Política
Entrevista | Ana Estela Haddad
Ana Estela Haddad: "A missão política adia nossa vida pessoal"
Em entrevista a CartaCapital, ela fala sobre sua carreira como gestora pública e acadêmica, sobre aborto e conta os desafios de se ver envolvida em uma campanha presidencial
Flickr OficialHaddad

Ana Estela no ato no Tuca, em SP, às vésperas de Haddad ser anunciado candidato à Presidência
No dia em que completava 30 anos de casada, Ana Estela Haddad teve um sonho.
Ela havia esquecido seu notebook em um lugar e ele “foi embora”, o haviam roubado. A preocupação da livre-docente da USP, ex-gestora de políticas públicas nos ministérios da Educação e da Saúde e coordenadora do programa São Paulo Carinhosa, entre outros tantos papeis que desempenha, não era com o aparelho eletrônico em si.
“Pensava em tudo que estava dentro e que era um pouco a minha vida, sabe?”, conta à repórter da CartaCapital em sua casa com ares modernistas na zona sul de São Paulo após um longo dia que começara às 7 horas com ela e Fernando Haddad, candidato à Presidência da República pelo PT, em uma capela nos Jardins, renovando seus votos matrimoniais.
Naquele dia, 17 de setembro, ela também se sentia mortificada porque um desencontro e a incerteza da sua agenda em tempos de campanha eleitoral impediriam que o filho mais velho, Frederico, estivesse presente na missa que celebrou as três décadas do casal. Nas últimas semanas, foi assim todos os dias: muita correria, mudanças e incertezas.
Poucas horas depois da missa, seu marido seria sabatinado por um portal de notícias. Ana Estela não o acompanharia nessa agenda porque tinha compromissos na USP. Mesmo “usufruindo” de suas férias e licenças-prêmios acumuladas no decorrer de seu trabalho na universidade, ela não se retirou por completo: a cada quinze dias vai à Faculdade de Odontologia dar aula e orientar seus estudantes da pós-graduação.
O “tudo” a que a ex-primeira-dama de São Paulo se referia que havia no seu notebook, roubado no sonho, eram seus últimos 16 anos, sobretudo, de vida acadêmica conciliado com a gestão pública. Ana Estela está dividida.
“A sensação é difícil. É muito difícil a gente ficar o tempo todo dividido, sentindo um conflito de onde é mais importante estar. Eu não tenho essa resposta. Não é uma resposta tão clara.”

Não teve festa nem restaurante para comemorar com Haddad este ano. "Eu queria uma viagenzinha, mas acho que esse aniversário dos 30 anos eu já perdi", lamenta, rindo.
O Haddad que ela leva no sobrenome nada tem a ver com o do marido. "O meu Haddad é do meu pai. As pessoas brincavam, quando estávamos noivo: Mas você não vai por Haddad Haddad? Preferi economizar documento", conta, rindo. O sobrenome, em árabe, faz referência à profissão - significa "ferreiro" e, como as famílias de ambos vieram de cidades distintas do Líbano, não há grau de parentesco.
Na entrevista a seguir, Ana Estela fala sobre sua carreira acadêmica, sua paixão pela política pública, reflete acerca do "papel" de primeira-dama e da mulher na sociedade, sobretudo nos espaços de poder e da política, e fala sobre a temática do aborto no País.
CartaCapital: Como foram os primeiros meses após a saída da Prefeitura?Ana Estela Haddad: Tive experiências anteriores, trabalhei por nove anos no governo federal, nos ministérios da Educação e da Saúde. A gestão pública, quando a gente toma aquilo como uma missão, ela te absorve completamente, ela é muito exigente. Colocar novas iniciativas, novos programas, formular e implementar políticas são desafios imensos. Exige muito das pessoas, exige trabalho coletivo, articulação. É um acompanhamento muito intenso e na Prefeitura não foi diferente.

