Nijinsky e outras celebridades que nos visitavam em turnês de espetáculos, ao mesmo passo que revelava a bailarina Carmen Lydia, conduzindo-a ao estrelato nacional através de reportagens para a revista A Cigarra. Sua ação jornalística também alertava para a música inovadora de Villa-Lobos e as essências populares do samba. Na literatura, fez de um discurso que pronunciou no restaurante Trianon um novo manifesto em que lança Menotti del Picchia, publicando-o no Correio Paulistano - peça jornalística conhecida como "Manifesto Trianon". Com Menotti fundou, em 1921, uma nova revista, Papel e Tinta, de vida breve (seis edições quinzenais) e força eterna - outra mantida sob censura da cultura oficial.

Papel e Tinta foi o ensaio geral da Semana de 22. Ao projetá-la, Oswald tinha tudo para criar a primeira revista modernista no Brasil: trazia consigo as experiências de O Pirralho e do jornalismo de coluna e reportagem, em periódicos de projeção nacional, e reunia em torno de si as melhores cabeças do momento. Nela publica seus próprios textos, os de Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Rubens de Morais, Manuel Bandeira e outros "cobras". Ilustra-a com Voltolino, Ferrignac, Di, Brecheret, Anita Malfatti, Lasar Segall, John Graz, Zina Aita, Haaberg - todos integrantes da futura Semana. 

E chegamos na Semana com Oswald atuando nos dois lados da informação: de um lado, como notícia, o ponta de lança e catalisador do evento e, do outro, como jornalista, publicando em veículos de circulação nacional, na difusão das idéias do movimento. E a história oficial pode tentar omitir, mas nunca negar que foi a ação jornalística de Oswald de Andrade, de alcance internacional, que, na década de 20, deu ao Brasil o ingresso na chamada "era moderna". O fato tem seu marco em 1923, quando profere conferência na Sorbonne, em Paris, intitulada "O Esforço Intelectual do Brasil Contemporâneo" - num primoroso texto depois publicado na Revue de l'Amerique Latine e na Revista do Brasil, e que obteve forte repercussão na Europa e aqui. 

Daí surge o primeiro grande fruto da Semana, uma peça jornalística de sua autoria e marco do jornalismo brasileiro, pois fixou-se como marco zero da nossa independência ideológica e cultural: o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, publicado no Correio da Manhã em 18 de março de 1924. Abre o Manifesto a mais importante reportagem jamais conduzida pelo nosso jornalismo desde Euclides da Cunha em Canudos, sob a liderança e a direção de Oswald e com a presença do poeta e jornalista franco-suíço Blaise Cendrars, como observador internacional: a reportagem da descoberta do Brasil, na viagem dos modernistas por São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, que daria ao mundo a notícia da nova arte de um novo povo. Dela ressurgem, diante de um mundo boquiaberto e entre muitos valores da nacionalidade, Aleijadinho e a exuberância da arte popular, a epopéia da Inconfidência no fantástico cenário barroco mineiro e o Carnaval do Rio de Janeiro, a maior festa popular desde as dionisíacas, na Grécia antiga. Tudo ainda vivo ou em tintas frescas, e em paralelo com o fenômeno da indústria e do progresso que transformava São Paulo em metrópole futurista. Oswald faz ali o maior trabalho de jornalismo cultural realizado no país e revela as cores fortes e os traços firmes do Brasil tropical que habitamos, material que, em 1925, publicaria em sínteses poéticas magistrais no livro Pau-Brasil, ilustrado por outra de suas geniais revelações: Tarsila do Amaral.