Já na Prefeitura de São Paulo a situação era distinta porque eu não tinha um cargo. Estava exercendo uma atividade de representação simplesmente, que eu podia ou não fazer alguma coisa.
No meu caso, foi um chamado de foro íntimo, de querer realmente aproveitar a oportunidade de fazer alguma coisa porque eu gosto de política pública, é uma paixão que tenho. Foram quatro anos extremamente desafiadores e muito difíceis porque eu não me afastei das minhas atividades acadêmicas. Trabalhava em tempo integral e fazia o terceiro turno na Prefeitura. Por isso quis me direcionar para uma coisa que fizesse sentido para mim.
Além disso, tinha a atividade de representação. Muitas agendas fiz por minha conta. Outras fazia sentido eu acompanhar o Fernando. Havia esse trabalho também. Essa foi a diferença.
Na minha história na gestão pública, o período da Prefeitura foi mais desafiador porque não tem um arranjo pensado nesse sentido. A gente vive um momento paradoxal porque hoje todo mundo tem sua vida profissional, sua atividade e, de certa maneira, a gente acaba se colocando na posição de também ter uma missão. Claro que eu me envolvi muito, a gente cria amor no que está fazendo.
O maior sofrimento que eu tive foi a saída do MEC, em 2005. Sai porque ele [Fernando Haddad] foi indicado para ministro... Aquele momento foi... Eu estava feliz por ele, mas, por mim, eu estava triste porque eu tive que abrir mão.
CC: Por quê?AE: Ele foi para Brasília primeiro a convite do Guido Mantega para o Planejamento. Depois de alguns meses eu recebi o convite para o MEC, estava na assessoria do gabinete do ministro. Quando o Cristovam [Buarque] saiu e o Tarso [Genro] foi indicado, o Tarso me convidou para continuar porque ele precisava da memória da gestão anterior e de alguém que fizesse a interface com a Saúde. Ao mesmo tempo convidou o Fernando para ser secretário Executivo. Nesse momento nós fizemos uma consulta ao Comitê de Ética da Presidência da República para saber se não havia nenhum conflito de a gente estar no mesmo Ministério. E o entendimento do comitê foi de que, como não havia uma relação hierárquica direta entre nós, estávamos em setores diferentes, não íamos deliberar juntos e eu já estava lá antes da chegada do Fernando, não havia conflito. Então a gente permaneceu.
Depois de um tempo, quando o Tarso tomou a decisão de assumir a presidência do partido e o Fernando foi confirmado como ministro, eu imediatamente escrevi uma carta, pedindo para o Tarso que ele me exonerasse junto com ele porque não havia nenhum sentido eu permanecer.
Aquele momento foi difícil, foi a primeira experiência de me descolar quando eu estava muito envolvida com as coisas que eu estava fazendo, foi minha primeira experiência na gestão pública e foi muito impactante. Depois você aprende que nesses espaços, em todos os espaços, na vida até, você sempre está de passagem, você sempre vai fazer um pedaço e vai interromper a qualquer momento e, muitas vezes, sem planejamento. Então meu aprendizado é que, quando eu saio, eu olho para trás e falo: “Bom, eu fiz tudo o que eu podia. Minha parte eu fiz”.
Por isso, na minha saída da Prefeitura eu estava bem preparada e veio um certo alívio porque eu estava exausta.
O ano de 2017 foi muito importante para mim. Foi um ano de descanso, foi um ano em que eu pude me reequilibrar, concentrar na minha vida acadêmica e botar muita coisa em ordem que estava represada. Pude me encontrar de novo em um eixo mais meu, que não era só os papeis que eu tinha que desempenhar. Foi bom.

CC: Neste programa de governo, para a disputa presidencial, você participou?AE: Tudo foi muito corrido e rápido... Fiz uma leitura de algumas áreas que eu tenho mais afinidade. Eu li a área da Segurança, li a área da Educação, li a área da Saúde. E na Saúde eu enviei algumas sugestões de algumas coisas e outras para complementar o que já havia sido prorposto.

O governo federal dá diretrizes para todas as políticas, mas fazer a atenção básica funcionar é no município que você faz. Na cidade de São Paulo, a Saúde e a Educação tinham uma série de medidas em âmbito federal que não eram aplicadas. Pesava a diferença partidária porque muitas das políticas propostas no governo federal não eram adotadas no município de São Paulo por uma certa rejeição. Com isso a população acaba sofrendo as consequências.
O que eu acho que no nacional a gente pode levar? A experiência que foi construída em um município do tamanho de São Paulo.
Quando você consegue botar de pé uma ideia em uma megalópole como São Paulo, você aprende muita coisa que fica mais fácil você levar essa experiência a outros municípios. Acho que teríamos plena condição - independentemente de assumir outras tarefas - de levar essa experiência a outros municípios e construir uma experiência parecida, como alguns já têm feito.
Não tenho planejado nada ainda caso o Fernando seja bem-sucedido [na disputa à Presidência da República] e com certeza qualquer decisão vai ser interagido com ele e avaliando a cada momento o que pode ser mais útil e interessante, mas ao mesmo tempo alinhado com o meu perfil.

CC: E como foram esses últimos meses no sentido de perceber que o Haddad assumiria a função de candidato à Presidência? Quanto isso, dentro de casa, passou a ser algo concreto?AE: Isso nunca foi nosso foco aqui. Nem no dia que a questão foi confirmada. Uma coisa que aconteceu que eu vejo como algo muito importante foi o presidente Lula ter pedido ao Fernando que coordenasse a elaboração do plano de governo. Ele pegou isso como uma tarefa muito importante, realmente se dedicou. Acho que ser professor tem os cacoetes, a gente tem uma mania de pegar um assunto e se aprofundar, você lê e vê as experiências que existem... Além disso, ele tem toda uma trajetória. Ele vem se preparando ao longo da vida, mesmo a trajetória acadêmica dele teve essa característica.

De muitos anos para cá, desde que ele entrou na gestão pública, ele conseguiu aliar toda essa bagagem teórica acumulada com a experiência prática, de arregaçar a manga e ter que fazer.
CC: Como estão sendo esses últimos meses para a Ana Estela? Você se licenciou da USP num momento em que estava, como disse, colocando em dia sua vida na academia.AE: Você sabe que essa noite eu tive um sonho. Eu sonhei que meu notebook tinha sido roubado. Que eu esqueci ele em um lugar que não deveria ter esquecido e ele foi embora. Eu não estava pensando no meu notebook, no aparelho, estava pensando em tudo que estava dentro e que era um pouco a minha vida, sabe?
A sensação é difícil. Eu estou elaborando ainda porque é muito difícil a gente ficar o tempo todo dividido, sentindo um conflito de onde é mais importante estar. Eu não tenho essa resposta. Não é uma resposta tão clara. É um processo que você vai tateando e vai construindo e, muitas vezes, tenho dúvidas e falo: "Será que eu tenho que fazer tudo isso mesmo? Será que não devia virar as costas e concentrar na minha vida e ficar mais em paz, mais em harmonia e mais tranquila?".
Ao mesmo tempo, eu tive uma história nesses 16 anos [na gestão pública] que eu não tenho como negar. Eu ganhei muito nesse processo em termos de aprendizado, de conhecimento, de vivência que me complementaram e que, de certa forma, complementa a minha vida acadêmica numa outra direção. A minha vida é um pouco heterodoxa num certo sentido. Não é nem muito bem compreendida porque não é uma carreira acadêmica como a da maioria, de ter uma área de estudo, de publicar muito naquela área apenas.