Entre 1924 e 1927, Oswald mantém a coluna Feira das Quintas, no Jornal do Commercio, de denso conteúdo polêmico, crítico e analítico de política, artes e cultura, e escreve em revistas e jornais de todo o país. Nesse período fortalece sua ação diplomática informal, promovendo Villa-Lobos, Tarsila, Sousa Lima, Di, Anita Malfatti e os modernistas em geral, na Europa, e nos trazendo o melhor da vanguarda européia: De Chirico, Satie, Cocteau, Picasso, Léger, Modigliani e muitos mais. Hospedava no "Solar da Barão de Piracicaba", onde morava com Tarsila, visitantes ilustres como o filósofo Keyserling, a bailarina Josephine Baker, o arquiteto Le Corbusier, o escritor Benjamin de Peret, os sambistas cariocas Sinhô e Januário de Oliveira.

Em 1928 redige o Manifesto Antropófago e funda a Revista de Antropofagia, que, em sua 2ª Fase (ou "2ª Dentição"), colocaria o Brasil, pela primeira e única vez, à frente das vanguardas mundiais, inclusive a jornalística. Se no manifesto anterior ele descortina a Terra Brasilis, suas luzes e cores tropicais, neste, Oswald nos leva à raiz do homo brasiliensis, por ele encontrada no índio e na mais remota pré-história.

Nas duas fases, a Revista de Antropofagia lançou os valores mais radicais do modernismo, conquistando adesões por todo o país. Raul Bopp, Oswaldo Costa, Galeão Coutinho, Nunes Pereira, Jorge de Lima, Jayme Adour da Câmara, Júlio Paternostro, Carlos Drummond de Andrade, Câmara Cascudo, Geraldo Ferraz, Álvaro Moreyra, Alcântara Machado, Clóvis de Gusmão surgem pela primeira vez em escala nacional em suas páginas ilustradas por Tarsila, Di, Cícero Dias e Pagu. Delas surge também o primeiro nome feminino de expressão do nosso jornalismo: Patrícia Galvão (Pagu).
O sucesso da revista é interrompido pelos acontecimentos de 1929 e 1930 e, em 1931, Oswald e Pagu retornam com um jornal de grande circulação, O Homem do Povo, de curta trajetória, pois, aos dezoito dias de existência, foi empastelado e vandalizado pelos estudantes da Faculdade de Direito do largo de São Francisco, sob os inusitados aplausos da imprensa "amestrada", como Oswald já chamava a "grande imprensa" da época.

O Homem do Povo é um dos fatos jornalísticos mais importantes e menos estudados da história do jornalismo no Brasil. Com os acontecimentos de 1929 e 1930, Oswald deduziu, "com inteira razão", que o mundo se dividia em dois sistemas ideológicos: o de Capone e o de Lênin. Urgia que o Brasil aderisse ao de Lênin e essa era a bandeira do jornal, levantada por teses marxistas e nacionalistas bem fundamentadas, escritas em linguagem simples e acessível. As adesões vieram rápidas, com Geraldo Ferraz, Galeão Coutinho, Brasil Gerson e Flávio de Carvalho. Havia também a presença, na direção do jornal e assinando o cabeçalho com Oswald e Pagu, do jornalista e escritor Queirós Lima, ligado a Getúlio, e que está a merecer estudos que a explique melhor. Oswald, aos olhos do poder revolucionário recém-instalado, seria forte candidato, por prestígio e competência, a assumir posição chave no jornalismo nacional, talvez a mesma que acabou nas mãos opostas de Assis Chateaubriand e, em seguida, de Roberto Marinho, dada a burrice histórica dos "comunistas" instalados nos espaços de poder da política brasileira.

Mesmo perseguido e amaldiçoado pelos setores mais reacionários de direita e esquerda, lutando contra o fascismo e o nazismo em ascensão, fichado na polícia como subversivo, submetido às humilhações do obreirismo stalinista do PCB, sofrendo prisões (foi preso treze vezes), censuras, invasões de domicílio e confiscos de sua biblioteca, Oswald mantém-se no jornalismo com a energia de sempre. Em 1935, com um grupo de intelectuais, entre os quais Paulo Emílio Sales Gomes e Oduvaldo Viana, tenta fundar a revista Quarteirão, que ficou nos primeiros números. Sem possibilidades de sustentar veículo próprio, ele assume a direção do jornal Meio-Dia, do Rio, "na primeira fase antinazista, pois mais tarde o jornal, dirigido pelo senhor Jorge Amado, passou a fazer apologia desbragada do nazismo". Ali também assinava as antológicas colunas Banho de Sol e De Literatura. Em 1939 deixa o jornal para ir a Estocolmo, representando os escritores brasileiros na reunião do Pen Club Internacional, que enfim não se realizou por causa da 2ª Guerra Mundial.