Claro que existem formas de se resolver isso, mas o raciocínio que você tem que usar para produzir evidência academicamente não é o mesmo de fazer o interesse maior do poder público, que é construir equidade. Fazer a evidência científica repercutir na gestão e fazer com que as questões mais importantes da gestão pautem a pesquisa não é um caminho automático. Me vejo um pouco nesse espaço e quando transito de um campo para o outro, me vejo fazendo um pouco isso.
A questão é que isso exige um advocacy dos dois lados. Você está sempre devendo alguma coisa. Você sempre é um pouco menos em cada lugar porque você não constrói integralmente, você está sempre questionando uma coisa de cada lado.
CC: Você não acha que esse sentimento é muito comum na mulher? Um homem, no seu papel, se sentiria assim?AE: Acho. Eu acho que essa forma de sentir é até mesmo uma forma mais feminina do que masculina. O homem, em geral - sem querer generalizar porque cada um é de um jeito -, tende a ser mais pragmático e mais unidirecional. A gente é multitarefa, a gente olha e abraça... a nossa vivência, nossa vida nos exige isso. A gente está numa atividade de gestão, mas você não deixa de ser mãe, não deixa de assumir que a casa e as coisas são de sua responsabilidade. Olhamos em volta e, às vezes, queremos abarcar tudo ao mesmo tempo.
CC: Numa perspectiva em que Haddad seja eleito e você se torne a primeira-dama, já existe um cenário fixo para você? A gestão pública vai tomar seu tempo por completo?AE: Olha, graças a Deus e se Deus quiser, não (risos). Eu não quero pensar. Faço sempre o exercício de viver um dia de cada vez porque, senão, é tão angustiante. Claro que de vez em quando a angustia vem: "Meu Deus, o que será que vai ser? Vai acontecer uma coisa, vai acontecer outra...". Nesse sentido, o mais confortável é ficar como está. Que seja só uma campanha e que acabe a campanha e eu possa voltar para a minha vida como ela está (risos). Eu não sei, mas eu não tenho nada desenhado nem pensado e eu não quero antecipar.
CC: Você é livre-docente e gestora de políticas públicas. Como é ser essa mulher em um ambiente onde você precisa coordenar muitas pessoas, de ambos os sexos? Nos papeis de liderança que você exerce ou exerceu, como lidava com o machismo?AE: Esse é um grande desafio. Existe uma diferença de gênero colocada no espaço profissional de trabalho. E quanto mais você sobe na hierarquia, quanto mais tiver uma posição de maior poder nesse processo, mais fortemente você vai enfrentar esse tipo de situação. E acho que enfrentei em vários momentos, de diferentes formas. Não foi fácil. Nunca é. Hoje eu estou mais escaldada, estou mais velha. A livre-docência veio depois de todos esses enfrentamentos no Ministério da Saúde.
Mas não tem uma receita. Hoje eu sinto a geração mais jovem de mulheres muito mais empoderada de si mesmo, muito mais preparada para essa luta e disposta a fazer muito menos concessões do que eu acho que minha geração fez. Fazendo uma autocrítica, até isso eu acho que a exposição à gestão pública, os espaços dos ministérios que ocupei, foi importante para mim porque é aquela história: quando você é jogado aos leões você tem que aprender a lutar. Não nasci pronta, como ninguém nasce, mas eu fui aprendendo com o processo.
Acho que ter uma boa autoestima é importante, não deixar de acreditar na gente mesma nunca. Não deixar que o ambiente externo, as agressões e os pequenos gestos que vem de fora nos atinja. A força tem que vir de dentro da gente. O mundo, um pouco, vai nos tratar da forma como nos tratamos. Primeiro a gente tem que se tratar de uma determinada forma, para que o mundo entenda como deve nos tratar. Isso pode parecer simples, mas não é tanto assim (risos).

CC: Você está no grupo?AE: Eu não tive tempo de entrar, mas eu estou morrendo de vontade de entrar logo (risos). Não entraria por causa da disputa [eleitoral]. Entraria pela questão das ideias que são inconcebíveis, é inadmissível, é um obscurantismo e um passado que a gente quer enterrar de uma vez. Não é possível tratar as mulheres dessa forma.
CC: A questão da representatividade está muito forte nestas eleições. Para você representatividade é mulher votando em mulher?AE: É mais do que isso. Vou citar meu exemplo: eu recebi três convites. Um para me candidatar a deputada estadual, outro para me candidatar a deputada federal e o último para compor a chapa com [Luiz] Marinho (PT), como vice dele para o governo estadual. O [convite] do Marinho chegou muito em cima da hora e eu já não estava mais com prazo para me desincompatibilizar da USP.

Tem quem também espere um papel muito figurativo, talvez mais vazio. Então o fato de eu gostar da gestão, de arregaçar as mangas, de dar palpite era uma coisa que no começo assustava as pessoas.
Trabalhei sete anos no ministério da Saúde, implantei vários programas que foram bem-sucedidos, que são reconhecidos internacionalmente hoje e não vou trazer a minha contribuição? Como vou chegar num município e ficar olhando? Não dá, é difícil.
Com o passar do tempo as pessoas foram entendendo. O secretário me convidou para presidir o comitê de telessaúde, ajudar a implantar o telessaúde no município, que foi um programa que fiz no Ministério. Por isso é passo a passo, todo dia desconstruindo. Isso é uma coisa difícil.
CC: Você acha que mulher tem que votar em mulher?AE: Se parte de um pressuposto que uma mulher por ser mulher, estar na pele de uma mulher, vai entender melhor quais são os problemas que a mulher tem porque é muito difícil que um homem consiga perceber. Isso é fato. Todas nós que sentimos na pele. Nos nossos relacionamentos.
Há uma cumplicidade colocada porque só a gente está na nossa pele por mais que eles sejam sensíveis, isso vai até um certo ponto. A questão existe. Isso leva a entender que a mulher na política pública vá ter mais sensibilidade.
Teve um estudo internacional recente mostrando que, em geral – claro que não dá também para generalizar -, mulheres têm um grau de compromisso, de responsabilidade que nem sempre... quer dizer, existe uma diferença. Essas questões estão muito por trás dessa ideia de que mulher tem que votar em mulher.
Agora, de fato de fato, em tudo, o mundo ideal para nós é aquele que não tivesse a diferença de gênero e que a gente pudesse discutir por ideias independentemente do gênero, do sexo. Na vida real a gente ainda não chegou lá. Hoje é muito desproporcional a participação feminina no Congresso, nos governos... Quando a gente vê um filme de uma cineasta e de um cineasta é completamente diferente. Um livro escrito por um homem e por uma mulher, são outras narrativas e a gente ainda está muito sub-representada, esse é o fato. A gente precisa crescer em representatividade em todos os espaços, político é um deles, mas não só. Nas ciências, nas engenharias, como cientistas, na própria cultura, no cinema, em tudo.
CC: Mas você não aceitou nenhuma das propostas...AE: Ia ser mais difícil na minha situação, porque no meu caso tem uma tripla situação. A primeira questão é que eu estou num momento da minha vida acadêmica... Eu lutei por 16 anos para manter um pé em cada canoa e não deixar a peteca cair. Falta, para mim, chegar no último degrau que é o [de professora] titular. Eu estou num ponto agora que se eu me volto à vida política, que é extremamente absorvente... Além disso, vendo a situação do País e vendo o momento que o Fernando estava enfrentando e está em vias de enfrentar... Fiquei muito tempo em dúvida, mas quando isso se concretizou (a candidatura à Presidência dele) achei que era muita coisa nesse momento.
CC: Não está descartado para o futuro?AE: Não está descartado para o futuro. Eu gosto dessa área. Eu acredito nas políticas públicas como um espaço importante de melhoria da sociedade, da gente poder construir uma situação melhor.