Na década de 40 chega a escrever três diferentes colunas em três grandes jornais: Telefonema (diária) no Correio da Manhã de 1944 até a sua morte em 1954, Feira das Sextas, no Diário de São Paulo, em 1943/44, e 3 Linhas e 4 Verdades (diária), na Folha da Manhã (atual Folha de S. Paulo), em 1949/50, além de atuar free-lancer, escrevendo artigos, reportagens e colaborações em mais de quarenta veículos de imprensa de todo o país. No início dos anos 50, publica n'O Estado de S. Paulo a série de teses filosóficas "maravilhosamente bem escritas" intitulada "A Marcha das Utopias". E em 1954, no mesmo jornal, escreve a série "Das Memórias", que resultaria no seu último livro publicado em vida: Um Homem sem Profissão - sob as Ordens de Mamãe. 

Artes, política, ciências, ideologia, saúde, educação, transportes, trabalho, economia, cultura, justiça, agricultura, indústria, comércio, utilidades, entretenimento, alimentação, polícia, esporte, comportamento, moda, natureza, filosofia, mundo, tudo é assunto do cronista perspicaz e pertinente quanto à forma de expor e o momento de publicar. Fritjof Capra, em 1980, chamou a atenção para a necessidade dessa visão "holística" do jornalismo moderno, que Oswald pôs em prática com pioneirismo décadas antes, abrindo o leque de interesse a toda a ação humana que resultasse fato jornalístico, para o qual possuía faro sem igual. E a serviço do leitor. Não se verifica nele um texto venal ou a reboque de outro interesse que não o do leitor e o do país, que, para ele, eram o próprio povo brasileiro e o Brasil como nação livre e soberana. Suas colunas periódicas, desde as primeiras, são verdadeiras aulas de jornalismo moderno, culto e bem informado, e não há uma só peça jornalística de sua lavra sem valor histórico, literário e, antes de tudo, jornalístico.

O que é valor jornalístico? As escolas de jornalismo não ensinam, enquanto omitem o nome de Oswald de Andrade, o mais importante jornalista brasileiro do século 20. Como todos que trabalham valores humanos, o jornalista é compromissado com a humanidade, nos sentidos históricos e nacionais em que ela se expressa e que se configuram diante dele, em primeiro lugar, no público leitor de seus escritos. É a este a quem deve servir, antes de tudo, e é para isso que é pago quando contratado, e não para servir aos interesses de quem o contrata. Isso pode, à primeira vista, parecer ingênuo, mas a história não está nem aí para critérios oportunistas do que seja ou não ingenuidade - para ela, só haverá valor jornalístico na informação colhida e tratada pelo profissionalismo do jornalista que não traia o público - por tentar iludi-lo, ludibriá-lo ou manipulá-lo - e que de fato o defenda, propicie benefício ou contribua para o enriquecimento material ou espiritual da comunidade onde o leitor atua e participa. De outra forma não será jornalismo e nem terá valor como tal.