CC: Você trabalha na área da Saúde. Queria saber qual a sua posição sobre o aborto?AE: Eu gostei da forma como você perguntou porque eu já fui perguntada sobre isso muitas vezes na Prefeitura, mas de maneira diferente: “você é contra ou a favor ao aborto?”.
Você não me perguntou se sou contra ou a favor, então vou te responder porque as outras vezes não respondi por se tratar de uma pergunta mal formulada e a gente, como mulher, não deve perguntar desse jeito.
Primeiro lugar, como alguém da Saúde, eu tenho a sensibilidade de perceber que o aborto hoje, como está colocado na sociedade, é um problema de Saúde Pública. Tem muita menina, tem muita mulher morrendo por conta de um aborto mal feito. E por que isso acontece? Porque a gente não está sendo efetivo e também está falhando no processo de permitir democratizar os acessos aos meios de planejamento familiar. Se você não tem um bom planejamento para ter relação segura, igualitária, sem situações de violência que muitas vezes acontecem...
Vou citar uma experiência no município de São Paulo, porque a gravidez na adolescência era uma questão que a gente estava muito sensível e estava trabalhando muito no São Paulo Carinhosa. É risco para menina, é risco para o bebê e é uma situação social que você reproduz um ciclo de inequidade porque a menina engravida mais se ela estiver fora da escola; se ela está grávida, ela sai da escola, ela deixa o ciclo regular e ela tem dificuldade de voltar, aí ela já tem uma vida para cuidar e não tem como se sustentar. Às vezes ela se sujeita a uma situação de violência e o bebê também vai sofrer as consequências. E é um ciclo que se reproduz.
Ninguém quer fazer um aborto. É uma situação de violência e traumática para quem faz. Ninguém quer precisar fazer um aborto. Agora gerar uma vida e enfrentar uma situação de violência e ter que levar essa situação a cabo...
Me pergunto como está nosso processo educacional? Como é que está a situação nas unidades de saúde? Os adolescentes estão tendo acesso à informação? A gente sabe que tem muito que fazer em termos de políticas pública. Deus queira que a gente possa chegar num dia em que ninguém precise ser submetida a um aborto. É isso que eu gostaria que acontecesse em nossa sociedade, mas a gente precisa criar as condições para isso e eu acho que a criminalização não contribui.
Não sei se você acompanhou a professora Débora Diniz que fez uma grande pesquisa e fez um pronunciamento do Supremo Tribunal Federal sobre sua pesquisa, sobre o número de mulheres que já se submeteram a um aborto. É um número muito grande. A pergunta é: essas mulheres deveriam estar encarceradas? É isso que a gente quer para nossa sociedade? Criminalização não contribui.
Não sou a favor do aborto como um método contraceptivo, acho que a gente tem que poder ter outros. Todos têm que ter direito a escolher quando e como ter uma relação sexual de forma saudável e a gente precisa para isso criar também mais igualdade de gênero.
No bairro de Pinheiros (zona peste de São Paulo), a gente verificou 0,2% de incidência de gravidez na adolescência. Sabe quanto é em Cidade Tiradentes (zona leste)? 20%. Há um problema aí. Informação é importante. Então há muito por fazer na saúde, na educação.
CC: Mas o tema não engloba só crianças e adolescentes. Existem mulheres adultas que querem ter esse direito de optar.AE: Sim, mas eu acho que, primeiro, o caminho não é criminalizar. Não acho uma prática desejável e que ninguém queira fazer. É um violência em si. A gente tem que trabalhar na sociedade para que não seja necessário [abortar], mas ao mesmo tempo não desamparar e não deixar como está. Porque se deixar como está as mulheres vão continuar morrendo por conta disso. E encarcerar não é o caminho.
CC: Tradicionalmente o PT e outros partidos tentam esconder ou ao menos não declarar uma posição sobre o aborto em período de eleições. O aborto é ainda um tabu para os partidos?AE: Não sei te responder essa questão. Eu acho que os partidos refletem um pouco o que está na sociedade. Os partidos estão no estágio em que a sociedade está. Não estão a mais ou a menos. Há outros países que já pensaram mais nessa discussão e acho que a gente devia sim se reportar e analisar um pouco. Precisamos trazer mais informação para o debate antes até de pensar em um posicionamento definitivo. O debate ainda não está maduro. É uma questão que deveria entrar em pauta e ser mais discutida e mais debatida.
CC: Na chapa do Hadadd temos a Manuela D'Ávila que sempre se posicionou muito claramente sobre a questão do aborto. Como será... figuras tão distintas: o PT, um partido que sempre tratou esse assunto como um tabu, com uma pessoa como a Manuela que sempre foi muito clara na sua posição?
AE: Isso eu já não posso te responder. Você terá que perguntar para os candidatos.

Eu gosto muito de fazer política pública, mas se eu pudesse escolher fazê-la sem ter que enfrentar o que significa a exposição pública pessoa da figura e da imagem... porque é muito cruel.
O melhor momento são os filhos e os momentos que podemos estar juntos um pouco dehttps://www.cartacapital.com.br/politica/ana-estela-haddad-a-missao-politica-represa-nossa-vida-pessoalspreocupados, leves, sem o peso dos bombardeios do que vai ser.
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