No Brasil, confunde-se muito história da imprensa com história do jornalismo, talvez em razão das vicissitudes que fizeram ambas começarem aparentemente juntas em nossas terras. Em verdade, a história da imprensa relaciona-se com a do progresso tecnológico e a do jornalismo com a do conhecimento. Claro, há interrelação, mas no Brasil o jornalismo se manifestou muito antes da imprensa, seja nos códices dos vilarejos, nas gazetas em forma de carta e até nos sermões das igrejas, o que, além de dar a Vieira, Gregório de Matos e ao autor das Cartas Chilenas a condição de precursores do nosso jornalismo, estabeleceu uma diferença fundamental em relação ao jornalismo que se fazia na Europa. Quando, enfim, a imprensa nos chega, em 1808, tínhamos já uma propriedade no tratamento da informação desvinculada da sordidez que caracterizava o jornalismo europeu de Ilusões Perdidas. Assim, o nosso jornalismo do século 19, em vez de sabotar seus valores, como se fazia nos frigoríficos capitalistas europeus, nos deu as grandezas de Machado de Assis, José de Alencar, Bernardo Guimarães, Tobias Barreto, Aluísio de Azevedo, Castro Alves, Sílvio Romero e Euclides da Cunha, para só falar de culminâncias, e chegou nas barricadas da luta de classes pelo jornalismo proletário de Oreste Ristori, Neno Vasco, José de Oiticica, Evaristo de Morais e do próprio Oswald com O Homem do Povo. Mas a vinda das rotativas no início do século 20 e a mediocrização do "republicano público" fizeram permitir a importação do veneno comercialista e vendilhão ao nosso jornalismo, que teve (e tem) em Oswald de Andrade o primeiro e o mais eficaz antídoto. 

Equívoco semelhante faz também confundir "jornalismo moderno" com jornalismo feito com tecnologia "de última geração". Nada a ver uma coisa com a outra. Sem dúvida, o jornalismo moderno agrega aos valores do passado as linguagens introduzidas por inovações tecnológicas, em primeiro lugar, escrita e impressa em veículo de grande circulação (a rotativa), depois visual (a fotografia, o cinema mudo), oral (o rádio), audiovisual (o cinema falado, a televisão) e, agora, digital (Internet etc). Marx já nos avisava que nem sempre elas são introduzidas em favor do progresso humano, o que é verdade, sem dúvida. Para nós, o jornalismo moderno é aquele que as utiliza nos sentidos progressista e revolucionário. E a vasta folha de serviços prestados do jornalista Oswald de Andrade (neste artigo anotamos só alguns destaques) o garante o fundador do jornalismo moderno no Brasil. Negá-lo ou omiti-lo não será só atitude de ignorância, mas de má-fé.

Foi autor e precursor de quase tudo de real valor produzido aqui em letra de forma durante o século 20, um século permeado de vexames jornalísticos, tais foram, entre muitos e em crescendo, os aplausos ao empastelamento de O Homem do Povo, a vil campanha contra Vargas em 1954, o apoio à destruição da democracia brasileira em 1964 e a esculhambação do processo histórico-político nacional nas últimas três décadas. Um século em que nossos valores jornalísticos permaneceram nas sombras de desigual combate de resistência e só não se extinguiram porque nela sempre se alinham veículos de imprensa corajosos e vitoriosos como a revista Caros Amigos.

Pois, nestes cinqüenta anos sem Oswald de Andrade, o que se salva no jornalismo nacional é justo o que se ancora e se enraíza, concientemente ou não, em suas lições e descobertas. Como a chamada "grande imprensa", pode-se dizer, deixou de existir entre nós desde o assassinato do Correio da Manhã no início dos anos 70, coube à imprensa independente assegurar informação jornalística de valor - o que tem conseguido historicamente pelo trabalho heróico e competente de algumas dezenas de jornalistas e editores que se sucedem na resistência. Porém, sendo o alcance desse jornalismo minúsculo, tal situação responderá, em última análise, pelo retrocesso histórico que se observa em nossa sociedade desde então; hoje, uma sociedade cega e desorientada porque a imensa e silenciada maioria praticamente não tem acesso a qualquer informação jornalística válida. E nunca ouviu falar no jornalista Oswald de Andrade. 

Mario Drumond é jornalista e autor de Oswaldiana - 1º Mapeamento bio-bibliográfico  da obra publicada de Oswald de Andrade, no prelo. portalimprensa.com.br

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